Clarice Lispector - Entrevistas Musicais (III)

Nesta terceira edição da série: Clarice Lispector - Entrevistas Musicais enfocamos o maestro Isaac Karabtchevsky.

"Prefiro o silêncio ao grito".


Fundador do Madrigal Renascentista, de Belo Horizonte, em 1956.

Dirigiu as orquestras sinfônicas de Tel Aviv e Praga. Foi diretor musical da Orquestra Sinfônica Brasileira durante 20 anos, com a qual fez turnês pela Europa e Estados Unidos.

Diretor do Teatro La Fenice desde 1995.




Isaac Karabtchesky é regente assistente da Orquestra Sinfônica Brasileira. É um homem moço, bonito, ágil, calmo mas vibrante, inteligente – e vê-lo e ouvi-lo reger é um espetáculo de beleza.





- Quando é que começou sua música?



- Nunca fui aluno brilhante. O estudo da música, no ginásio, aborrecia-me e entediava – nunca poderia supor que com notas e pautas iria eu cristalizar uma vocação, definir meu futuro de artista. Minha diversão era, durante longas horas, ouvir uma fuga de Bach e ir criando, simultaneamente, novas linhas e vozes – daí vem, desde cedo, uma estranha atração pela polifonia, pelos contrapontos mais densos e complexos – daí também, talvez em estado embrionário, minha tendência em considerar a música como um todo, reflexo de várias vozes e instrumentos, e minha ojeriza ao gênero solista. Mas até então a música era um estímulo para suportar as horas tristes da minha adolescência – poucos amigos, pouca diversão, e obrigado a ajudar minha família desde cedo. Aos quinze anos trabalhava como balconista numa loja de artigos para crianças. Lembro-me de uma passagem gozada – estava vendendo qualquer coisa de cor branca e argumentava: “Não, não descora, não!” Como uma planta que cresce e não sente, assim foi-se desenvolvendo em mim uma paixão sem limites pela música – fundei um coro, no colégio que estudava, e ensaiava de ouvido, sem conhecer uma nota sequer. Improvisava os tenores, baixos e sopranos, e cada ensaio era uma revelação. Regi meu primeiro concerto de cima de uma cadeira, pois não havia pódio.




- E depois?


- Com dezessete anos, resolvi ser sincero com as minhas convicções e tornar-me um sionista – e, mais especificamente, um sionista no “kibutz” em Israel, forma de grandes cooperativas, onde não existe a propriedade individual, tudo é dividido irmamente e onde eu tinha dois irmãos trabalhando e vivendo.
Já então um militante, aprendi a amar a natureza, a viver em barracas; preparei-me para o meu futuro de camponês. Em nossa colônia experimental, cheguei até a plantar morangos. Deixei o colégio e escolhi uma profissão onde pudesse ser útil no futuro: a eletrotécnica. Foi no Mackenzie, em São Paulo – lembro-me de soldas e ferro fundido, voltímetros e amperímetros, um sem-fim de números e cálculos, e um sentimento de frustração que cada vez mais me dominava. Foi aí que fundaram, bem ali atrás do cemitério da Consolação, na rua Sergipe, a então Escola Livre de Música da Pró-Arte, espécie de “lugar maldito”. O seu diretor, o alemão H.J. Koellreutter pregava um sistema complicado baseado na técnica dos doze sons, o “dodecafonismo”. Em torno desse sistema de composição criou-se verdadeira polêmica em São Paulo: discussões acirradas e violentas, o desespero ilógico dos folcloristas – nesse ambiente de tensão, assistindo ocasionalmente uma palestra de Koellreutter, decidi definitiva e irreversivelmente pela música.




- Quando é que você tomou consciência profissional?


- Com intensidade e firmeza dediquei-me aos estudos – de manhã à noite, sem descanso, e durante cinco anos assimilei o que normalmente seria feito em dez. Passei a considerar utópico meu futuro no “kibutz” como músico, necessitava de novos ambientes, sentir e viver as velhas tradições. Parti para a Europa em 1958, dois anos após haver fundado o conjunto que estabeleceria um verdadeiro marco no panorama musical brasileiro: o Madrigal Renascentista.



- Você se sente plenamente realizado como maestro?



- Minha vida tem sido um sem números de concertos aqui e no exterior – creio que tenha tido sorte, mas estou longe, aos 33 anos, de julgar-me realizado. Entre dúvidas e angústias, de uma coisa apenas estou certo: estou organicamente ligado à música, como uma ostra à sua casa. Não acredito que pudesse fazer outra coisa a não ser música, seria um medíocre a mais.



- Que é que você sente enquanto rege?


- Quando rejo sinto-me transportado – perco minha individualidade e vivo com intensidade a partitura. Após o concerto sou um farrapo, consumido pelo suor e cansaço; mas quando tudo foi bem, sou o homem mais feliz do mundo.

Silêncio nosso.

- Tenho uma experiência a contar. Uma vez fui à “Manchete” falar com Adolfo Bloch sobre um plano de levar a música sinfônica às diversas camadas da população ainda não atingidas pela música erudita. Ele me ouviu – e disse-me: “Isaac, isto é um a bobagem! Por que pensar em três mil quando podemos atingir trinta mil? Deixe por minha conta!” Reuniu então o seu “staff” e programou um espetáculo, no Monumento dos Pracinhas, com a OSB, três bandas militares, canhões e sinos.
A peça principal era a “Abertura 1812”, de Tchaikovski. A princípio não acreditei que desse certo – sempre tive receio de aglomerações para ouvir música, multidões só para comícios e enterros importantes.
Nos acordes finais da “1812”, onde o hino russo se impõe, vi o povo correr em minha direção. Na frente de todos, de braços abertos, quase chorando, vinha Adolpho. Senti que havia ganho nessa noite um grande amigo. E não só isso: em diferentes etapas de minha vida, foi Adolpho o conselheiro, pai e irmão.


- O que é que o Brasil precisa, maestro Karabtchevsky, para atingir a sua maioridade musical?



- Uma reestruturação completa e radical no ensino musical, não com a intenção de formar músicos profissionais, mas sim de forjar as futuras gerações que ouvirão música com prazer e sinceridade.



- Que é que você sente regendo Chico Buarque?



- Criticaram-me muito por ocasião do concerto com as obras de Chico Buarque – houve reação dos puristas, daqueles que não compreendem que é necessário o grito, a loucura, qualquer coisa menos este silêncio mortal, este silêncio de gelo. Pretendi não a simbiose da música popular com a erudita (nem ousaria tanto), mas a motivação que poderia atrair uma juventude dispersa, sequiosa de novos valores. É ingenuidade pensar que se construa o que quer que seja sobre palavras – num país como o nosso onde grande parte é ainda analfabeta, o problema da música deve ser colocado em outras bases, mais amplas, mais dinâmicas. O concerto do Chico foi uma tentativa, a abertura dos caminhos.



- Como é que um regente estuda?



- O essencial é memorizar, integrar-se completamente na obra. O regente estuda com amor e teimosia.




- Por que as mulheres não são regentes?




- Creio que o problema é o físico. Uma orquestra exige de um regente capacidade de resistir a um concerto durante várias horas, em pé, além de ensaiar intensamente.




- Qual é a coisa mais importante do mundo?



- Amar plenamente.




- Qual a coisa mais importante para uma pessoa como indivíduo?



- Respondo com a resposta anterior e acrescento: realizar, produzir.





- Que é o amor?



- O amor é imponderável. Só sei que existe e é difícil imaginar viver-se sem ele.



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Clarice Lispector: Entrevistas Musicais (I) e (II).


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Exibições: 166

Comentário de Elianne Diz- Laura Diz em 5 abril 2009 às 22:01
É engraçado, ela pergunta para todos:
- o que é o amor?
Gostei da resposta dele, o amor é o imponderável, aquilo que te captura sem vc saber o porquê.
Tive um amigo violinista americano que foi spalla na OSB_Rio qdo o Isaac era o maestro, dizia que ele era um cara insuportável. Não sei... pode ser que o americanotivesse dificuldades com ele. O Tad, o meu amigo, estudava o dia todo, só parava p almoçar.
Uma vez no dia do meu aniversário tocou uma peça de Bach p mim e minha irmã naminha casa, não quis mais ninguém de fora. Um luxo.
Bj Laura-Elianne
Comentário de Laura Macedo em 5 abril 2009 às 22:57
Laura, é luxo mesmo! Quem me dera um presente de aniversário como esse. Um dos integrantes de uma Orquestra Sinfônica dentro da minha sala. Que chique!
- O que é o amor?
Essa perguntinha, aparentemente simples e curta, é bem difícil responder...
Mega beijo.
Comentário de Helô em 6 abril 2009 às 2:19
Laurinha
Sempre achei que devemos muito a ele pela divulgação da música erudita.
E continue tratando da gente com a homeopatia. Só que meu médico me receitou as gotinhas duas vezes por dia, hahaha.
Beijos e boa semana.
Comentário de Laura Macedo em 6 abril 2009 às 2:26
Helô.
Esse remédio tem uma peculiaridade: seu preparo é muuuuuito trabalhoso :))))
Mas em compensação, mesmo sendo administrado uma vez por semana o efeito é tiro e queda, ha,ha,ha.
Excelente semana e beijos.
Comentário de Cafu em 9 abril 2009 às 11:33
Essa Abertura 1812 do Tchaikoviski me fez lembrar um dos maiores micos que já paguei na vida. Eu tinha 16 anos, estudava na Inglaterra e fui assistí-la num lugar bem chic, talvez Albert Hall, não lembro mais. Era época de muita tensão política e havia muitos atentados terroristas do IRA em guerra contra a dominação inglesa. Quando chegou a parte do BUM! BUM! BUM! eu dei um grito e me encolhi toda na cadeira achando que eram os irlandeses explodindo conosco. HAHAHA. Depois não sabia onde enfiar a cara e todo o resto. HAHAHA.
Corretíssima a motivação do maestro em atrair a juventude dispersa, desinformada e sequiosa de novos valores. Hahaha.
Continuamos necessitados de "uma reestruturação completa e radical no ensino musical, não com a intenção de formar músicos profissionais, mas sim de forjar as futuras gerações que ouvirão música com prazer e sinceridade."
As perguntas da Clarice são ótimas!
Obrigada por mais essa, Laurinha.
Beijos.
Comentário de Laura Macedo em 9 abril 2009 às 20:36
Quer dizer que a minha grande amiga Cafu é internacional, já estudou em Londres? Isso é que é Chique! :)))))
Concordo plenamente com o maestro e com você no sentido de fomentar nos jovens o bom gosto para as artes em geral e, em especial, para a música.
Aqui em Teresina estamos com uma ótima experiência com o ensino de violão nas escolas da rede municipal, envolvendo 500 alunos e com a promessa de dobrar esse contigente para 1.000 alunos até o fim do ano.
No FENAVIPI (Festival Nacional de Violão do Piauí) deste ano, a orquestra de violões apresentou-se e encantou a todos.
Um grande beijo.
Comentário de Cafu em 10 abril 2009 às 14:20


HAHAHA!
Beijos.

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