Clarice Lispector - Entrevistas Musicais (I)

No fim dos anos sessenta já escritora consagrada, admirada e respeitada, Clarice Lispector foi convidada a fazer entrevistas.
Entre maio de 1968 e outubro de 1969, publicou regularmente na revista Manchete, na seção "Diálogos Possíveis com Clarice Lispector". Entrevistou famosos do universo cultural (pintores, escultores, romancistas, músicos, atores...).
Entre dezembro de 1976 e outubro de 1977 (dois anos antes de morrer) uma outra série de entrevistas feitas por Clarice apareceu na revista "Fatos & Fotos: Gente".

Faxinando minhas estantes (é a forma de faxina que mais gosto e que nunca termino, porque a cada livro que pego para limpar não resisto a tentação de acarinhá-lo, relendo algumas partes), encontrei o livro "Clarice Lispector, Entrevistas" (organização de Claire Williams; preparação de originais e notas biográficas de Teresa Montero). - Rio de Janeiro: Rocco, 2007.

Na área de música são seis entrevistas: Chico Buarque, Vínicius de Moraes, Tom Jobim, Eils Regina, Jacques Klein e Isack Karabtchevsky.

Vou iniciar a série com a cantora Elis Regina, que aniversariou semana passada (17 de março).

"Eu me encontrei tanto nessa coisa de cantar que jamais pensei em procurar outros caminhos".





Elis Regina tornou-se conhecida nacionalmente em 1965, ao sagra-se vencedora do I Festival de Música Popular Brasileira da TV Excelsior, defendendo a música “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes.



Ao lado de Jair Rodrigues apresentou um dos programas musicais mais importantes da televisão brasileira: o “Fino da Bossa”, estrelado em 1965 na TV Record. Lançou inúmeros compositores como Milton Nascimento, Ivan Lins, Zé Rodrix, Belchior, Aldir Blanc e João Bosco.





Pequenina, de traços delicados, cabelo cortado rente à cabeça, movimentos livres, gesticulando um pouco, com uma inteligência alerta e rápida, facilidade de expressão verbal – eis Elis Regina, pelo menos uma delas.



- Por que você canta, Elis? Só porque tem voz magnífica? Conheço pessoas de ótima voz que não cantam nem no banheiro.




- Sei lá, Clarice, acho que comecei a cantar por uma absoluta e total necessidade de afirmação. Eu me achava um lixo completo, sabia que tinha uma voz boa, como sei, e então essa foi a maneira para a qual fugi do meu complexo de inferioridade. Foi o modo de me fazer notar.




- O que é que você sente antes de enfrentar o público: segurança ou inquietação?




- Inquietação. Sou segura em relação ao que eu vou fazer, mas profundamente inquieta quanto a reação das pessoas que me ouvirão.




- Se você não cantasse, seria uma pessoa triste?



- Seria uma pessoa profundamente frustrada e que estaria buscando uma outra forma de afirmação.





- Qual seria essa outra forma de afirmação?



- Não tenho realmente a menor idéia, porque eu me encontrei tanto nessa coisa de cantar que nunca pensei nisso.



- Você é um tipo extrovertido. É natural em você ou você se faz assim a si mesma para não se deprimir, ou seja, fala tudo para não ficar muda?


- Sou um ser do tipo sanguíneo que oscila muito. Tenho momentos de extrema alegria e momentos de profunda depressão. Não obedeço a uma agenda: hoje vou sentir isso, amanhã vou sentir aquilo. Reajo aos acontecimentos à medida em que o ambiente reage sobre mim. Mas como sou hipersensível, as coisas têm às vezes um valor que a maioria das pessoas acham ridículo. Mas eu sou assim mesmo. Por exemplo, às vezes fico furiosa com uma pessoa cujo problema talvez, você contornasse com um simples puxão e orelha. Ao mesmo tempo, tomei agora consciência de que essa não é uma atitude lógica e estou procurando me reestruturar.



- Que é que você tem feito de positivo em matéria de auto-reestruturação?



- Estou fazendo um tratamento genial que é, dizem, moderníssimo – reflexologia.




- Em que consiste?



- Parte das descobertas dos reflexos condicionados de Pavlov. No meu caso, está sendo atacada de início a minha taquipsiquia, isto é, minha tendência de pensar mais rápido do que eu mesmo posso agir. Portanto quando as coisas chegam a acontecer, já tomaram proporções monstruosas, não na realidade, mas dentro de minha "cuca".



- E como é que o médico intervém nesse sistema?



- Primeiro, mostrou que tenho essa tendência e provou que isso é verdade. E está agora me dando condições psíquicas para que eu saiba exatamente o momento em que a aranha da taquipsiquia começa a se movimentar, e como devo jogá-la para fora de casa.



- Você foi considerada má colega. Pelo que tenho lido a seu respeito, me parece pelo contrário: boa colega. O que é ser má colega?


- Bom, toda minha vida disseram que fui má colega. Mas, enquanto eu dei quarenta no Ibope tive um programa de televisão na mão e as pessoas puderam se sobressair. Utilizaram-se de todas as vantagens que a artista Elis Regina poderia lhes dá no momento. Nenhum artista dos que hoje me acusam de má colega deixou de comparecer e usufruir de meu programa e meu sucesso. Então eu não sei mais quem foi e quem é má colega. Má colega, na minha opinião, é aquela que esconde seus parceiros. Eu, muito pelo contrário, nunca agi assim e fui até criticadíssima porque no meu programa acontecia de tudo, sem que tenha havido uma estrutura prévia. Se eu fosse a déspota que dizem, no meu programa só daria eu. Mas acontece o oposto: quanto mais pessoas estiveram agregadas ao processo, melhor para mim. Seria mais cômodo ter a minha gangue, e não trabalhar como trabalhei tanto tempo com gente diferente e de sucesso. Que meus colegas digam que sou uma pessoa geniosa, dou a mão à palmatória. Mas mau caráter é quem cospe no prato em que comeu.



- Se você não pissase no palco, o que faria de sua vida?




- Não sei. Realmente não tenho a menor idéia.





- Pense agora então.


- É que o palco está tão ligado à minha maneira de ser, à minha evolução, aos meus traumas, que eu acho que me separar de um palco é coisa que castrar um garanhão: ele deixa de ter razão de existir.





- A vida tem sido boa para você?



- Muito boa. Acho até que tenho mais do que mereço ter. E não estou fazendo demagogia barata: acho mesmo isso.




- Você já esteve apaixonada? Se esteve, suas interpretações mudaram nesse período?




- A pessoa apaixonada se comporta completamente diferente em relação a tudo, principalmente sendo sensível como eu sou.




- É bom estar apaixonada?





- Bem melhor do que não sentir nada!



- Você mudou seu estilo de cantar. Por exemplo, não usa tanto os braços. Por que a mudança? Para sair da rotina ou porque você ficou mais moderna?


- A gente vai vivendo – e eu sou uma pessoa que vive intensamente, tirando o máximo de tudo – a gente vai vivendo e modifica-se a cada dia. Juntando-se a isso a pouca idade e maturidade incompleta no meu início de carreira, é absolutamente normal, penso eu, que eu esteja me modificando sempre, Acho que nenhum ser tem o direito de se cristalizar nem os outros têm o direito de exigir isso dele.



- Como é que você tem recebido os comentários negativos sobre Elis Regina?



- Procuro antes saber porque a pessoa falou isso. Depois, analiso se existe algum envolvimento pessoal na crítica. Faço a soma; tiro a prova dos nove, e passo a limpo, se for o caso.


- Quando você está em casa, com tempo disponível, e pôe um disco na vitrola, quem canta nesse disco?
- Frank Sinatra – respondeu Elis prontamente, sem hesitação.
- Dizem alguns que seu show é o Mièle. Que é que você acha?


- Este show é um conjunto de coisas. Talvez, mais que Mièle, o show seja Bôscoli. Isso no que diz respeito a parte dos bastidores. Agora, em palco, Mièle é o maior artista que já vi trabalhar em cena, além de tudo que ele faz é absolutamente natural: ele é assim. Sinto-me profundamente feliz de ter sabido escolher bem, mais uma vez, o meu parceiro de trabalho. Não se deve esquecer também, nas críticas, que eu sou a íntima conhecida de todo o mundo e que o Mièle é que é o novo no espetáculo. Sei que não sou nenhuma novidade. Mas estou feliz que a novidade seja exatamente Mièle, que é meu amigo, meu produtor, meu confidente e uma das poucas pessoas que me retribuíram no pouco que lhes dei.

*********

Estava mais ou menos encerrada a entrevista, se bem que esta pudesse se completar muito mais. Foi o que aconteceu quando Elis me deu carona no seu carro e conversou muito comigo. Infelizmente não posso transmitir a conversa, que me mostrou uma Elis Regina responsável, misteriosa nos seus sentimentos, delicada quanto aos sentimentos dos outros. Uma Elis Regina, enfim, que tem mais problemas do que o de ser acusada de mau coleguismo. Mostro-se uma Elis Regina que não quer ferir ninguém. Se há outras Elis, no momento, não me foi dado ver. A que eu conheci tem uma espontaneidade e uma simpatia raras.

*********

OBS: A transcrição da entrevista foi feita respeitando a ortografia da época.

Exibições: 816

Comentário de Cafu em 23 março 2009 às 11:26
Que maravilha, Laura! Clarice e Elis: duas estrelas brilhantes!
Publica TUDO, para o bem de todos e felicidade geral da nação. Quero ver o meu Chico. Quero ver o meu Tom. Quero ver o meu Vina!
(...e depois continue faxinando as estantes e desencavando as preciosidades.)
Beijos e muuuuito obrigada.
Comentário de Sonia Nascimento em 23 março 2009 às 16:39
Que coisa rara você conseguiu! Mal posso esperar pelo que vem. Elis Regina faz parte da minha vida como se eu a tivesse conhecido pessoalmente, compartilhado suas emoções e ela as minhas. Sua música é a trilha sonora da minha vida e ela me faz falta, ainda, como se fosse alguém da minha família, que perdi de repente, com um grande susto e muita dor. Eu era jovem e que sorte nós tivemos de ter ela e os outros ao invés do que rola por aí agora em matéria de música e arte. Hoje faço sessenta anos e foi um presentão! Obrigada e beijos.
Comentário de Laura Macedo em 23 março 2009 às 17:35
Oi, Sônia.
Concordo plenamente com você que a nossa geração teve bastante sorte na área artística em geral e, em especial, na música.
Também curto muito o trabalho da Elis; ela é demais!
Amo de paixão a MÚSICA. Pela minha página aqui no Portal dá prá notar, não é mesmo? :-)
Que bom que mesmo involuntariamente lhe dei um presente de aniversário!
Quero aproveitar para desejar tudo de bom nos planos pessoal, profissionnal e afetivo.
Parabéns e Tim-Tim!!!
Beijos.
Comentário de Laura Macedo em 23 março 2009 às 17:40
Cafu.
Já vi que a faxina valeu a pena. Amei seu comentário.
Beijos.
Comentário de Gregório Macedo em 26 março 2009 às 1:32
Acabei de ler a entrevista. Adoro entrevistada e entrevistadora. Você soube escolher. Fico a imaginar a trabalheira na montagem, mas o importante é que deu uma dinâmica ótima.
Valeu, lindinha.
Beijos.

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