Vinicius de Morais

*19/10/1913 - Rio de Janeiro (RJ)
+ 9/7/1980 - Rio de Janeiro (RJ)

Poeta / Compositor / Teatrólogo / Jornalista / Diplomata.

Celebrar o Centenário de Vinicius de Moraes é sinônimo de Poesia, Música e Paixão três vertentes que permearam sua vida e obra.

Poesia, Música e Paixão - Tudo Misturado.

GRANDES PARCEIROS, PARCEIRINHOS...

CARLOS LYRA

Neste episódio da série vamos destacar algumas das parcerias da dupla Vinicius & Carlos Lyra e, o que acho bastante interessante, os relatos do parceirinho Carlinhos Lyra sobre o Poetinha.

“Até conhecer Vinicius, tudo que eu sabia dele era que, além de ser o poeta predileto de meu pai, havia escrito ‘Orfeu da Conceição’ com músicas de Tom e, segundo João Gilberto, só se expressava em diminutivos... Enfiei então na cabeça o projeto de incluir o poeta entre meus parceiros. Um dia, em posse de seu número de telefone e de uma boa dose de coragem, liguei pra ele:

‘Alô, Vinicius, aqui é o Carlos Lyra...’, no que ele foi me diminuindo: ‘Ah! Carlinhos, ouvi muito falar de você. Que é que você quer de mim?’ E eu, entrando no clima dos diminutivos: ‘É que eu queria... uma letrinha.’ Foi como se tivesse digitado a senha certa. Tive acesso imediato.

Pouco depois na casa de Vinicius, no Parque Guinle, e de violão em punho, me preparava para desfiar minhas melodias, quando ele me pegou de surpresa: ‘Olha Carlinhos, pôe todas as tuas musiquinhas nesse gravadorzinho que você tá vendo aí. Depois vai pra tua casa e me dá uma semaninha pra eu botar letrinha em tudo.’

Fui pra cada meio ‘cabreirinho’. Mas daí uma ‘semaninha’, o ‘telefoninho’ tocou e ouvi a voz do poeta: ‘Alô, parceirinho! Pode vir que tá tudo pronto’. Saí correndo, peguei um táxi e fui para o Parque Guinle. Ainda no trajeto, assaltava-me uma dúvida: ‘Será que ele fez letrinha pra onze musiquinhas em uma semaninha?’. Fez. A primeira no ‘gravadorzinho’ foi batizada de ‘Você e eu’, a segunda, ‘Coisa mais linda’, e assim por diante. Quanto a mim, também fui rebatizado com o diminutivo novo. Daí pra frente, Vinicius só me chamou de ‘parceirinho’.

Você e eu” / “Coisa mais linda” (Carlos Lyra/Vinicius de Moraes) / # Carlos Lyra/Kay Lyra.

Tom Jobim e eu morávamos na mesma rua, Barão da Torre, em Ipanema. Como de outras vezes, Vinicius veio um dia descendo aquela rua com o propósito de depositar ‘letrinhas’ novas em nossas casas. A primeira parada foi na minha. Entrou, foi logo puxando do bolso do paletó um pedaço de papel e dizendo: ‘Taí, parceirinho, a letrinha que fiz para aquela tua musiquinha’. E cantarolou a melodia enquanto eu alcançava o violão. Em seguida, tentei encaixar em minha música a letra que dizia:

Olha que coisa mais linda,

Mais cheia de graça

É ela menina que vem e que passa

Num doce balanço, a caminho do mar...

A letra não casava com a melodia. Pedi socorro: ‘Tem certeza que é assim mesmo, Vinicius?’ E ele se deu conta: ‘Não parceirinho, não é isso não! Essa aí é uma letrinha que eu estou fazendo pro Tonzinho’. Meteu a mão no outro bolso do paletó e tirou outro pedaço de papel, em que se lia:

Se você quer ser minha namorada

Ah, que linda namorada

Você poderia ser....

Respirei aliviado. Aquela letra, afinal, dava certinho na minha música”.

Minha namorada” (Vinicius de Moraes/Carlos Lyra) # Carlos Lyra.

Mais um relato... Mais uma Música....

Foi Ezra Pound quem disse que os poetas são a antena da raça. E quando se trata do poeta Vinicius de Moraes, põe antena nisso. Vinicius de fato fez jus a essa ideia, especialmente quando escreveu a letra de ‘Marcha da quarta-feira de cinzas’. Posteriormente, muitas pessoas interpretaram essa música como uma canção de protesto e contestação ao golpe de 1964. Alguém chegou a dizer: ‘Vocês deram a resposta a eles, hein?’ Na verdade, ‘Acabou nosso carnaval / Ninguém ouve canta canções / Ninguém passa mais cantando feliz / E nos corações / Saudades e cinza foi o que restou...’ parece contestação. Só que os versos foram escritos em 1963, o que não qualifica a música como uma canção de protesto ao golpe de 1964. Seria no máximo uma canção de premonição...’”

Marcha da quarta-feira de cinzas” (Vinicius de Moraes/Carlos Lyra) # Nara Leão.

Agora um caso amoroso...

“Depois de ter se separado de sua quarta mulher, Vinicius vinha mantendo um romance secreto com Nelita, cujos pais se recusavam terminantemente a acolher o poeta.

Um dia em minha casa, sentados à mesa da cozinha tomando café, me preocupou a melancolia do meu parceiro em relação ao seu amor proibido: ‘Por que você não a rapta?’, perguntei de chofre. Ele ficou mudo por um instante e foi logo atacado por um risinho nervoso: ‘Raptar, é, parceirinho? Sabe que é uma boa ideia!’ Daí em diante, foi um tal e irem levando lá pra casa as bagagens da noiva e o enxoval que os pais não poderiam sequer desconfiar da existência.

Vinicius conseguiria, às pressas, um posto diplomático em Paris, e comprou duas passagens para o mesmo dia que eu viajava para Nova York. Assim foi que Tom Jobim acabou sorteado para me substituir na escolta dos noivos ao aeroporto. Suas primeiras palavras, ao chegar em minha casa foram: ‘Aquele tiro que seria pra você, vai sobrar pra mim...’

Dois dias após o rapto, os pais da noiva anunciavam nos jornais: ‘Temos o prazer de comunicar o casamento de nossa filha Nelita com o poeta Vinicius de Moraes’".

Sobre Carlos Lyra confira:

- Carlos Lyra e “Pobre menina rica”, por Vinicius de Moraes.

- Carlos Lyra canta Pobre Menina Rica no IMS (Instituto Moreira Salles).

Confira também:

Centenário de Vinicius de Mores (I).

 

Centenário de Vinicius de Moraes (II).

 

Centenário de Vinicius de Moraes (III).

 

Centenário de Vinicius de Moraes (IV).

Centenário de Vinicius de Moraes (V).

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Fontes:

- Eu e a Bossa, de Carlos Lyra. - Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2008.

- Site YouTube.

 

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