Leo Peracchi
* 30/09/1911 - São Paulo (SP)
+16/01/1993 - Rio de Janeiro (RJ)


Regente / Arranjador / Pianista / Professor / Compositor e um dos grandes Mestres da Instrumentação Moderna Brasileira.

 


DADOS BIOGRÁFICOS E FORMAÇÃO



Leo Peracchi nasceu em São Paulo, em 30/09/1911, portanto, há 100 anos, primeiro filho de Memore e Ada Peracchi. Teve quatro irmãos, três dos quais também musicistas.

 

Toda a sua formação musical foi feita em casa e no Conservatório do pai onde, ainda de calças curtas, dava aulas de teoria e solfejo, graduando-se em 1927 nas cadeiras de piano e composição.

 

Casou-se três vezes: a primeira com Sofia Giordani, com quem viveu durante 18 anos; segunda com Lenita Bruno, cantora lírica, com quem teve uma filha, Míriam (também cantora) e terceira com Nina Campos, de sólida e diversificada formação acadêmica.

 

 

 Leo Peracchi, Lenita Bruno (de vestido escuro e colar) com a filha Miriam e familiares.

 

Vítma de um princípio de derrame (1989) que o impediu de continuar escrevendo partituras, passa a viver sob os cuidados dos filhos, vindo faleceu em 16/01/1993.

INÍCIO DA CARREIRA

 


Começou dirigindo pequenas orquestras, acompanhando filmes nos cinemas da cidade. Toda a fase inicial da carreira de Leo Peracchi foi dedicada ao rádio, a partir do trabalho como pianista e maestro da Rádio Kosmos, de São Paulo, em 1939, passando, também, pelas Rádios Bandeirantes e Educadora Paulista.

 

Logo se mudou para o Rio de Janeiro (1941), onde ingressou na Rádio Nacional como regente e orquestrador. Ali permaneceu durante quase duas décadas, participando de vários programas como "Brasil em tempo de valsa", "Canção antiga", “Um milhão de melodias”, "Poemas e canções", "Versos e melodias", “A História das Orquestras” e "Quando os maestros se encontram", entre outros.

 Muita gente não se importava de assistir em pé aos grandes programas da Rádio Nacional.

Neste último programa, em particular, alguns dos principais maestros brasileiros, como Alceu Bocchino, Leo Peracchi, Lyrio Panicalli e Radamés Gnattali se reuniam para apresentar suas novas concepções de arranjos, executados pela Orquestra da Rádio Nacional, que contava sempre com grandes músicos.

 

No programa Um Milhão de Melodias - patrocinado pela Coca-Cola e mantido de 1943 a 1956 -, dividia com Radamés Gnattali a tarefa da "regência". Radamés regia os músicos, no palco, enquanto Peracchi regia "pela partitura os operadores dos oito microfones".

 

 

 
COMPOSITOR

 

Leo Peracchi não foi um compositor popular. Praticamente todo o seu interesse, na composição, esteve voltado para obras eruditas, algumas das quais estão relacionadas a seguir:

 

 

“Sinfonieta Nº1”, para orquestra de câmara

“Divertimento”, para orquestra

“O gigante egoísta”, sobre conto infantil de Oscar Wilde, para coro e orquestra

"Missa Nossa Senhora de Lourdes”

“As aventuras de Tibicuera”, poema sinfônico

“Stâmena”, ballet em três atos

“Variações sobre o tema ‘Vem cá, Bidú’ de Alexandre Levi Hexameron”.

 

 

O interessante é que são conhecidas apenas cinco peças populares de Leo Peracchi, lançadas no LP “Nos Tempos dos Bons Tempos – Em Tempo de Macumba”, do qual participaram João da Baiana, Donga, Ataulfo Alves e Jorge Fernandes (seu parceiro nessas composições): “Aruanda”, “Conga”, “Ogum Iara”, “Oxum-maré”.

 


Ogum Iara(Leo Peracchi / Jorge Fernandes)

"Aruanda" (Leo Peracchi / Jorge Fernandes)

Uma faceta pouco conhecida de sua vida musical são as trilhas sonoras que escreveu para filmes da Atlântida e da Flama, a exemplo de “Amei um bicheiro” (1952) atuando como diretor musical e “Assim era a Atlântica” (1974) como compositor.

 

 

 

 

Nem sempre seu nome aparece nos créditos e, portanto, a dimensão de sua obra como compositor de trilhas de cinema ainda é imprecisa.

 

 

PROFESSOR E ARRANJADOR

 

Sua atuação como professor foi, junto à de regente-arranjador, uma constante em toda a sua vida. Ensinava principalmente harmonia, composição, arranjo e orquestração, inclusive na Academia Lorenzo Fernandez. Nos muitos anos em que passou no exterior foi a sua principal fonte de renda.

 

Leo Peracchi teve enorme importância como formador de músicos e incentivador de jovens artistas brasileiros. Foi professor de teoria e solfejo de Toquinho (cuja mãe, Dona Diva, era amiga de seu pai); de Tom Jobim , por indicação de Aloysio de Oliveira, numa época em que o jovem compositor, ávido por novos conhecimentos, queria enfronhar-se nas técnicas da orquestração.
Outros dos que cresceram sob a sua batuta foram o pianista Arthur Moreira Lima - a quem regeu, aos nove anos de idade, na Rádio Nacional - e Eduardo Gudin (guardião de muitos dos seus arranjos originais).

 

 

Leo Peracchi era amigo de Villa-Lobos, que o solicitava para ler no piano novas partituras orquestrais.

 

Um belo dia, levou Tom para conhecê-lo - a história deste encontro, e das conversas entre os três, foi mais tarde contada por Tom em diversas oportunidades.

 

 

 

 Segundo Eduardo Gudin, Tom era muito reservado no que dizia respeito aos seus estudos musicais. Isso sempre foi um mistério na sua biografia. Chega a ser lacônico, só mudava quando pronunciava o nome de Leo Peracchi:

 

  

 

“Aí eu chamava meu professor Leo Peracchi. O Leo sabe tudo.” (palavras de Tom Jobim em seu último especial para a TV Cultura).



Na estreia de "Orfeu da Conceição", de Tom Jobim e Vinícius de Morais, que aconteceu no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 25/09/1956, era ele – Leo Peracchi - o regente da orquestra, que tinha Luiz Bonfá ao violão e Tom Jobim ao piano.



Quando Tom e Elis Regina realizaram uma temporada de shows no Teatro Bandeirantes, em São Paulo, na esteira do sucesso do disco que lançaram em conjunto, Leo Peracchi foi convidado por Jobim para adaptar os arranjos escritos por Claus Ogerman e dirigir a orquestra.

 

 

 

Fechava-se ali um ciclo – o velho maestro reencontrava o amigo e, juntos, revisitavam os arranjos originais de Claus Ogerman, o principal arranjador da carreira de Jobim, e a pessoa que melhor soube expressar a leveza, a elegância e a sutileza que haviam aproximado Peracchi e Tom vinte anos antes.

 

O estilo dos arranjos de Leo Peracchi pode ser definido por palavras como elegância, sutileza, economia. Também não existe preferência ou predomínio por determinados instrumentos nas orquestrações; Peracchi se destacou justamente por saber equilibrar todos os timbres sonoros da orquestra.


Confiram o arranjo de Leo Peracchi para "Foi a noite”, uma das canções de início de carreira de Tom Jobim em parceria com Newton Mendonça, gravada por Sylvinha Telles.. Eu, particularmente amo essa música.

Os arranjos que escreveu para o disco de Lenita Bruno (na época sua esposa), “Por Toda a Minha Vida” (1959), no qual interpreta canções de Tom e Vinícius, várias delas gravadas pouco antes em “Canção do Amor Demais”, são um excelente exemplo de sua técnica de arranjador.

Este disco pode ser ouvido como uma ponte entre os arranjos tradicionais de orquestra e os arranjos que caracterizam a música brasileira moderna.

 

Por questões contratuais, o nome de Peracchi não pôde aparecer nos créditos, mas no texto da contracapa Jobim deixa um agradecimento: “A quem não tenho a permissão de citar nesta contracapa, a minha gratidão ...”

 

Por toda minha vida” (Tom Jobim / Vinicius de Moraes) # Lenita Bruno e Orquestra.

 

"Canta, canta mais” (Tom Jobim / Vinicius de Moraes) # Lenita Bruno e Orquestra.

 

Eu não existo sem você (Tom Jobim / Vinicius de Moraes) # Lenita Bruno e Orquestra.

 

 

"As praias desertas” (Tom Jobim) # Lenita Bruno.

 

 

DISCOGRAFIA

 

Praticamente toda a discografia própria de Leo Peracchi é da década de 1950. Sua estreia se deu com uma homenagem a um compositor brasileiro:

 “Valsas Brasileiras – Zequinha de Abreu” (Musidisc, LP 10' / 1955).



Seguiram-se discos de ocasião, criados alguns para o mercado externo, nos quais Leo Peracchi exercita sua habilidade de orquestrador. Por exemplo:

 

“Exaltação ao Baião” (Odeon, LP/1957).

 

 


“Sambas e Violinos" (Odeon, LP/1958).

 

Porém o melhor de Leo Peracchi está nos arranjos que escreveu para outros artistas, como:


“Ary Barroso – Trio Surdina e Leo Peracchi e sua Orquestra" (Musidisc, LP 10' / 1953). Neste LP, o Trio Surdina e Leo Peracchi interpretam, cada um, 4 composições de Ary Barroso, mas não tocam juntos. É o primeiro registro em LP dos arranjos de Leo Peracchi.

 

 

 “Noel Rosa” – Horacina Corrêa & Orquestra Leo Peracchi. (Musidisc, LP 10’ / 1954).

 

“Carícia” (Odeon, LP 10' / 1957) foi o disco de estreia de Sylvia Telles.

 

Chove lá fora” (Tito Madi) # Sylvinha Telles / Leo Peracchi e Orquestra.

 

 “Garoto Revive em Alta Fidelidade” (Odeon, LP/1957), no qual interpretações inéditas de Garoto foram remasterizadas e receberam arranjos de Leo Peracchi.

 

“Caymmi e o Mar” (Odeon, LP/1957), com os primeiros arranjos orquestrais para as canções praieiras de Dorival Caymmi.



O Mar” (Dorival Caymmi) Arranjador: Leo Peracchi

 

 

OBS: Áudio temporariamente indisponível.

 

 

 

 

 

 

 

 
"Leo fez um disco lindo com meu pai, 'Caymmi e o Mar' (1957). Fez uma cortina cinematográfica por trás, eu era garoto e achei que era o que eu queria ser na vida. Estou longe de concretizar isso, porque não estudei. Sou intuitivo, hoje sinto falta do estudo. Mas existe um ponto de diferença. Você vai ganhar muito dinheiro e ser muito famoso, ou vai gostar de acordes e harmonias. Leo Peracchi era assim, e eu também sou." (Dori Caymmi).

 

 

 

 

 

 
“Meu Brasil Brasileiro” (Odeon, LP/1958), no qual Ary Barroso aparece como solista de piano. Arranjos de Leo Peracchi.

 

Para ouvir clique, AQUI.


Por Toda a Minha Vida” (Festa, LP/1959), no qual Lenita Bruno interpreta canções de Tom e Vinícius, já mencionado anteriormente.

Confira toda a DISCOGRAFIA de Leo Peracchi:

Em 78 rpm, AQUI
Em vinil, AQUI. 

 



Em 2002, a gravadora Dabliú lançou “O Mestre Leo Peracchi e a Jazz Sinfônica – Canções de Tom e Vinícius”, no qual os mesmos arranjos originais de “Por Toda a Minha Vida” são executados ao vivo pela Orquestra Jazz Sinfônica, tendo as cantoras Céline Imbert, Mônica Salmaso, Tetê Espíndola, Ná Ozzetti, Vânia Bastos, Jane Duboc e Myriam Peracchi (filha de Leo / foto abaixo) como solistas.

 

 

 


Eu sei que vou te amar” (Tom Jobim / Vinicius de Moraes) # Myriam Peracchi.

 

OBS: Áudio indisponível no momento

"Sem você” (Tom Jobim / Vinicius de Moraes) # Jane Duboc.

 

 

Encerrando o show...

 


Eu sei que vou te amar” (Tom / Vinicius) # com todas as cantoras juntas.

 

 

 

 

OBRAS ESCRITAS

 

 

 

 

 

Sob o pseudônimo de Esther Abbogg:

- O meu método (para piano)

- Harmonia (método para autodidatas)

 

 

 

 

 

ORQUESTRAS QUE REGEU

 

 
Leo Peracchi regendo a Orquestra da Rede Globo


- Orquestra Sinfônica da Rádio Nacional

 

- Sinfônica Brasileira do Rio de Janeiro

 

- Orquestra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro

- Orquestra de Câmara de Nova York

- Orquestra Sinfônica da Filadélfia

- Orquestra Sinfônica de Belgrado 



OBRAS

 

- Sinfonieta Nº1 – para orquestra de câmara

- Divertimento – para orquestra

 
- O Gigante egoísta - conto infantil de Oscar Wilde, para coro e orquestra
-Hhiribizzi e Gorigori – Caprichos e Borrões

 
-Missa “Our Lady of Lourdes” – Nossa Senhora de Lourdes

 
-As aventuras de Tibicuera – poema sinfônico

-Salmo 24 – Para solistas, coro e orquestra

-Stâmena – ballet em três atos (inédito no Brasil)

-Variações sobre o tema “Vem cá Bidu” – de Alexandre Levi (arranjo)
Hexameron (inédito)


 

 

Pesquisando na internet acerca das comemorações do Centenário de Leo Peracchi, infelizmente não encontrei nada programado para tão importante data, considerando a magnitude de um artista que participou de momentos decisivos na definição da identidade sonora brasileira.


Confesso que, de início, eu não tinha tanta familiaridade com a obra do maestro Leo Peracchi, mas com a realização deste “mosaico” fui, gradativamente, estabelecendo um elo afetivo com sua vida e obra.
Ainda creio que, durante todo o ano do seu Centenário, as merecidas homenagens aconteçam, nas várias mídias. O importante é que o público tenha a oportunidade de apreciar a estética da sua obra para que, enfim, se faça justiça a este gênio da batuta.

 

 

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FONTES:

1- Livros
- Rádio Nacional: o Brasil em sintonia, de Luiz Carlos Saroldi / Sonia Virgínia Moreira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.
- Almanaque da Rádio Nacional, de Ronaldo Conde Aguiar. – Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2007,
- Uma História da Música Popular Brasileira – das origens à modernidade, de Jairo Severiano. – São Paulo: Ed. 34, 2008.

2- Sites
- O Maestro Leo Peracchi
- Músicos do Brasil: Uma Enciclopédia Instrumental

- Colllector's Studios 
- Discos do Brasil
- 300 Discos Importantes da Música Brasileira (agradecimento especial ao amigo 300)

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Exibições: 1272

Comentário de Gregório Macedo em 30 setembro 2011 às 5:37

Eu não conhecia Leo Peracchi, mas agora posso dizer que sei quem foi o professor de imortais da MPB, rol em que se destaca o mestre Tom Jobim. O valor de Peracchi é imensurável, e todas as homenagens a ele oferecidas certamente serão insuficientes. De qualquer sorte, agora compreendo toda a dedicação e esmero que você dedicou a este trabalho. Quantas canções marcantes trazem a 'trilha' de Peracchi! Quando as ouvirmos novamente, em especial 'Foi a noite', lembraremos: o grande Peracchi deixou sua alma aqui.

Felicitações!

Beijos.

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