Centenário de Garoto - O Gênio das Cordas

Aníbal Augusto Sardinha - Garoto

*28/6/1915 - São Paulo (SP)
+3/5/1955 - Rio de Janeiro (RJ)

Violonista / Compositor / Multiinstrumentista

 

Aníbal Augusto Sardinha - Garoto -, quinto filho de imigrantes portugueses, foi o primeiro dos cinco irmãos a nascer no Brasil. Herdou do pai a paixão pelos instrumentos de corda. Foi o irmão Batista que lhe deu o primeiro instrumento, um banjo. Ainda de calças curtas tocou em festas familiares, cinemas, cafés e circos.

No depoimento ao MIS (Museu da Imagem e do Som) Garoto disse:

Com 5 anos, peguei do lavatório o violão do meu irmão Batista, do qual ele tinha ciúme louco, e sozinho fiz a posição de dó maior. Batista tinha então um conjunto e guardava os instrumentos em casa. Quando não estava ninguém, eu experimentava todos: violão, flauta, sax, bandola, bandolim, guitarra portuguesa. Tirava uns sons. Às vezes meu irmão me surpreendia e me passava um pito, chamando-me de moleque”.

Logo o apelido de Moleque do Banjo pegou e ele com apenas 12 anos já acompanhava o cantor Paraguassu, que fazia enorme sucesso em São Paulo e foi, por um tempo, uma espécie de tutor artístico.

O apelido de “Garoto” veio da pergunta que sempre era feita pelos ouvintes que o ouviam tocar: “Quem é esse garoto?

Em 1930, ainda tocando banjo, Garoto associa-se ao violonista Montezano, mais conhecido como Serelepe, e a dupla realiza testes na gravadora Parlophon, dirigida pelo grande compositor Francisco Mignone. A aprovação foi imediata, e eles gravaram duas músicas, ambas de autoria de Garoto: “Bichinho de queijo” e “Driblando”.

Consultei um dos maiores colecionadores de discos do Brasil, o grande Mestre Miguel “Nirez” Azevedo, que me informou nunca ter visto essas gravações em disco físico, mas que as duas músicas são citadas em várias discografias.

Aimoré e Garoto

Foi na porta da Parlophon que Garoto conheceu José Alves da Silva (Aimoré), estabelecendo com ele uma ligação duradoura enquanto viveu em São Paulo. Entre 1930 e 1938 os dois estiveram sempre trabalhando, estudando e gravando juntos.

Foi a partir dos anos de 1930 que o Rádio se consolidou, abrindo o mercado de trabalho para os músicos. Para Garoto e demais músicos o rádio oportunizou trabalho e viagens pelo país e até exterior, a exemplo da Argentina, onde reza a lenda que Garoto e Aimoré teriam acompanhado Carlos Gardel.

Só aos 18 anos de idade Garoto inicia seus estudos formais em música, inicialmente com o professor Atílio Bernardini (1933) e em seguida no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo (1937).

Em 1936 grava seu segundo disco em 78 rpm com duas músicas de sua autoria. Confiram.

Moreninha” (Garoto) # Garoto (guitarra havaiana), Aimoré [José Alves da Silva] (violão) e Carlinhos (violão). Disco Columbia (8223-A) / Matriz (3340), 1936. [Composição de Garoto dedicada à sua esposa, Dugenir de Castro/Foto acima].

Dolente” (Garoto) # Garoto (guitarra havaiana), Aimoré [José Alves da Silva] (violão) e Carlinhos (violão). Disco Columbia (8223-B), 1936.

Laurindo e Garoto

Já em 1938, contratado pela Rádio Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro, integra time da emissora, ocasião em que forma com o violonista Laurindo Almeida o conjunto “Cordas Quentes” e a “Dupla do Ritmo Sincopado”, que acompanha vários artistas em suas gravações, a exemplo de Dorival Caymmi, Ary Barroso e Carmen Miranda.

Em outubro de 1939, convidado por Carmen Miranda, Garoto embarca para os Estados Unidos integrando o Bando da Lua. Com Carmen e o Bando da Lua, se apresenta em várias cidades e participa de alguns dos filmes da Pequena Notável.

Garoto, Carmen Miranda e o Bando da Lua

Em julho de 1940, Carmen e o Bando da Lua retornam ao Brasil para desfrutarem de umas férias. A intenção de Garoto era retornar com o grupo, mas como não consegue negociar um contrato satisfatório decide ficar no Brasil, retornando às atividades na Rádio Mayrink Veiga, passando em 1942 a integrar a prestigiada Rádio Nacional.

Algumas das suas gravações das décadas de 1930 – 1940

Quando dói uma saudade” (Garoto) # Garoto. Disco Odeon (12201-B) / Matriz (6465). Gravação (24/9/1940) / Lançamento (setembro/1942).

 “ Meu cavaquinho” (Garoto) # Garoto. Disco Continental (15692-B) / Matriz (1536), 1946.


>Com a pianista Carolina Cardoso de Menezes, Garoto formou uma renovada dupla no início da década de 1940.

Confiram algumas das gravações excepcionais da dupla.

Garoto, em 1950, grava a bela valsa-choro “Desvairada”, que se transformou numa espécie de prova de fogo para os violonistas, devido a sua difícil execução. 

Desvairada” (Garoto) # Garoto. Disco Odeon (13016-B) / Matriz (8665). Gravação (27/3/1950) / Lançamento (junho/1950).

A Rádio Nacional se tornou uma das emissoras mais ouvidas do país e excelente campo de trabalho para os músicos. Houve uma época em que existiam seis orquestras, onze regionais e dez conjuntos menores.

Integrado à Rádio Nacional, Garoto, em 1951, é convidado a participar de um projeto intitulado “Música em surdina”, sob o comando do produtor Paulo Tapajós, cujo objetivo consistia em destacar instrumentistas virtuosos.

Aceitou o desafio e convidou para atuar com ele Romeu Seibell (Chiquinho do Acordeon) e o violonista Fafá Lemos (Rafael Lemos Jr.). Acabava de nascer o “Trio Surdina”, que gravou pela primeira vez “Duas contas”, letra e música de Garoto. Infelizmente o referido trio teve vida curta em decorrência da morte de Garoto em 1955.

Duas contas” (Garoto) # Garoto. Gravação inédita de Garoto feita em acetato no estúdio da RGE (Rádio Gravações Especializadas), em São Paulo, 1950.

Algumas capas de Disco do Trio Surdina

Garoto grava com o Trio Surdina, em 1953, uma composição que mais tarde deu muito o que falar. Ouçam abaixo:

OBS: Estamos aguardando o áudio da música: "O relógio da vovó"

Muitos teóricos/estudiosos da MPB apontam nessa música de Garoto a origem de “Desafinado” (Tom Jobim/Newton Mendonça). Tirem suas conclusões.

Garoto, Radamés Gnattali e Chiquinho do Acordeon

Ainda na Rádio Nacional, Garoto conviveu com grandes arranjadores e maestros, como Lírio Panicalli, Léo Peracchi e Radamés Gnattali. Com o último teve contato constante que resultou numa benéfica influência, perceptível em suas composições, além de estreitarem laços de amizade a ponto de Radamés, avesso a gestos da espécie, emprestar-lhe seu estimado violão Di Giorgio; além disso, dedicou-lhe o seu “Concertino nº 2 para violão e piano”, o qual o próprio Garoto estreou, em 31 de março de 1953, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Chiquinho e Garoto

Garoto compôs em parceria com Chiquinho do Acordeon o seu maior sucesso, o dobrado “São Paulo Quatrocentão”, em homenagem ao quarto centenário da capital paulista.

Henrique Cazes no seu livro “Choro: do quintal ao municipal” relata uma interessante historinha de bastidores:

Quando foram ao escritório da gravadora para a assinatura do contrato da música, Chiquinho e Garoto foram indagados sobre o que eles poderiam gravar do outro lado do 78 rotações. Garoto afirmou na hora:

- Do outro lado vamos gravar o ‘Baião do rouxinol’.

Ao esperar o lotação, na saída da gravadora, Chiquinho perguntou a Garoto como era o ‘Baião do rouxinol’, que ele nunca tinha ouvido falar. Garoto, mais experiente, o acalmou:

- Vamos ter que fazer esse baião agora, para gravar amanhã; senão vamos dar carona pra alguém, pois este disco vai vender muito”.

Garoto foi na mosca. Para a época o êxito foi estupendo: 700 mil cópias vendidas!

São Paulo Quatrocentão” (Garoto) # Garoto e sua Bandinha. Disco Odeon (13525-A) / Matriz (9845), 1953.

Baião do rouxinol” (Garoto/Chiquinho do Acordeon) # Garoto e sua Bandinha. Disco Odeon (13525-B) / Matriz (9846), 1953.

OBS: Estamos aguardando o áudio acima.

O nosso Garoto compôs mais de uma centena de músicas da melhor qualidade. Difícil, mesmo, é escolher as preferidas. Mesmo assim vou me arriscar.

As minhas preferidas. E as suas?

Lamentos do morro” (Garoto) # Garoto. Gravação inédita de Garoto feita em acetato no estúdio da RGE (Rádio Gravações Especializadas), em São Paulo, 1950.

Jorge do fusa” (Garoto) # Garoto. Gravação inédita de Garoto feita em acetato no estúdio da RGE (Rádio Gravações Especializadas), em São Paulo, 1950.

Amoroso” (Garoto) # Garoto/Carolina Cardoso de Menezes. Disco Victor (800003-B), 1942. [posteriormente recebeu letra de Luís Bittencourt].

Choro triste nº 1 / Tristezas de um violão” (Garoto) # Garoto. Disco Odeon (13119-B) / Matriz (8871). Gravação (21/10/1950) / Lançamento (Abril/1951). [Garoto arrasa no violão elétrico]

Choro triste nº 2” (Garoto) # Garoto. Gravação inédita de Garoto feita em acetato no estúdio da RGE (Rádio Gravações Especializadas), em São Paulo, 1950.

Chico Buarque, Garoto e Vinicius de Morais

Foi o violonista Baden Powell que mostrou para o Poetinha Vinicius de Moraes o tema musical do violonista/compositor Garoto, “Gente humilde”. Segundo o livro “Histórias e Canções” (Chico Buarque/Wagner Homem) a canção já tinha título e até uma letra de um poeta mineiro que nunca se identificou.

Todo mundo sabe das ciumeiras do Poetinha com seus “parceirinhos”. Na época (1969) a ciumeira era por conta de algumas composições feitas por Tom Jobim e Chico Buarque. Vinicius colocou nova letra na melodia de Garoto e insistiu com Chico para melhorar a referida letra. Vencido pelas insistências Chico escreveu os versos: “pelas varandas/ flores tristes e baldias/ Como a alegria/ que não tem onde encostar”. Tal qual uma criança, o Poetinha correu para o telefone para contar ao Tom que o Chico também era parceiro dele. Chico Buarque gravou “Gente humilde” no seu quarto LP.

Gente humilde” (Garoto [melodia]/Chico Buarque/Vinicius de Moraes [letra]) # Chico Buarque. LP Chico Buarque de Holanda nº 4, 1970.

Foto de Garoto dois anos antes de sua morte

Aníbal Augusto Sardinha, nosso eterno Garoto, não tinha completado os 40 anos de idade quando partiu numa tarde de maio de 1955, vitimado por um infarto fulminante, em seu apartamento da Rua Constante Ramos, em Capacabana. O jornal O Globo noticiou sua morte.

Morreu Garoto, tocador de violão e compositor de uma porção de melodias populares lindas. No céu que deve existir para os músicos, as harpas provavelmente calaram para deixar vez aos acordes de seu violão tenor, e as sombras de Bach e Mozart e de Noel Rosa tiveram em primeira audição em chorrilho: ‘São Paulo Quatrocentão’, ‘Kalu’, ‘Baião caçula’, ‘Amoroso’, ‘Coração’ e uma porção de outras músicas bonitas. Houve festa, na terça-feira passada, no céu dos músicos”.

A precocidade que sempre imperou em sua vida agora se faz presente também em sua morte. Sai de cena o Garoto que surpreendia a todos, com seus inquietos dedos, levando-os a questionarem: “Quem é esse garoto?”.

Tentando dar uma resposta pessoal, digo que Garoto é um multiinstrumentista e compositor de primeira grandeza que, apesar de ter vivido apenas 39 anos, deixou um legado imensurável à música brasileira com um todo e, em especial ao violão, sendo apontado como o fundador do moderno do violão brasileiro.

Participei de todas as edições do FENAVIPI (Festival Nacional de Violão do Piauí), onde tive a oportunidade de conviver com grandes nomes do violão brasileiro e mundial, a exemplo de Turíbio Santos, Fábio Zanon, Marco Pereira, Alessandro Penezzi, Carlos Barbosa-Lima, Nonato Luiz, Jorge Caballero, Marcos Tardelli, Fabiano Borges, Henrique Annes, entre outros. Todos foram unânimes em destacar a obra de Garoto no universo do violão brasileiro, impressão que compartilho com entusiasmo.

Tom Jobim e Garoto

Em 1959, quatro anos após sua morte, o maestro Soberano Tom Jobim compôs, em homenagem ao nosso Garoto, o choro “Garoto”.

Garoto” (Tom Jobim) # Raphael Rabello (violão) / Benjamim Taubkim (piano) / Dininho (baixo), Oren Perlim (guitarra) / Dirceu Leite (sax, flauta, clarinete), Wislson das Neves (bateria), 1993.

A vida/obra de Garoto deve sua atualização a Paulo Bellinati, provavelmente o violonista que mais se dedicou à sua obra, e ao escritor Jorge Mello, responsável pela biografia “Gente Humilde - Vida e Música de Garoto”.

Felizmente várias homenagens ao Centenário de Garoto acontecerão até dezembro, traduzidas em shows, discos, recitais, concertos...

No Centro de Referência da Música Carioca Arthur da Távola, na Casa do Choro, no Clube de Choro de Brasília, no Clube do Choro de Santos (com a participação de vários músicos, a exemplo do Luis Nassif), na Caixa Cultural em São Paulo, entre outros eventos.

Segundo o jornal O Globo/Cultura (27/6/2015), em CD, há o projeto do Terno Carioca, grupo formado por Luiz Flávio Alcofra (violão), Lena Verani (clarinete) e Pedro Aragão (bandolim e violão tenor), que se propõe a fazer uma “releitura atualizada” de composições de Garoto, em gravação prevista para agosto.

É a nova geração apostando na perenidade da obra de Garoto.

O compositor e muliinstrumentista, absolutamente original, Aníbal Augusto Sardinha – Garoto -, durante toda sua vida conservou o olhar, o sorriso e o jeito de “garoto”.

 

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Post dedicado ao amigo, jornalista e músico Luis Nassif, bem como a todos que apreciam a obra grandiosa de Garoto.

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Fontes:

- Almanaque do Choro, de André Diniz. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

- Dicionário Cravo Albin da MPB (Verbete: Garoto).

- Choro: do quintal ao Municipal, de Henrique Cazes. - São Paulo: Ed. 34, 1998.

- Fotomontagens: Laura Macedo / Demais fotos: acervo pessoal/internet.

- Jornal O Globo/Cultura (Edição de 27/6/2015).

- Histórias de Canções - Chico Buarque/Wagner Homem: - São Paulo: Leya, 2009.

- Rádio Nacional: o Brasil em sintonia, de Luiz Carlos Saroldi/Sonia Virgínia Moreira: Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

- Revista Carioca nº213/P.38/1939.

- Site YouTube: Canais - (“luciano hortencio”, “SenhorDaVoz”, “ArquivoRaissaAmaral”).

- Site #radinha: Áudios.

- Violões do Brasil, de Myriam Taubki (Org.). São Paulo. - Ed. SENAC São Paulo, 2007.

- Violão Ibérico, de Carlos Galilea. Trem Mineiro Produções Artísticas. Rio de Janeiro, 2012.

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Comentário de Laura Macedo em 30 junho 2015 às 22:19

Este post foi destaque no GGN - Blog do jornalista Luis Nassif.

Confira as opiniões e novos vídeos postados pelos comentaristas AQUI.

Viva Garoto!!

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