Este ano de 2010 está recheado de centenários importantes para a Música Popular Brasileira a exemplo de Copinha, Jorge Veiga, Luiz Barbosa, Custódio Mesquita, Noel Rosa, Nássara, Haroldo Lobo, Adoniran Barbosa e Vadico (24/06/1910 - 11/06/1962).

Filho de imigrantes italianos, Vadico nasceu no italianíssimo bairro do Brás, em São Paulo, cercado de música. O irmão Carlos era flautista e saxofonista, a irmã Ruth era pianista, e o outro irmão Dirceu, laureado pelo Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, título quase tão importante, então, quanto o de bacharel em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco.

Aos 18 anos de idade, ganhou concurso de música popular realizado em São Paulo, concorrendo com a marcha "Isso mesmo é que eu quero". Nesta ocasião, abandonou o ofício de datilógrafo para apresentar-se pela primeira vez em público em um hotel em Poços de Caldas (MG).

“Eu me sentia como se tivesse descoberto a América! Larguei o tal emprego, e virei profissional, profissional ruim, tocando mal, quase de ouvido”. (Vadico). [Muito modesto, nosso maestro].

Chegando ao Rio de Janeiro, em 1930, com 20 anos, Vadico sabia bem música e piano. E já era compositor, até de cinema, pois seu samba “Deixei de ser Otário” tinha sido feito para o filme de Luiz de Barros, “Acabaram-se os Otários”. E seria gravado pelo maior comediante da época, Genésio Arruda.

Deixei de ser otário” (Vadico) # Genésio Arruda e Conjunto Típico. Disco Columbia (5098), 1929.



Em 1930, Vadico, compôs em parceria com Dan Malio Carneiro o samba "Arranjei outra”, entregue a Francisco Alves, pronto para ser gravado. Neste inicio de carreira era patente seu conhecimento de orquestração. Confiram em Disco Odeon, 1930.

Arranjei outra” (Vadico/Dan Malio Carneiro) # Francisco Alves. Disco Odeon (10641-B), 1930.



 

Eduardo Souto

Apresentou suas composições ao também paulista, de sucesso no Rio de Janeiro, Eduardo Souto, que conseguiu que uma delas, o samba "Silêncio", fosse gravada na Odeon por Luís Barbosa e Vitório Lattari. A mesma obra foi incluída na revista "Bibelô", de De Chocolat, e ainda foi vencedora de concurso realizado pelo "Correio da Manhã".

Silêncio” (Vadico) # Luís Barbosa e Vitório Lattari. Disco Odeon (10879-A), Gravação (1931) / Lançamento (1932).

Foi também Eduardo Souto quem intermediou o encontro de Vadico com Noel Rosa. Vadico relatou a Lúcio Rangel tal encontro.



“A primeira vez que encontrei Noel Rosa foi em 1932. Não posso lembrar aqui o dia e o mês, mas recordo que o nosso encontro se deu nos estúdios da Odeon, onde eu trabalhava numa gravação com o falecido Chico Alves.

Num dos intervalos do trabalho, tendo Eduardo Souto a meu lado, toquei ao piano uma das minhas composições e com a qual o velho Souto ficara fascinado. Pouco depois de terminada a gravação, eis que surge o maestro acompanhado de Noel Rosa, que eu conhecia apenas de nome.

Após as apresentações, Souto pediu-me que tocasse novamente o samba que tanto o agradara. Percebendo o entusiasmo de Noel pela minha composição, ali mesmo sugeriu que trabalhássemos juntos. Concordamos, eu e Noel, imediatamente. Dias depois minha música recebia o título de “Feitio de Oração” e seria gravada no mesmo mês pelos cantores Francisco Alves e Castro Barbosa. E com esse samba demos início a nossa parceria”.



“Feitio de Oração” é considerado um dos maiores clássicos da música popular brasileira, iniciando uma parceria que só se desfez com a morte prematura de Noel Rosa em 1937. Mas antes assinaram outras jóias raras do nosso cancioneiro como “Conversa de Botequim” “Feitiço da Vila”, “Provei”, ‘Quantos Beijos”, “Só pode ser Você”, “Pra que Mentir?”.

“Feitio de Oração”: manuscrito da parceria com Vadico (1933).

Feitio de oração” (Vadico/Noel Rosa) # Francisco Alves/Castro Barbosa e Orquestra Copacabana. Disco Odeon (11042-A), 1931.



 

Feitiço da Vila” (Vadico/Noel Rosa) # João Petra de Barros. Disco Odeon (11175-A), 1934.



OBS:Noel participa fazendo uma segunda voz ao lado de João Petra de Barros, mas não foi creditado no selo original como intérprete.

“Feitiço da Vila”

Conversa de botequim” (Vadico/Noel Rosa) # Noel Rosa e Conjunto Regional. Disco Odeon (11257-B), 1935.



 

Pra que mentir?” (Vadico/Noel Rosa) # Silvio Caldas. Disco Victot (34413-A). Gravação (1938) / Lançamento (1939).



Como soube descobrir em Noel Rosa o parceiro perfeito, Vadico escolheu excelentes letristas como Marino Pinto, Jarbas Melo, David Nasser, Herberto Sales, Edison Borges entre outros.

Seja o que Deus quiser” (Vadico/Mário Morais) # Nuno Roland. Disco Odeon, 1937.

Áudio indisponível no momento

Carmen Miranda e o Bando da Lua.


Segundo Jorge Caldeira, Vadico, em 1939 (dois anos após a morte de Noel), foi para os Estados Unidos, com a orquestra Romeu e Silva, onde sete anos depois casou-se com Harrieta Melane. Lá acompanhou Carmen Miranda, no Bando da Lua.

Participou dos filmes “Uma noite no Rio”, “Aconteceu em Havana” e “Minha secretária brasileira” e, convidado por Walt Dinesy, musicou o desenho “Alô, amigos”, com o personagem Zé Carioca.



Morou por 15 anos nos Estados Unidos, onde conseguiu cidadania e estudou com o maestro Mario Castelnuovo-Tedesco.

Em 1949, ingressou na companhia da bailarina Katherine Dunham, com quem se apresentou na Broadway e excursionou pela Europa.

Em 1954, voltou ao Brasil e trabalhou como orquestrador na Continental e na Rádio Maryrink Veiga e como diretor musical na TV Rio.


Lúcio Rangel: "Quando Vadico retornou ao Brasil era o mesmo grande compositor inspirado, mas era, também, um músico, no sentido amplo da palavra, dominando a técnica, sabendo como poucos fazer uma orquestração ou realizar um “arranjo”.

Ainda segundo Lúcio Rangel, à frente de um conjunto formado por clarineta, sax-alto, tenor, barítono, pistão, trombone, guitarra, piano, contrabaixo, bateria e instrumentos de percussão, realizou o Maestro Vadico um “long-playing” dos melhores da música popular brasileira: “Faceira”.

Reunindo peças de consagrados compositores, como Ary Barroso, Billy Blanco, Assis Valente, Ataulfo Alves, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Newton Teixeira, Arno Carnegal, Caymmi, Antonio Maria, Ismael Neto, Lupicínio Rodrigues, Felisberto Martins, Zequinha Reis, A. Martins, Fernando Lobo, Helinho, Herivelto Martins, Pixinguinha e Benedito Lacerda, a todos soube ele “vestir” com seu talento de orquestrador e sua sensibilidade de artista.


Lúcio Rangel cita alguns dos seus choros instrumentais, como “Duvidoso”, “Dry Copacabana”, “Vai, Astor” e a valsa “Natália”.

Áudio indisponível no momento!

 

Natália” (Vadico) # Luiz Americano. Disco Odeon (11212-B), 1935.



Em meados de 1956, com a peça “Orfeu da Conceição” pronta, Vinicius de Moraes procurou Vadico para musicá-la e, se possível, orquestrá-la, mas o convite foi recusado [não encontrei nas fontes pesquisadas o motivo da recusa]. O certo é que o nosso poetinha pediu a sempre bem-vinda ajuda de Lúcio Rangel, que sugeriu o nome de Antonio Carlos Jobim, na época um jovem compositor e arranjador pouco conhecido.

Vadico e Vinicius de Moraes foram parceiros na música: 

Sempre a esperar” (Vadico/Vinicius de Moraes) # Raul de Barros.

Áudio indisponível no momento"

A música acima, assim como as que seguem, está incluída no disco “Evocação III” (1979), um tributo a sua obra que contou com a participação de grandes músicos, como Márcio Montarroyos, Dominguinhos, Raul de Barros, Amilton Godoy, Roberto Sion, Edu da Gaita e Heraldo do Monte.

“Choro em Fá menor” (Vadico) – Amilton Godoy

“Chopp” (Vadico) – Amilton Godoy



Único disco (em vida) em que aparece o nome do compositor Vadico na capa. Um trabalho de 1959 onde fica patente seu estilo de orquestrador e pianista.





Dos centenários importantes para a Música Popular Brasileira, citados no primeiro parágrafo deste post, talvez, a exemplo de Copinha e outros, o de Vadico também passe em brancas nuvens na grande mídia.

Acredito que o acesso à vida e obra de nossos artistas fomenta a nossa cultura, contribuindo para a formação das novas gerações.


Osvaldo Gogliano, eternizado no mundo da música como Vadico, é, sem favor, um grande artista incorporado à identidade sonora do Brasil e merece ser divulgado.

Hoje, na comemoração do seu centenário de nascimento, presto minha homenagem a este extraordinário compositor/músico de notável sensibilidade e senso de estética musical.





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Fontes:

- CALDEIRA, Jorge. A construção do samba / Noel Rosa, de costas para o mar. São Paulo:Mameluco, 2007.

- HISTÓRIA DO SAMBA. Rio de Janeiro: Globo, 1997-1998. Quinzenal. 40 fascículos acompanhados de CDs.

- RANGEL, Lúcio. Sambistas e Chorões: aspectos e figuras da música popular brasileira. São Paulo: Francisco Alves, 1962. (Contrastes e Confrontos 6).

- SEVERIANO, Jairo; MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras, 1901-1957. 1.ed. São Paulo: Ed. 34, 1977. v.1 (Coleção Ouvido Musical).

Sites:

- ICCA (Instituto Cultural Cravo Albin)
- IMS (Instituto Moreira Salles)
- LORONIX Music From Brasil

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Comentário de Henrique Marques Porto em 24 junho 2010 às 18:49
Laurinha,
Golaço a lembrança de Vadico!
Aquele "Choro em Fá Maior" é uma graça de música.
O nome de Vadico está sempre associado ao de Noel Rosa pelas parcerias famosas, e acabou ficando num segundo plano. Mas ouvindo melhor suas músicas podemos ver sua verdadeira dimensão.

beijão
Henrique Marques Porto
Comentário de Gregório Macedo em 24 junho 2010 às 22:11
Iniciar parceria com Noel Rosa, e pra começo de conversa vir logo com "Feitio de Oração" não é para mortal comum. Curti cada uma das joias e aplaudo a memória desse artista genial que foi (e é) Vadico.
Pesquisa 'pedreira', belíssima homenagem.
Beijos.
Comentário de Gilberto Cruvinel em 27 junho 2010 às 23:44
Laura,

Estou absolutamente impressionado como você consegue reunir de maneira tão harmoniosa tantos elementos sobre um músico. Trabalho de pesquisa de primeiríssima. E toda esse levantamento de história da MPB emoldurado pelas mais belas canções. Eu não tinha a dimensão do gigante que era Vadico, que eu só ouvi falar por ser parceiro de Noel. Ele permanecia escondido. Não mais, seu belíssimo trabalho de pesquisa (concordo com o Gregório, trabalho duro de pesquisa) revelou este artista genial para a gente.

Obrigado Laura
Beijo
Gilberto
Comentário de Laura Macedo em 29 junho 2010 às 2:57
Henrique, Gregório e Gilberto

Confesso que na pesquisa que fiz sobre Vadico algumas parcerias me surpreenderam e cito como exemplos, Aloysio de Oliveira (Guanabara) e Vinícius de Moraes (Sempre a Esperar), ambas belíssimas.

O trabalho do pesquisador em qualquer área do conhecimento humano tem seus momentos de "pedreira",mas são recompensados com a conclusão do trabalho e as respostas do público alvo. Por isso sou grata a vocês por expressarem, generosamente, suas opiniões.

Valeu, amigos!
Super beijo a todos.
Comentário de Cafu em 3 julho 2010 às 13:12
Laurinha,
Só hoje pude ver essa maravilha de matéria. Aprendi um monte de coisas sobre o Vadico. E eu que pensava que ele era amigo de Noel na Vila!
A seleção musical está excelente, variada e dá a dimensão do grande músico que ele foi. Parabéns por mais um trabalho rigoroso e cheio de amor e interesse pelos nossos artistas.
Beijos.
Comentário de Gregório Macedo em 12 junho 2013 às 16:04

Vadico, sem dúvida, enriquece o rol de "centenaristas" 2013 por seu talento ímpar. Bacana que o presenre para nós todos estava há tempos preparado - e com laço de fita!

 

Beijos.

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