Clarice Lispector - Entrevistas Musicais (II)

Dando continuidade a série: Clarice Lispector – Entrevistas Musicais destacamos, nessa segunda edição, o poeta, diplomata e compositor Vinicius de Moraes.

"Detesto tudo que oprime o homem, inclusive a gravata”.



Poeta, assumiu postos diplomáticos em Los Angeles, Paris e Roma. Tornou-se um dos compositores mais populares da MPB, e um dos integrantes da Bossa Nova.
Colaborou com vários jornais e revistas, como articulista e crítico de cinema. Escreveu “Orfeu da Conceição”, que teve montagem teatral em 1956, com cenários de Oscar Niemeyer. Posteriormente transformada em filme (com o título de “Orfeu Negro”) pelo diretor francês Marcel Camus, em 1959, foi premiada com a Palma de Ouro no Festival de Cannes e com o Oscar, em Hollywood, como melhor filme estrangeiro do ano. Nesse filme acontece seu primeiro trabalho com Tom Jobim.
Entre seus parceiros estão, entre outros, Carlos Lyra, Edu Lobo, Francis Hime, Dorival Caymmi, Baden Powell e Toquinho


Mulher, poesia e música.


- Vinicius, acho que vamos conversar sobre mulheres, poesia e música. Sobre mulheres porque corre a fama que você é um grande amante. Sobre poesia porque você é um dos nossos grandes poetas. Sobre música porque você é nosso menestrel. Vinicius, você amou realmente alguém na vida? Telefonei para uma das mulheres com quem você casou, e ela disse que você ama tudo, a tudo você se dá inteiro: a crianças, a mulheres, a amizades. Então me veio a idéia de que você ama o amor, e nele inclui as mulheres.


- Que eu amo o amor é verdade. Mas por esse amor eu compreendo a soma de todos os amores, ou seja, o amor de homem para mulher, de mulher para homem, o amor de mulher por mulher, o amor de homem para homem e o amor de ser humano pela comunidade de seus semelhantes. Eu amo esse amor mas isso não quer dizer que eu não tenha amado as mulheres que tive. Tenho a impressão que, àquelas que amei realmente, me dei todo.


- Acredito, Vinicius. Acredito mesmo. Embora eu também acredite que quando um homem e uma mulher se encontram num amor verdadeiro, a união é sempre renovada, pouco importa as brigas e desentendimentos: duas pessoas nunca são permanentemente iguais e isso pode criar no mesmo par novos amores.


- É claro, mas eu ainda acho que o amor que constrói para a eternidade é o amor paixão, o mais precário, o mais perigoso, certamente o mais doloroso. Esse amor é o único que tem a dimensão do infinito.




- Você já amou desse modo?




- Eu só tenho amado desse modo.




- Você acaba um caso porque encontra outra mulher ou porque se cansa da primeira?


- Na minha vida tem sido como se uma mulher me depositasse nos braços de outra. Isso talvez porque o amor paixão pela sua própria intensidade não tem condições de sobreviver. Isso acho que está expresso com felicidade no dístico final do meu soneto “Fidelidade”: “que não seja imortal posto que é chama / mas que seja infinito enquanto dure.



- Você sabe que é um ídolo para a juventude? Será que agora que apareceu o Chico, as mocinhas trocaram de ídolo, as mocinhas e os mocinhos?




- Acho que é diferente. A juventude procura em mim o pai amigo, que viveu e tem uma experiência a transmitir. Chico não, é ídolo mesmo, trata-se de idolatria.




- Você suporta ser ídolo? Eu não suportaria


- Às vezes fico mal-humorado. Mas uma dessas moças explicou: é que você, Vinicius, vive nas estantes de nossos livros, nas canções que todo mundo canta, na televisão. Você vive conosco, em nossa casa.




- Qual é a artista de cinema que você amaria?



- Marilyn Monroe. Foi um dos seres mais lindos que já nasceram. Se só existisse ela, já justificaria a existência dos Estados Unidos. Eu casaria com ela e certamente não daria certo porque é difícil amar uma mulher tão célebre. Só sou ciumento fisicamente. É o ciúme de bicho, não tenho outro.




- Fale-me sobre sua música.




- Não falo de mim como músico, mas como poeta. Não separo a poesia que está nos livros da que está nas canções.





- Vinicius, você já se sentiu sozinho na vida? Já sentiu algum desamparo?




- Acho que sou um homem bastante sozinho. Ou pelo menos eu tenho um sentimento muito agudo de solidão.





- Isso explicaria o fato de você amar tanto, Vinicius.




- O fato de querer me comunicar tanto.



- Você sabe que admiro muito seus poemas, e, mais do que gostar, eu os amo. O que é a poesia para você?


- Não sei, eu nunca escrevo poemas abstratos, talvez seja o modo de tornar a realidade mágica aos meus próprios olhos. De envolvê-la com esse tecido que dá uma dimensão mais profunda e conseqüentemente mais bela.





- Reflita um pouco e me diga qual a coisa mais importante do mundo, Vinicius?




- Para mim é certamente a mulher.




- Você quer falar sobre sua música? Estou escutando.



- Dizem, na minha família, que eu cantei antes de falar. E havia uma cançãozinha que eu repetia e que tinha um leve tema de sons. Fui criado no mundo da música, minha mãe e minha avó tocavam piano, eu me lembro de como machucavam aquelas valsas antigas.
- Meu pai também tocava violão, cresci ouvindo música. Depois a poesia fez o resto.

Fizemos uma pausa. Ele continuou.

- Tenho tanta ternura pela sua mão queimada...

(Emocionei-me e entendi que este homem envolve uma mulher de carinho). Vinicius disse, tomando um gole de uísque:

- É curioso, a alegria não é um sentimento nem uma atmosfera de vida nada criadora. Eu só sei criar na dor e na tristeza, mesmo que as coisas que resultem sejam alegres. Não me considero uma pessoa negativa, quer dizer, eu não deprimo o ser humano. É por isso que acho que estou vivendo um movimento de equilíbrio infecundo do qual estou tentando me libertar. O paradigma máximo para mim seria: a calma no seio da paixão. Mas realmente não sei se é um ideal humanamente atingível.



- Como é que você se deu dentro da vida diplomática, você que é o antiformal por excelência, você que é livre por excelência?


- Acontece que detesto tudo que oprime o homem, inclusive a gravata. Ora, é notório que o diplomata é um homem que usa gravata. Dentro da diplomacia fiz bons amigos até hoje. Depois houve outro fato: as raízes e o sangue falaram mais alto. Acho muito difícil o homem que não volta ao seu quintal, para chegar ou pelo menos aproximar-se do conhecimento de si mesmo.




- Como poeta, Vinicius, o que é que desejaria alcançar?



- Eu desejaria alcançar outra coisa. Isso de calma no seio da paixão. Mas desejaria alcançar uma tal capacidade de amar que me pudesse me fazer útil aos meus semelhantes.




- Quero lhe pedir um favor: faça um poema agora mesmo. Tenho certeza que não será banal. Se você quiser, Menestrel, fale seu poema.



- Meu poema é em duas linhas: você escreve uma palavra em cima e a outra em baixo porque é um verso.
É assim:

Clarice

Lispector

- Acho lindo o teu nome Clarice.



- Você poderia dizer quais as maiores emoções que já teve? Eu, por exemplo, tive tantas e tantas, boas e péssimas, que não ousaria falar delas.


- Minhas maiores emoções foram ligadas ao amor. O nascimento de filhos, as primeiras posses e os últimos adeuses. Mesmo tendo duas experiências de quase morte – desastre de avião e de carro – mesmo essa experiência de quase morte nem de longe se aproximou dessas emoções de que te falei.



- Você se sente feliz? Essa, Vinicius, é uma pergunta idiota, mas eu gostaria que você respondesse.




- Se felicidade existe, eu só sou feliz quando me queimo e quando a pessoa se queima não é feliz. A própria felicidade é dolorosa.


**********


Meditamos um pouco, conversamos mais ainda, Vinicius saiu.
Então telefonei para uma das esposas de Vinicius.

- Como é que você se sente casada com Vinicius?

Ela respondeu com aquela voz que é um murmúrio de pássaro:
- Muito bem. Ele me dá muito. E mais importante do que isso, ele me ajuda a viver, a conhecer a vida, a gostar das pessoas.

Depois conversei com uma mocinha inteligente:
- A música de Vinicius, disse ela, fala muito de amor e a gente se identifica muito com ela.

- Você teria um “caso” com ele?

- Não, porque apesar de achar Vinicius amorável, eu amo outro homem. E Vinicius me revela ainda mais que eu amo aquele homem. A música dele faz a gente gostar ainda mais do amor. E “de repente, não mais que de repente”, ele se transforma em outro: e é o nosso poetinha como o chamamos.

Eis pois alguns segredos de uma figura humana grande e que vive a todo risco. Porque há grandeza em Vinicius de Moraes.


********


OBS: A transcrição foi feita respeitando a ortografia da época.

Exibições: 380

Comentário de Helô em 29 março 2009 às 22:45
Laura
A série está maravilhosa!
Você deve ter assistido ao filme "Vinicius" e lendo agora a entrevista percebi nas palavras do poeta o que senti ao ver o filme: "Acho que sou um homem bastante sozinho. Ou pelo menos eu tenho um sentimento muito agudo de solidão".
Já estou ansiosa para a próxima entrevista, Laurinha.
Beijos.
Comentário de ELISABETE FRANCISCO ABUD em 29 março 2009 às 22:48
Adorei a entrevista. Continue nos presenteando com textos como este.
Hoje estava ouvindo Aracy Balabarian lendo contos de Clarice e uma frase em especial (como acontece cada vez que leio Clarice) me chamou atenção. Ela diz que uma folha da árvore caiu em seus cílios e que foi um delicadeza de Deus. Não é lindo?!!!
Comentário de Elianne Diz- Laura Diz em 30 março 2009 às 0:03
Olá Xará, adorei ler a entrevista- estou lendo Clarice, é tão especial a Clarice...
e ele, o poeta tão natural, parecia que tudo era tão mais fácil com ele- mesmo na solidão- o amor ajuda mto.
Postie no outro blog do blogspot a entrevista dela de Tom, uma delícia tb, vc conhece, é desta série.
Bj Laura Diz( pra ficar diferente)
Comentário de Laura Macedo em 30 março 2009 às 1:40
Colegas, grata pelos comentários.

Laura, minha xará, quer dizer que além da sua ótima página aqui no Portal você ainda tem outro blog? Que chique!
A entrevista do Tom sairá do forno em breve.

Elizabeth

A Clarice, também, sempre me surpreende. Concordo plenamente com você. A frase é lindíssima.

Helô

Você acertou na mosca. Amei o filme ´"Vinicius".
Hoje uma prima que mora em Vitória (ES) ligou dizendo que enviou, pelo correio, um livro sobre o Vinicius...São as coincidências da vida...

Um grande beijo nas três.
Comentário de Cafu em 30 março 2009 às 10:43
Meu poema de 4 linhas

Clarice

Lispector

Vinícius

De Moraes


Demais, Laurinha!!!!! Agora já todo mundo pro cinema: assistir A Palavra (En)cantada da Helena Solberg. Depois escreve uma redação de quantas linhas quiser (inclusive nenhuma) para a professora Clarice.

Beijos.

:@~
Comentário de Elianne Diz- Laura Diz em 30 março 2009 às 12:44
Tenho alguns posts sobre Clarice no meu outro blog- tenho desde 2005 e ela está desde o inicio, num dos primeiros posts, vou ver e colocar p vc ler.
As pessoas que amam Clarice têm afinidade, bom isto, né?
http://lauravive.blogspot.com/2009/03/clarice.html

bjs xará, Laura
Comentário de Gregório Macedo em 30 março 2009 às 22:24
Vinicius, um cara que passou pela vida e viveu; Clarice, um de meus enigmas prediletos - além de lindíssima.
Laurinha, que beleza de entrevista.
Beijos.
Comentário de Elianne Diz- Laura Diz em 30 março 2009 às 22:49
Laura, obrigada pela visita e elogio. É um prazer qdo alguém gosta do espaço da gente.
Apareça sempre, é bem-vinda- pode sugerir, se quiser, participar mais.
Eu gosto. Teu espaço tb é mto gostoso.
bj LauraDiz

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