César Guerra-Peixe


* 18/3/1914 - Petrópolis (RJ)
+ 26/11/1993 - Rio de Janeiro (RJ)

Compositor / Maestro / Arranjador / Musicólogo

Neste ano de 2014 vários acontecimentos marcantes, pelo menos em minha opinião, pipocarão pelo Brasil afora: A Copa do Mundo de Futebol, as Eleições Majoritárias em todo país e alguns Centenários de grandes nomes da nossa música, a exemplo do compositor, maestro, arranjador, e musicólogo César Guerra-Peixe que hoje - 18 de março de 2014 -, estaria completando 100 anos.

A foto acima foi tirada no dia 15 de março de 1914, ou seja, três dias antes do nascimento de Guerra-Peixe.

Família de Francisco Antônio Guerra-Peixe: Da esquerda para direita. Atrás: Palmira, Antônio Hermínio, Anna e Tereza; à frente: Amélia, Filomena, Anna Adelaide Guerra Peixe (mãe), Linnie, Francisco Antonio Guerra-Peixe (pai), e Emilia.

No carrinho, uma boneca substituindo o que nasceria dias depois, na certeza de que seria do sexo feminino...(Eu, hein?...)” Nota feita no verso da foto por Guerra-Peixe, em novembro de 1982.

Guerra-Peixe foi um músico completo, que, ainda criança, já tocava piano, violino, violão e bandolim. Nem por isso deixou de estudar e aperfeiçoar o dom musical, submetendo-se a prova de admissão ao curso de violino no Instituto Nacional de Música do Rio de Janeiro, logrando o primeiro lugar. Paralelamente aos estudos aceita os convites para se apresentar em bailes, igrejas, clubes e todo tipo de acontecimento.

A composição é uma tônica na sua carreira. O próprio Guerra-Peixe define suas fases de compositor em três: Inicial (1942/1943), Dodecafônica (1944-1949) e Nacional (1945/até sua morte).

Um bom exemplo da Fase Inicial é a composição “Fibra de herói”, popularizada como “Bandeira do Brasil”, composta com Teófilo Filho, gravada por Sílvio Caldas.

 

“Fibra de herói” (Guerra-Peixe/Teófilo de Barros Filho) # Sílvio Caldas. Disco RCA Victor (800013A), 1942.

A Fase Dodecafônica (sistema de composição atonal, criado pelo compositor austríaco Arnold Schonberg (1874-1951) é baseada no livre emprego dos 12 semitons da escala temperada) é um método que engendra obras difíceis, já que as seqüências melódicas não encontram referências internas na mente dos ouvintes, como se a música “não se resolvesse” – o que, ao pé da letra, é o que ocorre. Nada mais distante de uma canção popular. E foi isso que Guerra-Peixe percebeu e começou a por em prática, com a ajuda das ideias de Mário de Andrade, um novo enfoque às suas composições. A composição “Noneto” representa bem essa fase.

Noneto”(Guerra-Peixe) # Grupo Música Viva, 2009.

Na terceira fase batizada de “Nacional” é inegável a forte influência de Mário de Andrade em sua obra, principalmente, vinda do livro “Ensaio sobre a música brasileira”. Nessa fase Guerra-Peixe iniciou uma longa caminhada para o nacionalismo, que marcou toda sua obra a partir de 1949.

Suas pesquisas folclóricas realizadas nos estados de Pernambuco, São Paulo e Rio de Janeiro, tornaram-no mestre dos ritmos, harmonias e danças. Excelente orquestrador atuou também como arranjador na Música Popular Brasileira.

(Na foto ao lado com o músico Cego Aderaldo o qual hospedou por quatro meses a fim de estudar o toque da rabeca).

Guerra-Peixe foi um artista multifacetado atuando em várias frentes: Rádio, Orquestra, Livro (Maracatus do Recife), Teatro de Revista, Arranjo, Docência e no Cinema participando de dezenas de filmes, dos clássicos às chanchadas da Atlântica, atuando na direção musical ou escrevendo a trilha sonora.

Como arranjador um dos trabalhos de Guerra-Peixe, que virou um clássico da nossa MPB, foi o genial disco “Afro-sambas”, de Baden Powell e Vinicius de Moraes.

As oito canções apresentam uma rica e singular musicalidade, que traz uma mistura de instrumentos do candomblé e da umbanda (como atabaques e afoxés) com timbres mais comuns à música brasileira (agogôs, saxofones e pandeiros).

 

Diante da magnitude da obra de Guerra-Peixe, passei alguns dias matutando a melhor forma de homenageá-lo, chegando à conclusão que tentarei via suas composições.

De viola e rabeca, escrita para violino e violão, foi a origem de uma peça famosa de Guerra-Peixe: “Mourão”. Tratando-se de peça muito conhecida, o ouvinte encontrará melodias e ritmos conhecidos da versão orquestral, agora na vestimenta camerística de outros instrumentos.

Mourão”(Guerra Peixe/Clóvis Pereira) # Orquestra Sinfônica Brasileira. Regência Maestro Roberto Minczuk. Concerto de abertura da temporada 2014.

Seu Maestro: Uma homenagem à Guerra-Peixe”.

Neste LP “Sambas Clássicos”, lançado pelo selo “Chantecler”, em 1962, temos o maestro/compositor Guerra-Peixe e seus músicos interpretando 12 clássicos do samba, em arranjos fantásticos, demonstrando a incrível capacidade do maestro no trânsito entre o clássico e o popular.

Agora é cinza” (Alcebíades Barcelos/Armando Marçal).

Canto do mar” (Guerra-Peixe/José Mauro de Vasconcelos) # Inezita Barroso.

Trio” (Guerra-Peixe) # Ricardo Amado (violino) / David Chew (violoncello) / Ruth Serrão (pianoforte).

Brincando de amar” (Guerra-Peixe/Célio Moreira) # Jane Simone (voz) / Radamés Gnattali (regência).

É você que tem” (Guerra-Peixe) # Demônios da Garoa.

Ó maripá” (Guerra-Peixe) # Orquestra, arranjos e coro sob a direção de Guerra-Peixe.

Prá frente Brasil” (Miguel Gustavo) # Coral Joab Teixeira (TV Tupi/Rio de Janeiro) / Orquestração e regência do maestro Guerra-Peixe, 1970.

Diz nos meus olhos (Inclemência) (Guerra-Peixe/Zélia Duncan) # Zélia Duncan.

Um olhar, um sorriso” (Guerra-Peixe) # Agostinho do Santos.

Costumo homenagear nossos artistas em datas comemorativas, principalmente em seus Centenários de nascimento, mas o que comumente ocorre é a ausência de atividades alusivas a essas datas. Felizmente no caso de Guerra-Peixe as comemorações já começaram e, pelo andar da carruagem, encontraram ecos o ano inteiro. Confiram algumas.

Acontecerá dia 18 de março de 2014, na cidade de São Leopoldo o Concerto musical em comemoração ao centenário do compositor Cesar Guerra-Peixe, por meio do projeto SESC Partituras. Na mesma data, 27 estados brasileiros realizarão concertos simultaneamente com músicos locais, incluindo grupos de câmara, corais, solistas e orquestras. (Fonte aqui)

O Concurso Nacional de Composição Guerra-Peixe: 100 anos, é parte integrante do evento homônimo promovido pela Escola de Música da UFMG que será realizado em abril de 2014, em comemoração ao centenário de nascimento do compositor César Guerra-Peixe. (Fonte aqui)

Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e Coral Lírico celebram o centenário de César Guerra-Peixe.

Sob regência do maestro titular Marcelo Ramos e acompanhado do Coral Lírico de Minas Gerais, o concerto será realizado no Grande Teatro do Palácio das Artes, dia 21 de março, com execução inédita da “Sinfonia nº. 2 Brasília”, que teve as partituras restauradas. (Fonte aqui)

A Prefeitura de Petrópolis já divulgou a lista dos indicados ao Prêmio Maestro Guerra Peixe de 2014. Instituído por lei municipal e já na quinta edição, o prêmio, administrado pela Fundação de Cultura e Turismo, é outorgado a artistas e instituições da cidade que mais se destacam nas diversas áreas da atividade cultural durante o ano anterior.  São 10 categorias, além de um troféu instituído para homenagear um petropolitano de reconhecida importância no cenário cultural do país. A edição deste ano vem com o brilho especial da comemoração do centenário de Guerra-Peixe. (Fonte aqui)

Guerra-Peixe durante sua fase de maturidade artística compôs “Tributo a Portinari”, confirmando seu incomparável domínio de orquestração. Poucos compositores conseguiram, como ele, atingir uma versatilidade e uma admirável concisão de linguagem, buscando na simplicidade a sua arma mais eficaz.

Tributo a Portinari” (Guerra-Peixe).

Acesse o Site Projeto Guerra-Peixe aqui

O site em homenagem ao maestro Guerra-Peixe não é somente dirigido a músicos, mas também aos amantes da música, artes e da cultura brasileira. Consta de: Apresentação / Linha da Vida / Catálogo / 80 Exemplares / Método / Textos / CD Tributo / Fontes Bibliográficas / Contatos / Ficha Técnica.

Um dos textos disponíveis para leitura: Variações sobre o Baião. (Revista da Música Popular nº 5 - fevereiro - 1955 (páginas: 2, 3 e 32).

Guerra-Peixe nos deixou um fabuloso legado artístico. Conviveu nos dois universos, o erudito e o popular e, em ambos, foi gigante por saber experimentar e romper regras. Por isso sua saída de cena é irreparável, não só pelas inspiradas composições, mas pelo conjunto da obra que envolve suas realizações como professor, ensaísta e pesquisador.

Felizmente as novas gerações têm assimilado seu legado aprofundando seus ensinamentos na saudável brincadeira de experimentar novos sons e, com isso, oportunizar a perenidade da boa Música Brasileira.

************

Fontes:

- Coleção Revista da Música Popular. - Rio de Janeiro: Funarte / Bem-Te-Vi Produções Literárias, 2006.

- Dicionário Cravo Albin da MPB (Verbete Guerra Peixe).

- Fotos internet e do meu acervo pessoal.

- Fotos montagem Laura Macedo.

- História do Samba. Rio de Janeiro: Globo, 1997-1998. Quinzenal. 40 fasc. 40 CDs.

- Sites: Oficial Guerra Peixe / Revista da Música Brasileira / #Radinha (áudios) / Irmãos Vitale-Editores / YouTube (vídeos).

************

Exibições: 1754

Comentário de Laura Macedo em 17 março 2014 às 21:17

Amigos,

Não consegui retirar o vídeo "Trio" que foi repetido na formatação do post. Segue o vídeo correto abaixo.

“Trio” (Guerra Peixe) # Ricardo Amado (violino) / David Chew (violoncello) / Ruth Serrão (pianoforte).

Comentário de Gregório Macedo em 18 março 2014 às 3:53

Você, com muita pertinência, atribuiu a Guerra-Peixe o epíteto merecido: gigante. A arte brasileira (não só...) deve muito a gigantes qual o aniversariante. Valeu a homenagem!

Beijos.

Comentário de Laura Macedo em 18 março 2014 às 14:25

Gregório,

Fiquei super feliz com a realização da homenagem ao GIGANTE Guerra-Peixe e, também, com o seu apoio e comentário.

Super beijo.

Comentário de lucianohortencio em 18 março 2014 às 16:25

Comentário de Laura Macedo em 18 março 2014 às 20:28

Amigo Luciano, grata pelo vídeo.

Abraços da amiga Laura.

Comentário de Laura Macedo em 21 março 2014 às 20:57

Incorporando aos comentários excelente vídeo, garimpado no Facebook de Jane Guerra-Peixe, em homenagem aos 100 Anos o maestro Guerra-Peixe.

Concerto SESC Partituras 2014 / 18/3/2014

Guerra peixe 100 Anos

Museu da Gente Sergipana

Com o objetivo de preservar e difundir o acesso ao patrimônio musical brasileiro, o Sesc Partituras apresentou nesta terça-feira, 18, no Museu da Gente Sergipana, o concerto dedicado à obra para violão do compositor Guerra-Peixe.
O concerto foi executado pelos violonistas Alessandro Pareira, Ricardo Vieira e Marcus Ferrer, que após récitas Solo, se uniram para interpretar 3 peças do compositor.

 

“Espertinho” (Guerra Peixe) # Alessandro Pereira / Ricardo Vieira / Marcus Ferrer.

Comentário de Laura Macedo em 2 dezembro 2014 às 22:58

ATUALIZAÇÃO

em 2 de dezembro de 2014.

Fico super feliz quando a obra de um artista brasileiro é reconhecida, de preferência em seu país de origem e, também, no exterior. É o caso do Compositor / Maestro / Arranjador / Musicólogo César Guerra-Peixe (1904-1933), cujo centenário de nascimento está sendo comemorado no corrente ano de 2014.

Foi lançado dia 29 de novembro, na Biblioteca Nacional de Portugal o Nº 11 da Revista Glosas, dedicada ao Centenário no nosso grande Guerra-Peixe. (A referida revista pode ser encomendada no link: " http://mpmp.pt/produto/glosas-11/

Música de César Guerra-Peixe (Excerto do 4.º andamento, 'Bumba-meu-boi', de 'Tributo a Portinari'; Orquestra Petrobras Sinfônica, dir. Isaac Karabtchevsky).

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2019   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço