Luiz Gonzaga do Nascimento

 

*13/12/1912 - Exu - (PE)
+2/8/1989 - Recife - (PE)

 

 

A saga do Rei do Baião iniciou-se na fazenda Caiçara, ao pé da serra do Araripe,  município pernambucano de Exu.

 

 

 

Casa da fazenda Caiçara, ainda preservada.

 

 

 

Réplica da casa onde nasceu Luiz Gonzaga, que ele mesmo mandou construir no Parque Asa Branca, em Exu.

 

 

 

Luiz Gonzaga do Nascimento, segundo dos nove filhos do casal Januário (José dos Santos) e Santana (Ana Batista de Jesus) chegara ao mundo com barulho e festa. Naquele dia, seu pai, que além de trabalhar na roça era sanfoneiro oficial da região, comemorou em casa com os amigos da vizinhança, tocando sua sanfona de oito baixos e tomando uma caninha com nambu assado.

 

 

 

 

Um mês após o nascimento aconteceu o batismo. Na ocasião o padre sugeriu chamá-lo de “Luiz”, por ter nascido no dia de Santa Luzia; “Gonzaga” porque o nome completo de São Luís era Gonzaga; e “Nascimento”, porque dezembro é o mês do nascimento de Cristo. Foi o único dos irmãos que não recebeu o sobrenome do pai, “dos Santos”.

 

 

 

 

Santana e Januário. O casal trabalhou duro na roça para garantir o sustento da família.

 

 

 

 

O menino foi crescendo livre pelo sertão, a exemplo dos moleques da região. “Era uma vida pobre, sem escola, mãe puxando a enxada. Se o inverno vinha bonzinho, a gente até melhorava a panela”.

 

 

 

Ajudava o pai tanto na roça quanto nos consertos das sanfonas, para desespero da mãe, que dizia não querer mais um sanfoneiro na família. De nada adiantaram os protestos. Entre a roça e a sanfona o filho de Januário e Santana foi crescendo.

 

 

 

 

 

Aos 17 anos entrou em atrito com um coronel cuja filha quis namorar. O resultado foi uma baita surra que levou da mãe após o fuxico do coronel. Envergonhado com a surra e percebendo que Exu não bastava para ele, juntou a fome com a vontade de comer e empreendeu seu plano de fuga. À noite fugiu pro mato e, de lá, para a cidade do Crato. Vendeu seu fole e comprou uma passagem para Fortaleza, decidido a se alistar no Exército. (Foto: Luiz Gonzaga o Recruta 122, o corneteiro Bico de Aço).

 

 

 

 

Com o 23º Batalhão de Caçadores, com sede em Fortaleza. Revoluções e aventuras pelo interior do Brasil.

 

 

 

Corneteiro do batalhão, percorreu vários estados da federação. Depois de servir por dez anos, deixou a vida militar.

 

 

“- Fui soldado de Getúlio Vargas e, como todos, cumpria ordens. Afinal, comia a bóia que era do governo, meu patrão. Mas nunca matei ninguém. O que eu queria mesmo era ser sanfoneiro”.

 

 

 

Passou por São Paulo, comprou uma sanfona branca de 120 baixos e foi ao Rio de Janeiro (1939) carregando na bagagem uma passagem de navio para o Recife (de onde iria a Exu), roupa do corpo e sua sanfona branca. Mas a monotonia dos dias que passou no quartel enquanto aguardava o navio foi quebrada com a sugestão de um colega para ganhar um dinheirinho tocando nos bares e prostíbulos do Mangue, onde conheceu o músico Xavier Pinheiro, uma espécie de anjo da guarda da sua vida/carreira. Perdeu a passagem, mas em compensação ganhou sonhos e esperanças.

 

 

 

 

 

 

Luiz Gonzaga nos primeiros tempos do Mangue, tocando os gêneros da época - valsas, polcas, mazurcas, fox-trotes e chorinhos - para ganhar alguns trocados.

 

 

 

 

 

 

O rádio se firmava no país como um meio de comunicação popular e Gonzaga procurou, de todas as formas, interagir nesse meio.

 

 

 

 

Criados em meados dos anos 1930, os programas de calouros viraram febre na década de 1940. A quase totalidade das emissoras de rádio tinha um programa do gênero. Gonzaga, que não dava ponto sem nó, procurava estar muito bem informado sobre tudo que acontecia nas emissoras. Frequentou primeiramente os programas do coronel Bacurau e de Silvino Neto, antes de encarar o “Calouros em Desfile”, do multifacetado e temido Ary Barroso. Nunca foi gongado, mas também não conseguia passar de uma nota três. O repertório apresentado era o mesmo com que animava as noites do Mangue.

 

 

Numa das suas noitadas no Mangue um grupo de estudantes cearenses – entre os quais o depois ministro da ditadura Armando Falcão – exigiu que ele tocasse algo do sertão. Primeiro ele sapecou “Pé de serra”, para em seguida atacar com “Vira e mexe”, e o público aplaudiu calorosamente. Ao passar o pires constatou que precisava de uma bandeja para recolher tanto dinheiro. O amigo Xavier disse: “Agora tu pode retornar ao Ary”. E assim ele fez.

 

 

- Quando chegou minha vez, eu estava um tanto receoso.

 

- Luiz Gonzaga!

 

- Pronto.

 

- Outra vez? Tá ficando freguês, hein? Qual é a valsa de hoje?

 

- Não é valsa não, seu Ary.

 

- Vai tocar tango? Isso é instrumento de tango mesmo...

 

- Também não. Vou tocar um negócio lá do Norte, seu Ary.

 

- Como é o nome desse negócio?

 

- Vira e mexe.

 

Riu e fez um trocadilho

 

- Pois então, arriva e mexe esse danado... A gente vê cada uma...

 

 

A plateia explodiu em aplausos e gritos. Ary Barroso lhe deu a nota cinco (máxima) e o prêmio de quinze mil réis.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Gonzaga seguiu firme apresentando-se em todos os lugares para onde o convidavam. E uma novidade surgiu: sua primeira participação em disco como sanfoneiro (5/3/1941), na faixa “Viagem de Genésio”. Uma semana depois (14/3) gravou, enfim, na Victor, os seus dois primeiros discos (78 rpm) como solista: o primeiro com a mazurca “Véspera de São João” (Luiz Gonzaga/Francisco Farias) e a valsa “Numa seresta” (Luiz Gonzaga), e o segundo com a valsa ‘Saudades de São João Del Rei” (Simão Jandi ‘Turquinho’) e o chamego* “Vira e mexe” (Luiz Gonzaga).

 

* “chamego”: era um novo gênero musical - espécie de chorinho, ligeiro, alvoroçado, com forte sotaque nordestino – inventado por Gonzaga.

 

 

 

Ouça os dois primeiros discos

 

 

Véspera de São João” (Luiz Gonzaga/Francisco Reis) # Luiz Gonzaga. Disco Victor (34.744A), 1941.

 

 

Numa serenata” (Luiz Gonzaga) # Luiz Gonzaga. Disco Victor (34.744B), 1941.

 

Vira e mexe” (Luiz Gonzaga) # Luiz Gonzaga. Disco (34.748B), 1941.

 

 

 

 

 

 

 

Depois de passar por algumas emissoras de rádio, em 1941, assinou contrato com a Rádio Tamoio (originária da Tupi). Suas pretensões de cantar as próprias músicas foram podadas pelo então diretor artístico da emissora – o pernambucano/compositor -Fernando Lobo, que, anos depois, lamentou a atitude.

 

 “O contra-regra me falou que quando faltava um artista, Gonzaga cantava no lugar. Eu chamei Gonzaga e falei que ele não fora contratado como cantor. Ele era sanfoneiro e sanfoneiro continuaria a ser. Nada mais”.

 

 

 

 

 

Carmem Costa foi a primeira intérprete de Luiz Gonzaga, gravando “Xamego” em fevereiro de 1944.

 

 

Xamego” (Luiz Gonzaga/Miguel Lima) # Carmem Costa.

 

 

 

 

 

 

 

Em 11 de abril de1945 Luiz Gonzaga consegue, pela primeira vez, o feito de gravar, cantando, uma de suas composições, “Dança Mariquinha”. Apesar de não ter desagradado, a reação do público não foi entusiasmada.

 

 

Dança Mariquinha” (Luiz Gonzaga/Miguel Lima) # Luiz Gonzaga. Disco Victor (80.0281A), 1945.

 

Nordestino da gema não era de negar fogo. No mesmo ano em setembro volta ao estúdio para gravar, outra vez cantando, a mazurca “Cortando pano”, que dois meses após lançada estourou nas paradas. Com essa música Luiz Gonzaga se fez cantor de verdade.

 

 

 

 

Cortando o pano” (Luiz Gonzaga/Miguel Lima/J. Portela) # Luiz Gonzaga, 1945.

 

 

 

 

 

Gibão e chapéu de couro: com a vestimenta do nordestino pronto para longas viagens e doces sonhos.

 

 

 

Bons ventos sopravam na carreira de Luiz Gonzaga. O dinheiro que ganhava com sua arte já dava para ajudar um pouco a família em Exu. Também já era hora de deixar o morro de São Carlos dando adeus à primeira fase da vida carioca e assumir, definitivamente, suas raízes nordestinas, inclusive trajando-se como tal.

 

 

 

 

 

 

 

Os biógrafos de Luiz Gonzaga são unânimes em afirmar que a única fraqueza que ele tinha eram as mulheres. Não podia ver “um rabo de saia”. Uma de suas táticas era prometer casamento, mas, na hora “do pega pra capar”, escapava direitinho. Impossível, aqui, relatar todos os casos amorosos. Destacaremos, sucintamente, os três mais importantes/duradouros: Odaléia, Helena e Edeuzita.

 

 

 

 

 

 

 

 

Odaléia Guedes dos Santos, a Léia, protagonizou um capítulo ardente na intensa vida amorosa de Gonzaga, mesmo os dois vivendo entre “tapas e beijos”. Era uma mulher independente (em pleno ano de 1944) que gostava de dançar e lutava por sua carreira de cantora. Participava do coro de Erasmo Silva (integrante, com Wilson Batista, da dupla Verde e Amarelo), e almejava ser uma cantora popular. Foi Erasmo quem proporcionou a aproximação do casal.

 

 

 

 

 

Luiz Gonzaga e Odaléia felizes com o bebê, Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, no ano de seu nascimento, 1945.

 

 

 

Quanto à polêmica da paternidade (existem inúmeras teses) uma é a de que ninguém de sã consciência batiza alguém com seu próprio nome se não tem certeza que é seu filho.

 

 

 

Léia, franzina e muito magra, contraiu tuberculose quando o filho tinha apenas dois meses de idade, sendo necessário separá-los para evitar o contágio. Luizinho foi entregue a Dina e Xavier. (Segundo Gonzaguinha, a mãe morreu em 1948, mesmo ano em que Luiz Gonzaga se casou com Helena, mas existe controvérsia).

 

 

 

 

Luiz Gonzaga, Odaléia, Xavier (padrinho). Um raro registro de Gonzaguinha com a família, no Morro de São Carlos, Rio, onde foi criado.

 

 

 

 

Um dos sonhos de Luiz Gonzaga era oferecer aos pais uma vida melhor na então capital do país. Motivado por esse sonho decidiu que era hora de procurar uma esposa. Alguém com a missão de cuidar de sua família, da casa e, quem sabe, de ajudá-lo na administração de sua carreira. E não é que ele encontrou! Era a também pernambucana Helena, que trabalhava como contadora e era fã do artista Luiz Gonzaga, para quem havia enviado uma carta via Radio Nacional.

 

 

 

 

Luiz Gonzaga ao lado de César de Alencar, um dos grandes radialistas da Rádio Nacional

 

 

 

Foi após uma apresentação de Luiz Gonzaga no programa César de Alencar que Helena cruzou com ele:

 

- "O senhor é que é o Luiz Gonzaga? Quero dizer ao senhor que na minha terra toda carta tem resposta".

 

 

 

 

Helena Cavalcanti e Luiz Gonzaga, 16 de junho de 1948, na igreja Nossa Senhora Aparecida, no Méier.

 

 

 

Foram apenas nove meses para o casório acontecer, bem como as complicações. De personalidade forte e dominadora, Helena se tornaria uma empresária eficiente, controlando a carreira e a vida do marido.

 

 

 

 

O casal Helena e Luiz Gonzaga com Rosinha, a filha adotada

 

 

 

 

A primeira complicação foi que Helena e, principalmente, sua mãe não quiseram criar o Luizinho (como Gonzaguinha era chamado), que continuou vivendo com os padrinhos. Fora isso ela cultivou pelo marido um ciúme sem limites ao longo da vida, controlando-o sem dó e piedade. Apesar dos constantes altos e baixos do relacionamento, nunca se separaram oficialmente.

 

 

 

 

Com Zuita, a última companheira, uma paixão na meia idade.

 

 

 

Nos últimos catorze anos de vida Luiz Gonzaga manteve um relacionamento amoroso com Edelzuita Rabelo - mais uma pernambucana em sua vida. E era na casa dela que sempre se hospedava quando ia ao Recife. Ele encontrou em Zuita tudo o que a mulher Helena não podia lhe dar.

 

 

- “Eu tentei falar em separação, disse que lhe dava tudo. Só queria que me deixasse a sanfona. E ela respondeu: - É isso que você quer? Então é isso mesmo que eu não vou querer”.

 

 

A Gonzaga só restou a opção de viver uma vida dupla. Para Helena negou até o fim o romance com Zuita. As duas mulheres acompanhariam juntas toda a cerimônia do funeral de Luiz Gonzaga. (Foto abaixo)

 

 

 

 

 

 

 

 

PRINCIPAIS PARCEIROS

 

 

 

Da esquerda p/ direita os três principais parceiros de Luiz Gonzaga: Zé Dantas, João Silva e Humberto Teixeira

 

 

 

As primeiras experiências de Luiz Gonzaga com parceiros foram com Miguel Lima e Lauro Maia. O primeiro não correspondeu às expectativas, apesar de Gonzaga considerá-lo um bom poeta; é que Miguel desconhecia e não valorizava o som nordestino. Já o segundo era nordestino do Ceará, de quem Gonzaga já conhecia algumas das composições. Mas não seria ainda desta vez o sonho da parceria almejada. O fato positivo foi que Lauro Maia apresentou-lhe o cunhado, também cearense, advogado, letrista e poeta, Humberto Teixeira.

 

 

 

 

 

 

 

 

O encontro histórico da dupla aconteceu no escritório de Humberto, numa tarde de agosto de 1945, e estendeu-se das quatro e meia da tarde à meia noite. Ambos chegaram à conclusão de que o gênero musical a eleger seria o baião. Foi rapidinho que as canções começaram a fluir, originais ou adaptadas. As primeiras foram “No meu pé de serra” e “Baião”.

 

 

 

No meu pé de serra” (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira) # Carmélia Alves

 

 

 

 

 

 

Baião” (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira) # Quatro Ases e um Curinga

 

 

 

 

 

 

Em outubro de 1946, mês da chegada às lojas da gravação acima, com os Quatro Ases e Um Curinga, teve início a Era do Baião, quando a música nordestina alcançaria um sucesso de proporções jamais imaginadas. Infelizmente, a conjugação dos talentos musical de Gonzaga e poético de Teixeira desfez-se em 1952, quando deixaram de pertencer a uma mesma sociedade arrecadadora de direitos autorais.

 

 

 

 

A parceria Luiz Gonzaga X Humberto Teixeira rendeu 27 composições, todas elas  expressivas, segundo o pesquisador Jairo Severiano, merecendo destaque os baiões “Juazeiro” (1949); “Baião de dois”, “Paraíba”, “Qui nem jiló” e “Respeita Januário” (1950); as toadas “Asa Branca” (1947), “Légua tirana” (1949), “Assum preto” e “Estrada do Canindé” (1950); a polca “Lorota boa” (1949); e o xote “Mangaratiba” (1949).

 

 

 

 

Asa branca” (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira) # Luiz Gonzaga

 

 

 

 

 

 

Respeita Januário” (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira) # Luiz Gonzaga

 

 

 

 

 

 

Paraíba” (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira) # Luiz Gonzaga

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pouco tempo depois Luiz Gonzaga encontraria seu segundo parceiro mais importante, o pernambucano Zé Dantas, então estudante de medicina e já autor de composições que encantaram Gonzaga, que tratou de gravá-las, ignorando o pedido do novo parceiro, que, temeroso de perder a mesada ofertada pelo pai, solicitara o anonimato.

 

A primeira canção que a nova dupla emplacou foi “Vem morena”, gravada em 1950 e regravada em 1959, no LP “Luiz Gonzaga canta seus sucessos com Zé Dantas”.

 

 

 

Vem morena

 

 

 

 

 

 

 

Em pouco tempo o Duo Gonzaga X Zé Dantas superaria o número da parceria Gonzaga X Humberto, totalizando 46 composições (segundo Jairo Severiano), entre as quais clássicos como as toadas “A volta da asa branca” (1950) e “Vozes da seca” (1953), os xotes “Cintura fina” (1950) e “O xote das meninas” (1953), o baião “Dança da moda” (1950) e o “Forro de Mané Vito” (1949).

 

 

 

 

É patente que com Zé Dantas o trabalho de Luiz Gonzaga tornou-se mais politizado e questionador do abandono político/econômico/social da região nordeste. Eles realmente colocaram o dedo na ferida dolorida do povo nordestino. Isso uma década antes da cantora Maria Bethânia gravar “Carcará” (João do Vale/João Cândido), denunciando a seca e a falta de condições da região.

 

 

 

 

A volta da asa branca” (Luiz Gonzaga/Zé Dantas) # Luiz Gonzaga

 

 

 

 

 

 

Vozes da Seca” (Luiz Gonzaga/Zé Dantas) # Luiz Gonzaga

 

 

 

 

 

 

O xote das meninas” (Luiz Gonzaga/Zé Dantas) # Luiz Gonzaga

 

 

 

 

 

 

 

Encerrada a parceria com Zé Dantas (que morreu jovem, aos 41 anos, acometido de uma grave doença), Gonzaga continuou compondo com outros parceiros.

 

 

 

 

 

 

 

 

Foi o pernambucano, de Arcoverde, João Silva (1935), quem bateu o recorde de composições feitas em parceria com o Rei do Baião, totalizando 64.

 

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* está incompleto o verbete do compositor João Silva, no Dicionário Cravo Albin, visto que registra  apenas 37 composições da dupla Luiz Gonzaga X João Silva. Pesquisando no livro de Regina Echeverria – “Gonzaguinha e Gonzagão: Uma História Brasileira” -, encontrei mais 27 composições.

 

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Confesso que até agosto de 2009 eu desconhecia a dimensão da obra (64 composições) da dupla e acredito que muitos também. João Silva residiu por 48 anos na periferia do Rio de Janeiro, fez carreira, formou família, conheceu, produziu e foi parceiro de Luiz Gonzaga em muitas músicas de sucesso, como “Danado de bom”, “Pagode russo” , “Sanfoninha choradeira”, ”Meu Araripe”, “Sequei os olhos”, “Cidadão sertanejo” e “Forró de Ouricuri”.

 

 

 

Danado de bom” (Luiz Gonzaga/João Silva) # Luiz Gonzaga/ Elba Ramalho/ Dominguinhos.

 

 

 

 

 

 

 

 

Pagode russo” (Luiz Gonzaga/João Silva)

 

 

 

 

 

 

 

 

Sanfoninha choradeira” (Luiz Gonzaga/João Silva)

 

 

 


  

 

 

 

 

João Silva tem sua história retratada no filme documentário "Recordações Nordestinas - A História de João Silva", a ser lançado em breve, direção de Deborah Brennard Mendes e produção executiva de Mariana Brennard Fortes, que objetiva perpetuar a musicalidade nordestina para o Brasil e o mundo e divulgar esse grande parceiro de Luiz Gonzaga.

 

 

 

 

 

 

 

 

Desde que deixaram o nosso Rei do Baião soltar a voz ele se tornou o maior intérprete de sua obra, mas vale o registro de outros grandes intérpretes, numa primeira fase (além do já citado pioneirismo da cantora Carmem Costa), como Marlene, Emilinha Borba, Ivon Curi, Isaura Garcia, Ademilde Fonseca, Dircinha Batista, Jamelão, Carmélia Alves, considerada a “Rainha do Baião”. Numa segunda fase, Elba Ramalho, Fagner, Dominguinhos, Owaldinho do Acordeom, Sivuca, entre outros.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Era do Baião durou, segundo Jairo Severiano, de 1946 a 1957, tendo seu momento de pico no triênio 1949-1951. Foi nessa época que Gonzaga fixou a banda ideal para acompanhá-lo: acordeão, zabumba e triângulo. Quem assistiu ao recente filme “Gonzaga - de pai para filho” lembra, com certeza, dos tocadores: “baixinho” (salário mínimo) e “altão” (custo de vida).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A partir de 1958, com o advento da Bossa Nova, a carreira do Gonzagão entra em declínio, principalmente nos grandes centros urbanos. Não obstante, o Rei do Baião, que nunca abandonou suas raízes, sempre fazendo shows pelo interiozão nordestino, sobreviveu. É patente que, apesar da diminuição do interesse por seus discos/shows, sua música continuou viva e respeitada.

 

 

 

 

 Os tropicalistas Gilberto Gil e Caetano Veloso alardeiam a importância de sua obra para a moderna canção brasileira. Gil afirmou em entrevista a Augusto de Campos (abril de 1968):

 

O primeiro fenômeno musical que deixou lastro muito grande em mim foi Luiz Gonzaga”.

 

Caetano Veloso, no início dos anos 1970, gravaria “Asa Branca”. Luiz Gonzaga contava que, quando ouviu a interpretação de Caetano pela primeira vez, chorou por dentro: “Foi uma das maiores emoções que tive na vida”.

 

 

 

 

 

 

 

 

O retorno do Rei do Baião ao sucesso, referenciado por inúmeros artistas das novas gerações, aconteceu em março de 1972, no show intitulado “Luiz Gonzaga volta pra curtir”, realizado no teatro carioca Tereza Rachel e produzido pelo poeta tropicalista José Carlos Capinam.

 

 

 

Este é um dos poucos registros de como era Gonzagão no palco, cantando, tocando e interagindo com o público. O show foi gravado no auge da ditadura militar, em tape analógico, e resgatado em 2001. (Em pouco mais de um mês do lançamento, o CD ultrapassou a marca das cem mil cópias vendidas).

 

 

 

 

 

 

 

Boiadeiro” / “Cigarro de paia” (Armando Cavalcante/Klecius Caldas) # Luiz Gonzaga

 

 

 

Qui nem jiló” (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira) / “Oiá eu aqui de novo" (Antônio Barros) # Luiz Gonzaga

 

 

 

 

 

 

Asa branca” / “A volta da asa branca” (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira) # Luiz Gonzaga

 

 

 

 

 

 

Olha a pisada” (Luiz Gonzaga/Zé Dantas) / “Boiadeiro” (Armando Cavalcante/Klecius Caldas) # Luiz Gonzaga

 

 

 

 

 

 

 

Também em 1972 foi ao ar pela TV Cultura o Especial “Proposta”, apresentando Luiz Gonzaga conversando e sendo entrevistado por Júlio Lerner e seu filho Gonzaguinha. Belas histórias e muita música. Vale a pena conferir

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Começava assim a fase derradeira da carreira de Luiz Gonzaga, que se estendeu até o final dos anos 1980.

 

 

 

 

 

Luiz Gonzaga volta a ser sucesso no começo dos anos 1980. Embarcando para uma série de shows em La Villete, nos arredores de Paris.

 

 

 

 

 

Em 1981 grava, com seu filho Gonzaguinha, o álbum duplo “Gonzagão e Gonzaguinha/ Discanso em Casa, Moro no Mundo”. Pai e filho caem na estrada com a turnê “Vida de Viajante”, percorrendo Brasil afora em concorridas apresentações.

 

 

 

 

 

Disco relançado em CD, em 2003, pelo selo Sony&BMG, com o título – “A Vida do viajante: Ao vivo”.

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando Luiz Gonzaga subiu ao palco para juntar-se a Gonzaguinha, sentiu-se feliz.

O encontro de ambos representou mais que uma mera reconciliação entre pai e filho.

 

Foi, fundamentalmente, o encontro de dois Brasis. De um lado, o baião, de sotaque nordestino. De outro, uma música urbana, comprometida socialmente.

 

Nesta turnê histórica os estilos de ambos se fundiram. Seus muitos desacertos acabaram harmonizados pela magia da música, selando a tão sonhada paz entre eles.

 

 

 

 

Gonzagão com dois dos seus grandes intérpretes: Elba Ramalho e Dominguinhos

 

 

 

 

Gonzagão muito bem acompanhado: Fagner, Oswaldinho do Acordeon e Sivuca

 

 

 

 

Dominguinhos não foi exatamente um parceiro de Gonzagão, foi mais um discípulo, que deu continuidade à obra do Rei do Baião

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Luiz Gonzaga subiu ao palco pela última vez no dia 6 de junho de 1989. As pernas já não tinham a força de antes. Gonzaga precisou usar cadeira de rodas. O Velho Lua estava vestido a caráter. Não abriu mão do chapéu de couro e gibão.

 

 

 

O espetáculo foi uma emocionada homenagem de grandes amigos e parceiros musicais, artistas como João Silva, Dominguinhos, Gonzaguinha, Alceu Valença, Marinês, Pinto do Acordeon, Nando Cordel, Waldonys e outros discípulos do Rei.

 

 

Apesar de bastante debilitado, Gonzaga sentiu necessidade de expor o que estava guardado em seu coração. Queria mostrar a gratidão aos fãs e falou sobre a importância de sua música.

 

Quero ser lembrado como o sanfoneiro que amou e cantou muito seu povo. Que cantou as aves, os animais, os padres, os cangaceiros, os retirantes, os valentes, os covardes, o amor. Este sanfoneiro viveu feliz por ver o seu nome reconhecido por outros poetas. Gostaria que lembrassem que sou filho de Januário e dona Santana. Gostaria que lembrassem muito de mim. Muito obrigado”.

 

Era a última vez que o público ouvia a voz do grande mestre. Luiz Gonzaga morreu no dia 02 de agosto de 1989, no Hospital Santa Joana, no Recife, onde dera entrada há 42 dias. Seu corpo foi velado na Assembléia Legislativa do Estado e o Governo de Pernambuco decretou luto oficial por três dias.  

 

 

As comemorações do Centenário de Luiz Gonzaga - O Rei do Baião

 

 

 

 

Pipocam por todo o Brasil, capital e interior, as merecidíssimas homenagens pelo Centenário de Luiz Gonzaga. Elas inundam o nosso solo (ainda sofrido pela seca, tão combatida por ele) e brotam em formas de poesias, músicas, shows, exposições, criações de museus, prêmios, documentários, procissões, filmes, peças... Cada um de nós, nas nossas cidades, lembramos de algum evento em homenagem ao Rei do Baião, não é mesmo?  Também basta um clique na internet para constatar a imensidão das homenagens. Impossível relatar todas. 

 

 

 

 

Aqui em Teresina (PI) destaco: “Festival Artes de Março - O Centenário de Luiz Gonzaga”, a “Orquestra Sinfônica de Teresina & João Cláudio Moreno – Cantata Gonzaguiana” e o “Documentário Luiz Gonzaga - O Legado”, produzido pela TV Clube de Teresina.

 

 

 

 

Abertura do Festival Artes de Março (Foto Laura Macedo)

 

 

 

 

Exposição Luiz Gonzaga 100 Anos no Festival Artes de Março (Foto Laura Macedo)

 

 

 

 

“Cantata Gonzaguiana” # OST & João Cláudio Moreno

 

 

 

 

 

 

 

Documentário Luiz Gonzaga – O Legado (Completo)

 

 

 

 

 

 

 

Museu Cais do Sertão Luiz Gonzaga, em Recife (PE) - (Previsão de inauguração da 1ª etapa, dia 13 de dezembro de 2012).

 

Com um espaço de 7.500 m², o Cais do Sertão Luiz Gonzaga integra um museu interativo, salas para exposições temporárias, espaços para oficinas, auditório, biblioteca, midiateca e restaurante. As referências e o ambiente sertanejo vão contrastar com a beira-mar do porto.

 

 

 

 

 

 

 

Minha intenção, nesta homenagem, era o registro sucinto da saga do Rei do Baião - Luiz Gonzaga. Tarefa difícil, porém super prazerosa. Difícil por conta do universo vastíssimo da sua vida pessoal/profissional, e reconfortante em decorrência da minha paixão/identidade com a obra e sua consequente representatividade no cenário nacional e, em especial, nordestino, no qual estou inserida.

 

 

 

 

Piauiense de Teresina, mas criada, até 1972, em Campina Grande (PB) - terra onde as tradições sertanejas estão arraigadas nas profundezas da nossa alma - e onde acontece, anualmente, “O Maior São João do Mundo”, foi natural meu amor incondicional à cultura nordestina traduzida na culinária (eram de dar água na boca as canjicas de milho e outras iguarias da Dona Aracy, minha mãe), vestimentas, vaquejadas, danças e os ritmos musicais.

 

 

 

 

A região nordeste sempre foi (e ainda é, infelizmente, embora em proporções inferiores) discriminada econômica, social e culturalmente. A saga de Luiz Gonzaga e a luta dos nordestinos guardam muita semelhança: diante dos muitos obstáculos ele mostrou que é “cabra macho”, no sentido da persistência, que é duro na queda, não desiste nunca; os meios de comunicação nos mostram a resistência corajosa dos sertanejos às adversidades da seca que mata o solo, mas não mata a esperança.

 

 

 

 

Luiz Gonzaga, apesar das inúmeras adversidades, desafiou todas elas desbravando o Brasil de norte a sul / leste a oeste com humildade, determinação e, acima de tudo, amor/coerência com sua arte, tornando-se um dos maiores e prestigiados ícones da nossa cultura.

 

 

 

Suas últimas palavras pronunciadas quando subiu ao palco pela última vez: “Gostaria que lembrassem muito de mim encontraram eco na sociedade brasileira como um todo, traduzido nas muitas homenagens em comemoração ao seu Centenário. Emotivo como sempre foi, deve estar, no andar de cima, a verter lágrimas de alegria que, com as graças de Deus, adubarão nosso solo afetivo, sempre.

 

 

 

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FONTES:

Livros / Revistas / Jornais

- Dicionário Houaiss Ilustrado (da) Música Popular Brasileira. Supervisão geral; Ricardo Cravo Albin. - Rio de Laneiro: Paracatu, 2006.

- Coleção MPB Compositores - Luiz Gonzaga (20). Editora Globo, 1997.

- Coleção Folha Raízes da MPB - Luiz Gonzaga (nº 10), 2010.

- Entrevista com Luiz Gonzaga. – Jornal O Pasquim (nº 111). – Rio de Janeiro, 17 a 23 de agosto de 1971.

-Gonzaguinha e Gonzagão – Uma história brasileira, de Regina Cheverria. – São Paulo: Ediouro, 2006.

- Revista BRAVO! Especial 100 Canções essenciais da MPB. Ed. Abril, 2008.

- Uma história da música popular brasileira – Das origens à modernidade, de Jairo Severiano. – São Paulo: Ed. 34, 2008.

 

 

Blogs / Sites

 

- Blog Forró em Vinil

- Site DCA (Dicionário Cravo Albin da MPB)

- Site IMS (Instituto Moreira Salles)

- Site Oficial de Luiz Gonzaga

- Site YouTube

 

Revisão/Gregório Macedo

 

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Comentário de lucianohortencio em 9 dezembro 2012 às 20:58

LAURA MACEDO! És louca de pedra! Só uma louca faria um trabalho desse jaez! Obviamente ainda não me detive em detalhar esse trabalho insano, porém quero te dizer que está absolutamente maravilhoso e sinto-me com muita sorte e honrado em ser o primeiro a comentá-lo. Volarei várias vezes, com calma, para aproveitá-lo pedaço a pedaço, devagarinho para sentir o sabor do nordeste, do nosso povo, da música de Luiz Gonzaga. Só posso te dizer uma coisa: QUE DEUS TE ABENÇOE! 

luciano.

Comentário de lucianohortencio em 9 dezembro 2012 às 21:23

Comentário de lucianohortencio em 9 dezembro 2012 às 21:24

Comentário de lucianohortencio em 9 dezembro 2012 às 21:26

Comentário de lucianohortencio em 9 dezembro 2012 às 21:27

Comentário de lucianohortencio em 9 dezembro 2012 às 21:28

Comentário de lucianohortencio em 9 dezembro 2012 às 21:29

Comentário de lucianohortencio em 9 dezembro 2012 às 21:30

Comentário de Gregório Macedo em 13 dezembro 2012 às 4:07

Querida, o Luciano Hortencio falou bonito, mesmo assim não disse tudo.

Ô, trabalho danado de bom! É pra ler/ver/ouvir com vagar. 

É óbvio que 'chamei' pro blog domacedo!

Salve o 13 de dezembro! Salve Gonzagão, viva Gonzaguinha!

Beijos. 

Comentário de Silvia Maria de Souza Camargo em 17 dezembro 2012 às 13:08

Laura querida!
Você é uma pessoa brilhante!
Parabéns e muito obrigada por suas matérias tão cuidadosas, elucidativas e sempre realizadas com critério e amor.
Beijo enorme no seu coração!!! 

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