José de Assis Valente
* 19/3/1911 - Bahia
+ 10/3/1958 - Rio de Janeiro, RJ

Há cem anos, na Bahia, nascia José de Assis Valente detentor de uma vida oscilante entre tristezas X euforias – ingredientes de um bom folhetim – que permeou toda sua existência (47 anos).

 

A infância não foi nada fácil, resumindo:

 

- roubado dos pais;

- criado como semi-escravo em outra família que o abandona;

- pega cedo no batente como lavador de frascos numa farmácia;

- integra a “troupe”do Grande Circo Brasileiro.

 

Tudo isso até os dez anos de idade.

 

A resposta ao questionamento acima, do menino Assis Valente, veio através das palmas da platéia e a conseqüente contratação do nosso “Menino Valente” pelo Circo Brasileiro, onde teve suas primeiras experiências artísticas como comediante e interpretando canções musicais.

 

Após um ano de atividades circenses retorna à Salvador e aos estudos de desenho / escultura e torna-se aprendiz de prótese dentária. Mas o grande sonho era partir para o Rio de Janeiro, o que aconteceu em 1927.

 

 

Chegando na Cidade Maravilhosa, sustentou-se vendendo desenhos para as revistas “Shimmy” / “Fon-Fon” e como auxiliar de protético. Protético foi a profissão que exerceu por toda a vida.

No efervescente Rio de Janeiro do final da década de 1920 e começo de 1930, Assis Valente aproxima-se do meio artístico interagindo com os compositores da época. E que época fértil!

 

 

Em 1932 conhece Heitor dos Prazeres que ficou impressionado com a sua facilidade em fazer versos. Heitor só fez colocar um pouco de “lenha na fogueira” incentivando o amigo a compor sambas.

Na época era “chique” falar francês ou usar termos franceses. E foi criticando esse maneirismo que ele compôs “Tem francesa no morro”, estreando, irreverentemente, na Música Popular Brasileira.

“Tem francesa no morro” (Assis Valente) # Aracy Cortes e Conjunto Rosa e Ouro. 1967.

 

A história deste samba é o próprio Assis quem nos conta:

 

“Lembro-me do trabalho que tive para conseguir que Aracy Cortes gravasse minha primeira composição. Quando eu componho, aliás, já penso no artista que irá cantar a música. Isso aconteceu com ‘Tem francesa no morro’, que fiz especialmente para a Aracy que, por sinal, eu nunca havia sido apresentado.

Quando consegui encontrá-la, depois de muita luta, ela pediu que eu cantasse o samba. Em seguida, pediu que eu passasse no piano. Aí, mesmo sem olhar pra mim, Aracy começou a rir com a letra e eu percebi estão que a coisa estava caminhando bem...”.

 

 

 

“Tem francesa no morro” – que já revela o Assis Valente cronista do cotidiano da época – não alcançou sucesso. Mas não demora muito e emplaca o primeiro sucesso com “Boas Festas”, feita no Natal de 1932, sendo gravada em 1933. Indiscutivelmente um Hino do Natal Brasileiro.

 

“Boas festas” (Assis Valente) # Carlos Galhardo. Disco Odeon (33.723), 1933.



As composições de Assis Valente foram gravadas por artistas da época como Moreira da Silva, Carlos Galhardo, Almirante, Quatro Ases e um Coringa, Aurora Miranda, Francisco Alves, Mário Reis, Aracy de Almeida, Marlene, Sônia Santos,Irmãs Pagãs (Elvira e Rosina), Carmen Miranda, Bando da Lua e por artistas da atualidade a exemplo de Maria Bethânia, Nara Leão, Marília Medalha, Carmen Costa, Adriana Calcanhoto, Olívia Byghton e Vanessa da Mata.

 

Mas não resta a menor dúvida que Carmen Miranda foi a intérprete mais constante e importante da carreira de Assis Valente, gravando 25 músicas do compositor. (Existem controvérsias em relação a esse número. Confira Aqui).

 

 

 Quando Assis Valente viu Carmen Miranda cantando pela primeira vez, ficou impressionado. Nascia ali uma grande admiração pela cantora. Admiração que se transformaria em amizade e talvez até em paixão secreta, como relatam alguns pesquisadores.

 

Tentou várias investidas no intuito de aproximar-se de Carmen, mas sem muito sucesso. Até que teve o ”insight” que um “samba” os uniriam. Compôs e mostrou a ela, “Etc...”, e ela amou.

“Etc...” (Assis Valente) # Carmen Miranda. Disco Victor (3.604-B) / Matriz (65606) Lançamento (29/11/1932)

 

 

A partir daí estavam formatados o sucesso e o estilo do compositor Assis Valente.

 

Durante toda década de 1930 e início da de 1940, Assis Valente era citado ao lado dos maiores compositores da época. Foi realmente uma década fecunda onde compôs seus maiores sucessos, desenhando neles reportagens musicais, típicas de um bom repórter sonoro. E que sonoridade!!

 

 

 A ida de Carmen Miranda juntamente com o Bando da Lua, em 1939, para os Estados Unidos, deixou Assis Valente, de uma certa maneira, órfão da sua maior intérprete. Ele mesmo reconhece que “sentiu-se só”, mesmo ressaltando que havia outros bons intérpretes para suas músicas.

 

Sabendo que Carmen viria ao Brasil em 1940 apressou-se e compôs dois sambas no capricho: “Recenseamento” e “Brasil Pandeiro”. O primeiro Carmen gravou, mas o segundo, justamente o que ele achava que lhe caía como uma luva, ela recusou.Tal fato o deixou profundamente magoado.

 

Uma conjugação de fatores contribuíram para o declínio de Assis Valente:

 

  - O fim do casamento com Nadyle que durou apenas dois anos e a conseqüente separação da filha Nara;

 

- As dificuldades financeiras. Era um tremendo mão aberta assumindo pra si o que não podia honrar;

 

- A “separação magoada”, de Carmen Miranda;

 

- E por fim, o esquecimento em vida.

 

Na dicotomia tristezas X euforias, que sempre permeou sua vida, a primeira estava levando vantagem. Tanto que tentou o suicídio por duas vezes, sem sucesso, mas, infelizmente, logrou êxito na terceira, partindo antes do tempo previsto pela Vontade Divina.

 

A predominância total da angústia em detrimento da alegria nestes momentos trágicos de sua vida é obvio que não se esquece. Como também é impossível esquecer a pujança das suas 154 músicas gravadas, boa parte formada de obras-primas, “com as quais soube mostrar seu valor e, por extensão, o da arte da gente bronzeada, que com tanto talento e brilho representou”. (Moacyr Andrade).

 

 

 

O que não poderia faltar numa boa festa de aniversário, principalmente na comemoração de um centenário, ainda por cima, de um compositor do naipe de Assis Valente? Resposta óbvia: MÚSICA, MUITA MÚSICA!!

 

 

 “Brasil pandeiro” (Assis Valente) # Novos Baianos, 1972.


  

 

Algumas das 25 músicas que Carmen Miranda gravou de Assis Valente.

 

“Pra quem sabe dar valor” (Assis Valente) # Carmen Miranda / Carlos Galhardo / Diabos do Céu. Disco (33.680 –B), 1933.

 

 

 


”Good-Bye” (Assis Valente) # Carmen Miranda e Orquestra Victor. Disco Victor (33.604-A),1933.

 

 

Nosso sambista fatura o prestígio do 1º lugar do Concurso de Músicas Carnavalescas e a bagatela de um conto de réis.

 

“Minha embaixada chegou” (Assis Valente) # Carmen Miranda e Regional do Canhoto. Disco Victor (33.847-A), 1933.

 


“Vou espalhando por aí” (Assis Valente) # Carmen Miranda / Castro Barbosa / Diabos do Céu. Disco (33.936-A), 1935.

 

 

“E bateu-se a chapa” (Assis Valente) # Carmen Miranda, 1935.

 


“Camisa listrada” (Assis Valente) # Carmen Miranda / Conjunto Odeon. Disco Odeon (11.530), 1937.


  




“Isso não se atura” (Assis Valente) # Carmen Miranda, 1935.

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“Recenseamento” (Assis Valente) # Carmen Miranda / Conjunto Odeon. Disco Odeon (11.712B), 1939.


  




“Uva de caminhão” (Assis Valente) # Carmen Miranda / Conjunto Odeon. Disco Odeon (11.712A), 1939.


  

“E o mundo não se acabou” (Assis Valente) # Carmen Miranda, 1938.

 

 

 


MÚSICAS DE ASSIS VALENTE COM OUTROS INTÉRPRETES

 

 


“Cai, cai balão” (Assis Valente) # Francisco Alves / Aurora Miranda e Orquestra Odeon sob a direção de Simon Bountman. Disco Odeon (11.018-A) / Matriz (4674). Gravação (22/05/1933) / Lançamento (junho/1933).

 

 

“Deixa isso pra lá” (Assis Valente / Alvinho) # Ciro Monteiro, 1956.

 


“Fez bobagem” (Assis Valente) # Aracy de Almeida. Disco Victor (34.882-A),1942.


  




“A rosa e vento” (Assis Valente) # Clara Nunes, 1969.


  




“Boneca de pano” (Assis Valente) # Rolando Boldrin, 1998.


  

 

“Alegria” (Assis Valente / Durval Maia) # Vanessa da Mata, 2002.


  

 

Assis Valente com sua genialidade nata/sonora fez versos alegres e tristes traduzidos em melodias esfuziantes de ritmo e entusiasmo, apesar da dicotomia tristeza X euforia que permeou sua vida.

 

Ele lançou luzes no universo musical carioca e brasileiro deixando um rastro de sucessos imortais cultuados até hoje – 19 de março de 2011 -, dia do seu Centenário de nascimento.

 

Viva o samba de sabor carioca com tempero baiano de ASSIS VALENTE!!

 

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Fontes:

 

- ASSIS VALENTE: coleção folha raízes da música popular brasileira (nº 22). Texto: Moacyr Andrade. Rio de Janeiro: Ed. Mediafashion, 2010.

- ASSIS VALENTE: MPB compositores (nº 37). Ed. globo, 1996.

- ASSIS VALENTE: nova história da música popular brasileira. 2ª ed. rev. e ampl. São Paulo: Abril Cultural, 1976.

- HISTÓRIA DO SAMBA. Rio de Janeiro: Globo, 1997-1998. Quinzenal. 40 fasc. 40 CDs.

- SOUZA, Tárik de. Tem mais samba: das raízes à eletrônica. São Paulo: Ed. 34, 2003.

 

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Exibições: 976

Comentário de Gregório Macedo em 19 março 2011 às 21:33

Maravilha de compositor. Crônicas marcadas pelo bom humor, um humor carioca-baiano, como você salientou no final do texto. Músicas ótimas, todas elas, mas a voz da Vanessa da Mata é simplesmente um primor.

Viva a MPB, viva Assis Valente.

Beijos.

Comentário de Laura Macedo em 7 abril 2011 às 3:01

Gregório,

Assis Valente, por Marlene. Uma Maravilha!

 

 

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