Transcrições de: As razões de Aristóteles – pág. 33 –

“O que ouviste agora mesmo de Zenão foi sua resposta (Parmênides 135 d)”

É impossível que, no momento em que se preparava para ilustrar a utilidade da dialética, Aristóteles não se recordasse dessa passagem na qual se defende a própria dialética contra “a maioria” que a considerava inútil, e se apresenta como o “exercício” inaugurado por Zenão. De resto, conclui-se, por vários indícios, que Aristóteles tinha bem presente o Parmênides – a partir dele, aliás, Aristóteles atingira o famoso argumento do “terceiro homem” – e não podia ignorar, tendo dedicado pela primeira vez à dialética todo um tratado, o elogio que neste diálogo faz a Platão, apresentando-a condição indispensável para que a “verdade” não escape.

Para compreender este terceiro uso, de valor decisivo, sobre o qual até agora não se refletiu bastante, tenha-se presente, antes de tudo, que ele se põe no interior de uma ciência filosófica, isto é, tem por fim o conhecer; em segundo lugar, que tem a ver com as “aporias” – como diz o próprio Aristóteles, com situações de bloco produzidas pela “igualdade de raciocínios opostos” (Tópicos VI 6, 145 b 2); vale dizer com os dilemas nos quais conclusões se chega, isto é, se se chega ou não a conclusões contraditórias consigo mesmas ou com outras posições precedentemente admitidas.

Nesta passagem torna a ser proposto o problema do conhecimento dos princípios de cada ciência, que vimos emergir da descrição da ciência apodíctica; confirma-se, além disso, a impossibilidade de demonstrá-los, porque a demonstração supõe que derivem de outro, ao passo que os princípios são já por si mesmos primeiros; em fim, afirma-se que só resta um procedimento aplicável a eles, o que se serve dos éndoxa, isto é a dialética.

Eu mesmo, Aristóteles, no livro dos opostos, procurei se alguém, tendo rejeitado um dos dois [opostos], não deva necessariamente acolher estas ou absolutamente nada? Aquele, com efeito, que rejeitou a opinião verdadeira não acolhe a opinião falsa, nem aquele[que rejeitou] a falsa [acolhe] a verdadeira, mas em certos casos desta opinião [isto é da falsa] passa ou a não supor absolutamente nada, ou a ciência entre a opinião verdadeira e a falsa não há nada no meio, senão ignorância, e não ciência.

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A emergência da Ciência da Razão para o ser e a razão.

Livro Sete lições sobre o ser – Coletânea de Jacques Maritain - pág. 15, 17, 20, 21, 37, 150 - Mas a filosofia e a ciência também têm relação com o mistério, com outro mistério, o da natureza e o do ser. Uma filosofia que não tivesse o sentido do mistério não seria uma filosofia.

Depois que Descartes negou o valor da teologia como ciência e Kant o da metafísica, vimos a razão perdida, entregue ao empirismo, buscar sabedoria com mais ansiedade que nunca, e não encontrá-la porque recusara o sentido do mistério e porque queria submeter a sabedoria à lei estranha do progresso por substituição.

Ora, a teologia se serve da filosofia, a filosofia é seu meio, seu instrumento de desenvolvimento – à sua maneira -, perdurável.

A filosofia se dirige para a existência atual, para um existente atual, onde a existência atual é necessária e pode, portanto, como tal, completar um conhecimento perfeito, um saber propriamente dito. Ela é, portanto, uma teologia natural e tende à Causa do ser, a Deus, que tem por essência a sua própria existência eternamente atual.

Assim a metafísica faz com que surja nos seus valores puros, nos termos mais elevados do conhecimento natural, no momento em que o conhecimento natural se torna plenamente sabedoria, ela desvenda o que está envolvido e velado no primeiríssimo conhecimento intelectual. Vocês podem compreender que há um perigo muito grande em confundir estes dois momentos, e imaginar, como pensam tantos filósofos modernos, que para os tomistas é o ser como primeiramente atingido pela nossa inteligência que determina o habito metafísico.

Onde predomina, ao contrário, o aspecto mistério, trata-se de penetrar sempre mais no mesmo. O espírito permanece no lugar, gravita em torno de um centro, ou penetra cada vez melhor em sua densidade. É um progresso no mesmo lugar, um progresso por aprofundamento. É desta forma que no ”aumento” intensivo dos hábitos a inteligência, diz João de Santo Tomás, não deixa de mergulhar no objeto, vehementius et profundius, mais veemente e mais profundamente.

Um apelo se faz ouvir nas profundezas do espírito para que se constitua uma sabedoria cristã universal no momento em que, precisamente, os progressos das ciências e da religião permitem dar a esta toda a sua amplitude – e quando o mundo, percorrido por inteiro pelas mesmas angustias e cada vez mais unificado em sua cultura e nos problemas que levanta, pode ou poderia se conformar a esta sabedoria. Será preciso dizer se poderia ainda ou se teria podido.

Esta digressão não era inútil. Retornaremos ao nosso tema. O ser é o objeto formal da inteligência, em tudo que conhece, e a cada vez que conhece, ela atinge, portanto, o ser. Mas o que acontece no caso das diversas ciências inferiores à metafísica? Nessas diversas ciências, o ser encontra-se particularizado. Considera-se este ou aquele ser, enquanto o metafísico tem por objeto especificador de sua ciência o ser visto por si mesmo, e segundo os seus próprios mistérios.

Há aqui distinções que é indispensável fazer. Consideremos o objeto primeiramente atingido pela intelecção humana de que falávamos a pouco, o ser inviscerado nas naturezas sensíveis; este ser representa sob dois pontos de vistas diferentes: seja porque cai sob a consideração do conhecimento da natureza sensível e das diversas ciências experimentais, seja porque cai sob a consideração do senso comum.

...e toda questão se resume a isto: encontrar um critério de distinção de unidade real existente fora do espírito e a unidade simplismente da razão. O matemático abstrai esta questão; para ele a distinção entre o que é real ou de razão não tem interesse, então o matemático submeterá ao cálculo as probabilidades que na realidade não suportam a apresentação desta questão. ... a partir do momento em que o universo comporta igualmente uma unidade real constatável, por exemplo, pela constância de certas ações e de certas leis favoráveis à conservação do conjunto, desde esse instante é preciso dizer que é impossível metafisicamente, não somente improvável, mas impossível, que esta ordem seja produzida sem ordenador; isto não impede de maneira alguma que o matemático faça seu cálculo de probabilidades porque ele abstrai a questão de saber se trabalha sobre seres reais ou sobre seres de razão.

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