Clarice Lispector - Entrevistas Musicais (V)

Você conhece o maestro cearense Jacques Klein? Em caso negativo esta é uma ótima oportunidade de conhecê-lo, via Clarice Lispector, nesta V edição da série "Entrevistas Musicais".


"Se eu não fosse pianista, seria escritor".



Estreou em 1954 na Filarmônica de Londres e recebeu inúmeros prêmios e medalhas.

Em 1955 foi eleito o melhor pianista do ano, em Londres, recebendo então a Medalha Harriet Cohen.

Como intérprete, gravou alguns discos de MPB com obras de Dorival Caymmi como os sambas-canção “Tão só” e “João valentão”.




Quem já ouviu Jacques Klein tocar não precisa de descrições sobre o que sua mãos preciosas (estão no seguro) conseguem de um piano. Quem não ouviu, mal poderá imaginar. Como figura humana, Jacques Klein também é grande. Tem o chamado calor humano. E foi assim que me recebeu ao telefone, quando marcamos o dia do diálogo. Estava, quando o conheci, em período de férias merecidíssimas, o que não excluiu o estudo de piano.




- Como e quando se deu sua primeira aproximação da música?


- Meu pai era um apaixonado pela música. Foi fundador da Cultura Artística e do Conservatório de Música de Fortaleza., Ceará, onde nasci. E quando completei cinco anos de idade, levou-me para estudar piano. A mim e minha irmã, aos dois. Estudei então no Ceará até a idade de nove anos, quando nos transferimos para o Rio de Janeiro. Aqui participei de um concurso no Conservatório Brasileiro de Música, e com nove anos, tirei o primeiro lugar. Estudei com dona Liddy Schiafarelli Mignone, esposa de Francisco Mignone, até a idade de 13 anos. Foi quando o jazz me chamou. E eu atendi ao apelo.



- Que é que você fez?


- Eu? Passei cinco anos e meio sem freqüentar um só concerto, sem ouvir uma música clássica, e tocando muito jazz em todos os momentos livres que tinha. Esse foi justamente o tempo das grandes “jam sessions” que Carlinhos e Jorge Guinle organizavam, onde se reuniam todos os amantes do jazz. Ah, eram memoráveis essas “jam sessions”, eram memoráveis. Ao lado disso tudo, eu continuava a estudar no Santo Inácio e a me preparar para seguir a carreira diplomática.



- Como você voltou à música clássica?


- Foi do modo mais inesperado. Fui assistir a um filme como outro qualquer – e esse filme mudou toda minha vida. Nele tocavam o segundo o “Segundo Concerto de Rachmaninov, fiquei maravilhado. A vontade de tocá-lo com que eu procurasse um professor e começasse a ler de novo música, porque até isso eu já não sabia mais Estudei com Dona Lúcia Branco, fui ao Estados Unidos estudar, voltei para cá e decidi que o piano era muito difícil e que eu deveria voltar-me ao estudo para a carreira diplomática. Essa resolução só durou seis meses. Voltei a Nova York onde estudei com um grande pianista americano, William Kapell. Depois fui a Viena, tive um período de estudos com Bruno Seidlhofer, de onde saí para competir no Concurso Internacional de Genebra, naquela época o concurso mais importante da Europa. E para minha surpresa – surpresa mesmo- tirei o primeiro lugar entre os 114 concorrentes. Esse concurso era anual, mas o primeiro prêmio já havia cinco anos que não era concedido a ninguém. Aí vi que estava perdido (ri), não havia como espaçar, eu tinha que seguir a carreira de pianista.




- E seu primeiro contrato?




- Foi com a Filarmônica de Londres, seguido de muitos outros justamente provocados pela curiosidade daquele rapaz de Aracati, Ceará, que tirava um prêmio há cinco anos não concedido.




- E no Brasil?



- O meu “début” no Brasil foi em 19 de junho de 1954. Eu era completamente desconhecido, a não ser com a propaganda prévia do concurso. Foi uma das grandes emoções da minha vida esse contato com o público do Rio de janeiro, minha terra adotiva. Esse público tem sido de uma fidelidade excepcional: adoro tocar no Rio de Janeiro.



- E em seguida?


- Em seguida... Já toquei em vinte e cinco países, já passei da casa de mil concertos, já toquei com as grandes orquestras do mundo, com a Filarmônica de Berlim, de Nova York, de Londres, Nacional de Paris, Sta. Cecília de Roma, para citar algumas. Já toquei com os mais famosos regentes e faço anualmente temporadas de quatro a cinco meses no estrangeiro, com extensas “tournées” de concertos. É um pouco fora de meu estilo falar aos jornais brasileiros sobre os concertos que dou, os regentes com quem toco ou as críticas elogiosas ou menos elogiosas que recebo nas minhas atuações no exterior.



- Quem descobriu o artista em você?





- O tempo.





- Com que idade você foi considerado, e se considerou, pronto para tocar em público?



- Só depois do concurso de Genebra. Antes eu nunca dera um concerto na minha vida. Lembro-me muito bem da minha ansiedade na noite anterior à minha primeira apresentação no concurso, pois representava a primeira vez em que eu pisava no palco. Ai! Minha Nossa Senhora, que momentos aqueles.




- Você ainda fica nervoso antes de entrar no palco?




- Não. Posso dizer que sou uma pessoa 97% calma antes de entrar no palco. Os outros 3% vão cor conta do imponderável.





- Em que países você sentiu uma audiência mais quente, mais receptiva?




- Gosto imensamente de tocar em Viena, em Roma, em Londres, no Rio de Janeiro. Adoro tocar em Israel, sob a regência de Isaac Karabtchevsky. Toquei também na África do Sul com muita alegria.




- Que compositores são os seus preferidos?




- Beethoven, Mozart, Schubert, Chopin.





- E Bach?




- Demais... Mas para mim Bach é tão alto que estou esperando o momento de me aproximar dele.




- Quando o programa exige que você toque músicas que não são de sua preferência, como é que você faz para senti-las?


- Esse caso não acontece. Porque sou sempre eu a ouvir os programas de concertos para as várias sociedades e elas escolhem dentro do material enviado. Uma vez somente aconteceu que, para ingressar no ciclo de solistas internacionais de Konzerthaus, de Viena, fui obrigado a estudar uma peça para piano e orquestra que não me agradava em absoluto. Depois do concerto, durante a ceia com amigos, queimei solenemente a música: e nunca mais.



- Qual é a sensação de tocar sozinho e tocar com a orquestra sinfônica?



- A de tocar sozinho é de maior liberdade e, eventualmente, maior facilidade de concentração. A de tocar na orquestra eu diria que produz o entusiasmo da colaboração de muitos outros músicos e de uma completação sonora infinitivamente mais rica.




- Qual foi a sua maior emoção na carreira de pianista?


- A pergunta é difícil. Eu digo que a maior emoção que tive foi durante o segundo movimento do “Imperador”, de Beethoven, que executei com a Filarmônica de Berlim. O som e a beleza que a orquestra produzia era algo de indescritível. Isso como emoção. E um dos maiores estusiasmos de que me recordo foi o meu “début” em Nova Yorque, com a Filarmônica daquela cidade sob a regência de Eleazar de Carvalho, quando executei o terceiro concerto de Rachmaninov no Carnegie Hall, lotado, com a presença de Chostakowitch, Kabalevski e outros grandes compositores russos.


- Sua educação musical interferiu com sua cultura geral? Quero dizer, você é capaz de gostar de um quadro de pintura excelente ou de ler um livro e captar sua mensagem?



- Eu diria que não interferiu em nada, muito pelo contrário. Sempre sentia necessidade de apreciar as grandes obras de arte, e a literatura foi sempre, ao lado da música, uma grande paixão.




- Nunca lhe aconteceu uma falha de memória ao tocar?




- Com a graça de Deus, até hoje nunca me aconteceu. Mas como dizem no Ceará, isso acontece nas melhores famílias. E não estou livre dessa hipótese.




- Quantas horas você continua a estudar por dia?




- Estudo, em média, de quatro a cinco horas diárias. Mas toco outras horas mais. Estudar é uma coisa, tocar é diferente.




- Se você não fosse o pianista que é, que forma de arte o atrairia?





- Certamente a literatura.



- Quais foram as críticas que mais lhe agradaram? Que mais tocaram no seu ponto ou pontos fortes?




- Depois de mais de mil concertos, a quantidade de críticas é tal que é difícil responder a essa pergunta.




- Quais são os seus projetos para breve e para mais longe?



- Os meus projetos por hora são quatro meses de férias que não tiro desde 1954. Neste período vou aprender vários concertos de Mozart e Debussy. Depois reiniciarei a atividade de concertista, inicialmente na África do Sul, na comemoração do bicentenário do nascimento de Beethoven. Em seguida, para a Europa, numa extensa “tournée”.




- Depois de um concerto você se sente exaurido por ter dado tanto de si?




- Exaurido por ter dado tanto de mim, e feliz e ansioso para receber dos outros.





- Você tem algum “hobby”, alguma coisa fora da música que você gosta de fazer?





- Bater papo.




- Você aceita alunos?



- Só tenho três alunos aos quais me dedico. Infelizmente, não tenho tempo para mais. No entanto, dou anualmente um curso no Conservatório Brasileiro de Música, curso público assistido por muita gente.



Despedimo-nos, certos de que nos encontraremos para um bate-papo.

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Entrevistas Anteriores ( I ), ( II ), ( III ), ( IV ).

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Exibições: 245

Comentário de Elianne Diz- Laura Diz em 19 abril 2009 às 23:43
Maravilha! adoro estas entrevistas. Tão bom saber como o músico se sente diante da orquestra, bom saber a historinha dos Guinle- qdo li o novo livro do chico lembrei da decadência da família Guinle.
Obrigada, Laura
Comentário de Helô em 20 abril 2009 às 0:44
Laurinha querida
Um dos meus arrependimentos foi ter jogado fora alguns programas de concertos. No ano em que foi inaugurado o Centro Cultural Pró-Música de Juiz de Fora (cerca de 30 anos atrás), a programação foi coberta de estrelas e Jacques Klein fez parte da constelação. Vibrei com aquele maravilhoso concerto e lembro-me ainda da emoção ao conseguir o autógrafo do artista. Pena ele ter vivido tão pouco, pois era um grande pianista. Que bom você ter resgatado esta entrevista tão linda.
Beijos. Helô.
Comentário de Laura Macedo em 20 abril 2009 às 1:01
Laura, eu também adoro entrevistas, principalmente as ligadas a minha área de pesquisa, que é a musical.
Na próxima semana encerrraremos a série :((( Pois é, no livro "Clarice Lispector - Entrevistas", só tem seis entrevistas na área musical. Na área da Literatura são dezesseis; na áera das Artes Cênicas são seis; nas Artes Plásticas são onze e nos Esportes são três entrevistas.

Gosto muito das histórias de bastidores, os famosos "causos" :))))))
Beijos.
Comentário de Laura Macedo em 20 abril 2009 às 1:09
Helô, que maravilha você ter assistido ao concerto do Jacques Klein, aí em Juiz de Fora, e ainda ter conseguido o autógrafo.
Eu também, as vezes, me arrependo de ter jogado alguma coisa fora...Mas haja espaço para guardar tanta coisa...
Saudades.
Comentário de Cafu em 20 abril 2009 às 19:40
O Brasil é farto de ótimos pianistas. Jacques Klein foi um deles. Quase não conheço música clássica, mas tinha disco dele lá em casa.
Não sabia que ele era cearense. Pelo visto os cearenses são talentosos com as mãos: muitos chefes de cozinha e sushimen...e um grande pianista.
Beijos.
Comentário de luzete em 6 agosto 2011 às 21:42

laura,

vi sua chamada no facebook e achei esta maravilha aqui.

ó, procê:

 

Comentário de Laura Macedo em 6 agosto 2011 às 22:11

Sem palavras, amiga Luzete. MARAVILHA.

Grata por mais esta relíquia.

Beijos.

Comentário de herbenia leite cruz rufino em 7 agosto 2011 às 11:47
parabéns ... minha amiga p\ seus otimos trabalhos, bjos, herbênia cruz rufino.

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