CIRANO, HAMLET, VERDI, BIZET e MICHEL TELLÔ

              Somos seis irmãos. Três de cada gênero. Já fomos sete, antes de perdermos uma irmã aos

51 anos. Seríamos oito, se o terceiro irmão não tivesse falecido logo depois de nascer. Sabendo-se que a concepção dura 270 dias, chega-se a conclusão que meus pais não acreditavam que agosto é assim um mês tão aziago como dizem, pois um irmão e três irmãs nasceram em abril e maio. Eu, como pertenço ao signo do animal nemeio truculento, o rei de todos, devo ter sido engendrado na estação das flores, mas estou mais para “autumn leaves” do que para “beautifull daisy”. Somos uma família de intelectuais, ou pelo menos metidos a. Um advogado, uma advogada e pedagoga, duas mestres e doutoras em pedagogia e um dentista epistomologista, bonito, inteligente, sábio, talentoso cantor e ator.

          Nossos pais eram admiradores, ou melhor, adoradores das artes. Todas elas, inclusive a sétima, pois meu pai era proprietário de um cinema. Minha mãe, enérgica professôra, fazia lindas pinturas em tecidos, meu pai dirigia um grupo de teatro amador onde os dois interpretavam. Papai era comunista e dizia que a arte não devia e nem podia ser elitizada, tinha que ser acessível a todas as camadas sociais e “de grátis”. Aliás, a simples existência de camadas sociais era abominada por todos nós. Justamente por esse amor à arte, todos nós desenvolvemos algum tipo de pendor artístico. Minha irmã “veinha," aos 84, pinta lindos quadros em tela, as outras bordam, eu desenho. Mas o que todos nós gostamos mesmo é de cantar, declamar e interpretar. Quando nos reunimos, vez ou outra no aniversário de um ou outro ficamos tirando de artistas.

           Eu também fiz parte de um grupo de teatro amador, quando universitário em Uberaba. Um de meus sonhos era ser autor e ator de sucesso. Em vista disso, em nossas reuniões, sou sempre o mais saliente, o mais chato e o mais engraçadinho. Costumo cantar árias de Il Rigoleto, a marcha do toreador de Carmen, mas o que eu mais gosto mesmo é de interpretar aquele diálogo em que Hamlet não sabe se assume ou não suas preferências e seu complexo de Édipo, aquele da dúvida de “ser ou não ser, eis a questão! Acaso é mais nobre à cerviz curvar aos golpes da ultrajosa fortuna ou já lutando extenso mar vencer de acerbos males?” A fala do Cirano, em que ele não sabe se adapta-se ao capitalismo ou não: “Mas que fazer então? Buscar um protetor poderoso? Um patrão? Ser como a hera que enlaça o carvalho robusto, lambe-lhe a cortiça e sobe então sem custo? Oh! Nâo. Muito obrigado.” Muitas vezes, declamo aquele condoreiro vate baiano perguntando: “Deus, ó Deus! Onde estás que não respondes? Em que mundo, em que astro tu te escondes, embuçado nos céus?” Aquele mesmo baiano que queria “viver, beber perfumes na flor silvestre que embalsama os ares.” Meus oito anos do Casemiro também está no meu repertório, pois fala em laranjeiras e toda vez que o declamo, lembro-me do lindo, glorioso, maravilhoso tricolor lá delas, as laranjeiras.

         Mas foi justamente, na mais recente de nossas reuniõe, há uma semana que eu vi que o primitivismo, a incivilidade e a barbárie podem se incorporar em membros de uma douta família cristã, pejada de intelectuais. Eu fui xingado, execrado e barbaramente agredido com cascudos e tapas. Se fosse naqueles paises onde a lei é mais rigorosa, provavelmente eu teria sido apedrejado. Tudo isso porqu abandonei Verdi e Bizet e resolvi cantar aquela música cuja letra diz assim:

Nossa, nossa

Assim você me mata

Ai, se eu te pego,

Ai, ai, se eu te pego

Delícia, delícia

Assim você me mata

Ai, se eu te pego

Ai, ai, se eu te pego

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