Irian Butel*
Nesta semana foram derrubadas as seguintes unidades históricas: um chalé da família Lobato, localizado na Rua Silva Campos, ao lado da Loja Maçônica; a residência do saudoso escritor, poeta e antropólogo amador Tonzinho Saunier, na Rua Benjamin da Silva, e o conjunto de casarões que circundam a antiga Praça do Cristo Redentor, atual Praça Digital. Na foto, residência da família Teixeira, demolida neste mês.
Essa prática contraria a Lei Orgânica do Município, que no seu capítulo IV – Da família, da educação, da cultura e do desporto, Art. 171, § 4º, afirma: “Ao Município cumpre proteger os documentos, as obras e outros bens de valor histórico, artístico e cultural, os monumentos, as paisagens naturais notáveis e sítios arqueológicos.”
Parintins negligencia o cumprimento das determinações legais de preservação e conservação dos prédios antigos, e assim fica difícil mantê-los de pé. É importante enfatizar que o diálogo entre antigo e moderno é possível e lucrativo, apenas depende de um planejamento sério e investimentos por parte do poder público.
As demolições em Parintins não são de agora. Esse é caso da antiga Delegacia, na rua João Melo, da Mesa de Rendas e outros prédios pertencentes ao conjunto arquitetônico da cidade. Cada prédio traz consigo a narrativa de seu tempo. São lugares de memória que nos dão significado e referências da cidade que somos hoje.
No decorrer dos processos de melhoramentos dos equipamentos comerciais e espaços urbanos, a cidade de Parintins se redesenha. Contudo esse novo diálogo com o espaço traz consigo a voracidade das demolições, das quais as construções antigas são o alvo.
Sobre as cidades paira o diálogo entre antigo e moderno. Constituídas na Idade Média, as cidades são o símbolo da liberdade, da modernidade, da multiplicidade que rompe com o mundo feudal. Sobre as cidades o Jaques Le Goff nos diz: “Considere a cidade da idade Média substitua os muros que a cercam, substitua pelas periferias e teremos a cidade contemporânea”.
Nessa cidade contemporânea, teremos os muros que limitam olhar sejam materiais ou imaginários. Aos muros imaginários atribuem-se as limitações em ler a cidade diante de nossos olhos, e a partir de então estaremos tratando não mais de espaços físicos belos ou não, mas espaços afetivos que trazem consigo significados que, para nós, e somente para nós, ganham referência. A esta categoria Pierre Nora chama de “lugares de memória” e que Ítalo Calvino definirá como “cidades Invisíveis”.
Afirma Calvino, no livro Cidades invisíveis: “Cidade que não se elimina da cabeça é como uma armadura, um retículo em cujos espaços cada um pode colocar coisas que deseja recordar: nomes de homens ilustres, virtudes, números, classificações minerais, vegetais, datas de batalhas, constelações, partes do discurso. Entre cada noção e cada ponto itinerário pode-se estabelecer uma relação de afinidades ou de contrastes que sirva de evocação à memória”.
Sobre os lugares de memória Loiva Otero Félix esclarece: “Cada vez mais o cotidiano afasta-se da tradição e do costume; a memória deixa de ser encontrada no próprio tecido social e passa a necessitar de lugares especiais para ser guardada, preservada em seus laços de continuidade. São os lugares de memória encarregados de desempenhar esse papel de manutenção dos liames sociais, de fugir à ameaça do esquecimento”.
Atribuir condição de afetividade e simbolismo a estes lugares não os esvazia da sua regular representação sócio-histórica, pois cabe a cada membro do grupo social que se identifica com esses símbolos, compartilhar, dividir, externar suas lembranças para então construirmos aquilo que chamamos de História, não a história de fatos engessada por datas, mas a historia da vida, a história com alma que salta a cada esquina, nos estímulos mnemônicos de cada um de nós.
Para um município que vive sob a imagem da Cultura, não dispor de museu, galeria, cinema, teatro. Quantos prédios precisaram ser tombados ao chão?
Para este questionamento não cabem apenas respostas numéricas, mas, acima de tudo, quais posturas serão adotadas, contudo vivemos em uma democracia e se esta é a vontade de todos, então podemos começar a preparar nossos livros de memórias, pois a tendência é que ele ganhe inúmeras páginas diante da atual conjuntura de derrubadas e perdas dos alicerces de nossa história.
*Especialista em História

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