Por SUELEN LOPES
Jornalismo Social e Angústias

Cerro Rico, Potosí, Bolívia

Bolívia, 1462. O imperador inca, Huayana Cápac, fica deslumbrado ao observar o monte chamado pelos aymarás de Sumaj Orcko (Cerro Rico, Morro Majestoso). Imediatamente, ordena a seus escravos que explorem a montanha. O inca quer ornamentar templos de seus deuses em Cusco. Aqui, metais e pedras preciosas não possuem valor monetário, apenas espiritual. Durante a expedição, os escravos foram interrompidos por uma voz forte, cavernosa, similar a um trovão. Que dizia: “Não é para vocês. Deus reserva estas riquezas para os que vêm de longe”. Apavorados, os índios fogem. O inca decide não enfrentar a montanha e a abandona. Antes, dá ao local o nome de Potojsi, que em aymará significa tormenta ou estrondo. Ela permanece rica e esquecida por mais 30 anos até que, casualmente, o índio Diego Huallpa a liberta do silêncio.

A história é recriada nas artes. Artistas indígenas e mestiços que pintavam para a corte espanhola introduziam em suas obras o dramatismo de sua história. Mesclavam as expressões andinas com os valores europeus. “Virgen del Cerro” é a arte de um pintor desconhecido do século XVIII. Sintetiza em sua iconografia a descoberta de Cerro Rico, a partir dos rastros do índio Huallpa.

A Virgen del Cerro (autor desconhecido)

A tela e quem nela pinta são objetos da colonização e, como tais, devem retratar o mundo sob a perspectiva européia. Por isso a personagem principal é Virgem Maria. Mas, há coisas que não se moldam ao toque vulgar do colonizador. Para os andinos, a Virgem é, na verdade, La Pachamama, a Mãe Terra. O artista pintou no manto da virgem a descoberta de Cerro Rico. O índio Huallpa, pastoreava suas llamas. Uma delas foge. Ao anoitecer, ele a encontra no topo do monte. Estava frio e Huallpa acende uma fogueira. Com o calor, veios de prata escorrem da montanha e revelam seu segredo para sua eterna sangria. O repentino enriquecimento de Huallpa, induz ambiciosos a seguirem seus rastros e pouco tempo depois o imperador espanhol, Carlos V, se apodera de Cerro Rico “a serviço de Deus, nosso Senhor, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Na parte inferior da obra, autoridades civis e religiosas agradecem a Deus pela riqueza do Cerro, à esquerda o Papa, um cardeal e um bispo; à direita o imperador Carlos V e um cavallheiro de Santiago. No meio deles, um círculo, Potosí, o centro da economia e do poder do mundo ou o mundo aos pés da riqueza de Cerro Rico. Assim, morre Potojsi, como a chamavam os aymarás e nasce Potosí, porque assim é que o espanhol prefere pronunciar.

Desde então, a população de Potosí cresce vertiginosamente e sua riqueza financia a Coroa espanhola à custa do extermínio indígena. A acumulação de capitais do Velho Mundo é banhada pelo sangue dos índios. Os espanhóis determinaram que as tribos deveriam “contribuir” com a exploração e seus caciques foram obrigados a convocar nas aldeias índios para serem recrutados na exploração de Cerro Rico. Eles nunca mais voltariam. Trabalhariam até a morte dentro dos fornos infernais que eram as minas de Cerro.

Hoje, caminhar por Potosí, é sentir na alma a ofensa pungente que a opulência dos palácios coloniais ostentam, tudo edificado por uma riqueza que apenas amaldiçoou seu povo. Pior. Ainda resta no interior da montanha o testemunho vivo. A prata deu lugar ao estanho. Nas galerias cavadas ao longo da montanha sobrevivem homens que arranham os restos de uma herança amaldiçoada.

Mineirador de Cerro Rico

Por um salário que não ultrapassa 30 doláres mensais, eles são tragados pelas profundidades claustrofóbicas da montanha em um trabalho braçal, extenuante, desumano. Lá dentro, onde o simples ato de caminhar é penoso devido ao ar rarefeito e à temperatura insuportável de 45º, esses homens rastejam, martelam, içam, carregam e empurram toneladas. Quando saem, depois de 12 ou 14 horas de trabalho, não são mais do que espectros de si mesmos. O almoço se resume a mascar folhas e folhas de coca para anestesiar a fome e o cansaço. Antes de voltar às minas tomam álcool puro.

Lá fora, as crianças filhas de mineiros, vendem exemplares de pedras contendo estanho como souvenir a turistas. Lá fora, um grupo de turistas se diverte às gargalhadas tentando explodir a dinamite utilizada pelos mineiros. Lá fora, uma senhora indígena estende seus braços implorando por esmolas em um suplício desesperado: “Ajuda-me, ajuda-me”.

Antes da chegada dos espanhóis Cerro Rico estava coberta de arbustos. No cume predominava uma coloração marrom devido a abundância de paja brava, vegetação utilizada como alimento de llamas e alpacas e na construção das casas. Aos seus pés floresciam diversas espécies de plantas nativas com múltiplos usos. Esse manto vegetal foi mudando gradativamente à medida que a montanha engolia e matava os índios. Em Potosí se afirma que com o mineral que os espanhóis roubaram seria possível construir uma ponte de prata entre Potosí e Madri e outra ponte similar com os esqueletos dos índios mortos na exploração cruel desses 300 anos. Hoje, Cerro Rico é vermelha e oca. Pelo sangue derramado em suas entranhas os aymarás a chamaram de Wuila Ckolo, Cerro de Sangre.

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Comentário de Antonio Barbosa Filho em 21 março 2009 às 1:33
Que maravilha de material!
Convido-a a participar (e já incluir tudo isto por lá) do grupo "La Pátria Grande", que criamos justamente para trocarmos idéias e informações sobre os países da nossa América Latina.
Parabéns!
Comentário de Lilian Milena em 21 março 2009 às 1:38
Pois é! Faz meses que estou pedindo pra Suelen participar dessa comunidade, mas a menina só enrola. O jeito foi eu mesma começar a postar as matérias dela por aqui. Mas vou encaminhar esse link pra ela, e ver se muda de idéia...

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