Compositor / Cantor / Pianista / Regente / Ator



Há 100 anos (25 de abril de 1910) nascia no bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, Custódio Mesquita, que se tornaria uma das figuras lendárias da nossa Música Popular Brasileira.

As lendas, jamais confirmadas, sobre Custódio Mesquita são muitas. Afinal, como todo boêmio era alegre, brincalhão, gostava da vida noturna, de beber com os amigos e conquistar a mulherada. Beleza e charme é o que não lhe faltavam.

O jornalista David Nasser, que conviveu com ele, durante muitos anos, costumava dizer: “Em assuntos íntimos, Custódio era um túmulo”.

Quando Ramon Novarro (galã de Hollywood) esteve aqui no Brasil as comparações foram inevitáveis: “O nosso Custódio nada fica a dever em beleza ao ator americano”.

Compare os dois na foto abaixo.




Foi com a mãe dona Camila que aprendeu as primeiras noções de música e com o pai, Raul Cândido, os primeiros acordes. Infelizmente ficou órfão de pai aos sete anos.

Apesar da intensa vida boêmia, Custódio sempre jantava em casa, com sua mãe.



Diferentemente do casal de irmãos que possuía, era patente a atração que a música exercia em Custódio, não restando a dona Camila outra alternativa senão encaminha-lo à Escola Nacional de Música, onde estudou com Luciano Gallet que reclamava do aluno a preferência por tirar as músicas de ouvido a ler o pentagrama. Depois passou por Otaviano Gonçalves, adepto do repertório popular. Aí foi a sopa no mel.

Escondido da família, em 1926, tocava em clubes. Dois anos depois, estreou profissionalmente, como baterista de orquestra de cabaré.

Das orquestras o compositor foi para o rádio, primeiro no “Esplêndido Programa”, de Waldo Abreu, na Mayrink Veiga, depois no “Programa Casé”, na Rádio Philips.

Além da vocação para regência, foi o orgulho ferido que fez Custódio aprimorar sua cultura musical, nessa área, tornando-se regente diplomado. Quem nos conta esta história é Nestor de Holanda em suas “Memórias do Café Nice”.

Barrado no Municipal, ele diplomou-se em regência na Escola Nacional de Música.




Custódio tentou uma vez reger a orquestra no ensaio de uma de suas composições para um espetáculo especial, mas os músicos, professores da Sinfônica do Teatro Municipal, negaram-se a tocar sob sua batuta: - ‘Só aceitamos regente diplomado’. Algum tempo depois, retorna ao Municipal trazendo embaixo do braço o diploma de regente obtido na Escola Nacional de Música”.

Almirante conta que, nos momentos de folga, Custódio sentava-se ao piano e dedilhava músicas que ninguém conhecia, mas que despertavam muita atenção”.



Começou a compor aos vinte anos e só parou com a morte precoce, aos 34 anos. Foram 15 anos de intensa inspiração que brotava, espontaneamente, a qualquer hora e lugar, até no banheiro.

Mamãe, me arranja lápis e papel”. O que dona Camila prontamente atendia. Quando saía do banheiro tinha o hábito de passar as anotações, imediatamente, para o piano.

Seu primeiro parceiro, numa gravação, foi o também “centenário”, Noel Rosa (1910-1937).

Prazer em conhecê-lo” (Custódio Mesquita/Noel Rosa) # Mário Reis e Gente Boa. Disco Odeon (10.943-B) / Matriz (4517). Gravação (28/09/1932).

Conta-se que Noel, curtindo uma baita dor de cotovelo encontra, numa festa, a ex- namorada Clara com outro. Ela finge que não o conhece e quando Noel lhe foi apresentado, ela formalmente, diz: - Prazer em conhecê-lo.

O amigo Custódio além de consolá-lo completou a melodia iniciada por Noel para os versos que ele fez logo que deixaram a festa.

Num “tabuleiro de baiana”, foi feita esta foto histórica de Custódio (agachado) e Noel Rosa




Seu primeiro grande êxito foi a composição Se a Lua Contasse”.

"Se a lua contasse” (Custódio Mesquita) # Aurora Miranda e Orquestra Odeon. Disco Odeon (11.074-B) / Matriz (4733). Gravação (21/10/1933) / Lançamento (novembro/1933).

Custódio foi muito gentil comigo ao ceder-me aquela marchinha, pois arriscou-se bastante ao confiar numa cantora em início de carreira. Até hoje lhe sou grata, pois o sucesso de 'Se a Lua Contasse' também valeu muito para mim”.



Para Lamartine Babo, o grande Lalá, Custódio era “um homem das madrugadas... um amante solitário das ruas... gosta de circular pelas ruas na hora que a maioria se recolhe para o repouso do corpo...”



Como a vida do rádio terminava às 23h:00 ele procurava um passatempo que o prendesse até mais tarde. Por isso ele se sentira atraído pelo teatro cujos espetáculos terminavam, geralmente a meia-noite e trinta, sobrando tempo, ainda, para o bate-papo com os amigos até o raiar do dia”. Haja fôlego!

Mas o Teatro acabou sendo uma das grandes paixões de Custódio Mesquita e nele fez de tudo. Resumindo: co-autor em trinta peças; musicou dez histórias juvenis; musicou sozinho e/ou com outros parceiros várias revistas e burletas; percorreu quase todo país com a Companhia de Comédias Jayme Costa; integrou a SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais).

Com relação a SBAT alimentava o sonho de ser conselheiro. E foi nomeado por Freire Júnior. O discurso também foi feito, mas seis dias antes de assumir o novo cargo, faleceu em 13 de março de 1945, de insuficiência hepática.

Custódio participou ativamente do teatro musical: aqui ele aparece ao piano, numa peça do Teatro Rival.



O Teatro lhe daria muito mais do que o aplauso do público. Foi nele que encontrou dois parceiros de peso: Mário Lago e Sadi Cabral.


Nada Além”, de Custódio Mesquita e Mário Lago, com Orlando Silva.

"Velho Realejo" (Sadi Cabral/Custódio Mesquita) # Sílvio Caldas. Disco Victor (34.583-B) / Matriz (33316). Gravação (24//01/1940) / Lançamento (março/1940).

"Mulher” (Custódio Mesquita/Sadi Cabral) # Silvio Caldas. Disco Victor (34.583-A) / Matriz (33315). Gravação (24/01/1940) / Lançamento (março/1940).


 

A historinha de bastidores desta música é a seguinte: na época Custódio namorava uma garota chamada Ceci e insistiu bastante com o parceiro para que a canção levasse o nome da amada.

Sadi Cabral conseguiu convencer Custódio com o seguinte argumento. Você está enganado, Custódio. Hoje você namora a Ceci, amanhã pode estar gostando da Maria da Glória, por exemplo. Com a palavra “Mulher”, você a dedica a todas as mulheres que foram e são suas musas”.



Segundo o ICCA (Instituto Cultural Cravo Albin) o número de composições feitas por Custódio Mesquita somam mais de uma centena. Após sua morte existia muita controvérsia quanto ao número de composições feitas por ele, que durante muitos anos foi injustiçado e esquecido.

O certo é que ele, entre marchas, canções, sambas, marchinhas e composições para peças teatrais, produziu música da melhor qualidade.

Compôs com mais de duas dezenas de parceiros, entre eles, Noel Rosa, Paulo Roberto, Orestes Barbosa, Paulo Orlando, Mário Lago, Alberto Ribeiro, Joraci Camargo, Sadi Cabral, Vicente Celestino, Jardel Jércolis, Geysa Bôscoli, David Nasser, Hervé Cordovil, César Ladeira, Luis Peixoto e Evaldo Rui (foto abaixo).

Evaldo Rui foi um dos parceiros que mais se ajustou ao espírito romântico de Custódio Mesquita. E juntos compuseram algumas obras primas, a exemplo de “Como os rios que correm pro mar”. Confiram na interpretação de Silvio Caldas. Disco RCA Victor, 1944.

 

Como os rios que correm pro mar” (Custódio Mesquita/Evaldo Rui) # Silvio Caldas. Disco RCA Victor (80.0176-A) / Matriz (S-052934). Gravação (10/03/1944) / Lançamento (abril/1944).





Nosso galã ainda participou como ator de três filmes nacionais: “Alô, Alô Brasil”, do americano Wallace Downey (1935), “Bombonzinho”, de Mesquitinha (1938), e “Moleque Tião”, de José Carlos Burle (1943).

Cena do filme “Moleque Tião”, onde aparecem Lourdinha Bitencourt, Grande Otelo e Custódio, que também assinou a trilha sonora.



Floriano Faissal e esposa, padrinhos do casamento de Custódio e Alda Garrido.

A segunda mulher de Custódio, Helena (ou Helene) Moukhine com o filho Custódio Antônio brincando com os cachorrinhos.

Família Reunida.

O compositor brincando com uma das sobrinhas.



Em muitos escritos sobre sua vida, a totalidade registra sua generosidade instintiva. Um exemplo concreto foi o patrocínio da montagem de uma das dependências do Retiro dos Artistas, em Jacarepaguá batizada com seu nome.

Custódio discursando na inauguração da dependência da Casa dos Artistas que leva seu nome.




Do universo de mais de uma centena das canções de Custódio Mesquita, pouquíssimas são conhecidas do grande público de hoje, o que é lamentável.

Grandes nomes do universo musical brasileiro a exemplo do maestro Guerra Peixe, comentou que as obras de Custódio ocupam posição de vanguarda e são muito bem trabalhadas, bem arranjadas, com melodias de alto valor e de forma definida.


Hoje quando se comemora o Centenário de nascimento de CUSTÓDIO MESQUITA é patente que o requinte das suas melodias e harmonias exerceram papel relevante e pioneiro na construção da Música Popular Brasileira, tornando-o um dos grandes nomes das décadas de 1930/1940, sendo citado como o Tom Jobim de seu tempo.



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Fontes:
- Nova História da Música Popular Brasileira: Custódio Mesquita. São Paulo: Abril Cultural, 1977.
- A Canção no Tempo: 85 anos de músicas brasileiras, vol.1:1901-1957, de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello. – São Paulo, Ed. 34, 1977.

- História do Samba. Fascículos publicados pela Editora Globo, 1998.

Sites:
- ICCA (Instituto Cultural Cravo Albin)
- Cifrantiga

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Exibições: 1508

Comentário de Gregório Macedo em 25 abril 2010 às 22:47
Considerando as homenagens já oferecidas até aqui e as que estão por vir, todas elas sensacionais, é lícito dizer que 2010 é o ano do centenário de ouro da MPB.
É mesmo uma pena que obras-primas, como as de Custódio Mesquita, não mereçam do Brasil tratamento condizente com sua dimensão.
Beijos.
Comentário de Cafu em 26 abril 2010 às 16:01

Saia do Caminho (Custódio Mesquita – Evaldo Rui) # Olívia Byingthon

A Olívia veio também participar dessa bela homenagem.
...e além de tudo o rapaz era um gato! ;)
Valeu, Laurinha!
Beijos.
Comentário de Ricardo Meira em 26 abril 2010 às 18:10
Bela postagem, Parabéns, Laura.
Comentário de Oscar Peixoto em 26 abril 2010 às 22:48
Belo post, viajei à minha infância como numa máquina do tempo. Pena que, na época, a gente não se ligava no autor das músicas, a referência era sempre o cantor ou a cantora: "aquela música da Dalva", "aquela valsa do Orlando Silva", "aquela canção do Carlos Galhardo", e por aí afora. As coisas começaram a mudar com a campanha sistemática do Ary Barroso; no seu programa de calouros, de grande audiência no Brasil, ninguém poderia cantar se não soubesse o nome do compositor.
Abraços
Comentário de Helô em 26 abril 2010 às 23:55
Laurinha
Mais um post impecável! Conheci melhor algumas composições do Custódio depois da criação da nossa página sobre o Teatro de Revista, tendo inclusive deixado lá algumas músicas em parceria com Mário Lago. Trouxe-as para cá e vale a pena escutar, no meio das músicas, as histórias contadas pelo Mário Lago. Deixo também, em forma de arquivo, a matéria publicada no Segundo Caderno do Globo de hoje. Parabéns pela justa e bonita homenagem.
Beijos.

Menina eu sei de uma coisa


Nada além


Enquanto houver saudade


custodio mesquita.jpg
Comentário de Gilberto Cruvinel em 27 abril 2010 às 2:29
Laura,

Como de outras oportunidades, só posso aplaudir seu trabalho tão bem feito, bem pesquisado e lindamente apresentado. Uma grande aula de história da MPB ilustrada com as mais lindas canções. Nem preciso dizer que minha preferida é "Mulher" com Sílvio Caldas. Mas também são inesquecíveis a marchinha cantada por Aurora Miranda, "Se a Lua Contasse", "Prazer em Conhecê-lo" (e a história que exite por traz, incrível), "Como os rios que correm pro mar" e o clássico "Nada Além" com o Orlando Silva, enfim todas, como excluir uma do gênio Custódio Mesquita?

Como agradecimento por teu tão belo trabalho, pensei em trazer aqui, como contribuição e porque a matéria é também excepcional e Custódio Mesquita merece todas as homenagens que se puder fazer a ele, o artigo de João Máximo hoje, no Globo, sobre o centenário do artista. Mas como a querida amiga Helô já disponibilizou o arquivo e mais canções incríveis, só vou resumir o que me chamou mais atenção.

João Máximo esmiúça a comparação que se faz entre Custódio e Tom Jobim, detalhando as semelhanças e diferenças. Além disso, dá uma panorâmica dos gêneros a que Custódio se dedicou, do samba passando pelas valsas seresteiras, como ele chama, até o fox brasileiro “Nada Além”.
E indica dois livros preciosos sobre Custódio: o primeiro de Bruno Ferreira Gomes e o segundo, de 2004, alentada tese de doutorado de Orlando de Barros, levantamento completo de toda obra musical, cinematográfica, teatral e radiofônica de Custódio. Uma constatação surpreendente de João Máximo: “Nos dois livros, o homem permanece indecifrado. Temperamento difícil, gestos imprevisíveis. Tanto podia ser de extrema generosidade com colegas e com os desconhecidos mais humildes, como orgulhoso e arrogante com todos eles.”

Mais surpreendente, a idade pouca que tinha quando morreu: “Tinha 34 anos (!) quando morreu de uma hepatite, segundo se disse , causada por abuso de medicamentos contra a epilepsia, a depressão, os nervos. Não há prova de que usasse cocaína. Mário Lago era um dos que duvidavam desta e de outras versões. Mas confirmava o quanto o parceiro sabia de seu poder sobre as mulheres e de como tinha consciência de seu talento. Quem duvidasse disso ouviria dele um simples argumento: “Eu sou o Custódio Mesquita”.

Obrigado Laura
Beijos
Comentário de Gilberto Cruvinel em 27 abril 2010 às 3:02
"Nada Além" com Orlando Silva em 1938 (trecho)
http://musicachiado.webs.com/Biografias/MP3Biografias/NadaalemOrlan...

“Saia do caminho” com Araci de Almeida em 1946 (trecho)
http://musicachiado.webs.com/Biografias/MP3Biografias/Saiadocaminho...
Comentário de Laura Macedo em 27 abril 2010 às 21:54
Queridos amigos,
Adoro vocês e a forma como enriquecem o nosso trabalho.

Gregório, já lhe disse ao vivo e a cores, belo comentário e grata pelo apoio incondicional.

Cafu, concordo com você. Como se dizia na nossa época ele é mesmo um "pão" :))

Ricardo, seja bem vindo ao Portal Luis Nassif e por registrar sua passagem pelo post. Apareça sempre.

Oscar, sem dúvida Ary Barroso contribuiu para a valorização do compositor. Mas a luta continua, apesar dos avanços. Ao pesquisar sobre Custódio Mesquita também embarquei numa viagem super prazerosa...

Helô, eu adoro histórias de bastidores; foi muito bom ter trazido pra cá as faixas com as histórias do Mário Lago e o link da matéria do João Máximo publicado no Segundo Caderno do Globo. Vibrei com o fato de um jornal de grande circulação não ter deixado passar em brancas nuvens o centenário de Custódio Mesquita.

Gilberto, isso é que é sintonia entre você e a nossa amiga Helô! Adorei os trechos das faixas selecionadas. Eu retribuo o "Obrigado Laura" pelo "Obrigadíssimo Gilberto".

"Velho Realejo", de Custódio e Mario Lago, com Silvio Caldas, discos RCA Victor, 1940.







Valeu, amigos! Super beijo a todos.
Comentário de Gilberto Cruvinel em 6 julho 2010 às 21:00
Laura, tudo bem contigo?

Olha só o que eu encontrei, Aracy de Almeida cantando Saia do Caminho, lá nos idos de 1975

Comentário de Laura Macedo em 6 julho 2010 às 21:56
Gilberto,
Achado de primeira. Você está se revelando um excelente garimpeiro :))
Beijos.

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