Clarice Lispector - Entrevistas Musicais (VI) - Encerrando a Série

Com a VI edição das Entrevistas Musicais de Clarice Lispector, encerramos hoje a série com o compositor, cantor e escritor Chico Buarque ou Xico Buark.




Compositor de clássicos da música popular brasileira como “A banda”, “Olhos nos olhos”, “Construção...


Autor das peças de teatro “Roda viva”, “Calabar” e ‘Ópera do Malandro”, tem se dedicado também a literatura. Publicou “Estorvo”, “Benjamin”, “Budapeste” e acaba de lançar “Leite derramado”.




Esta grafia, Xico Buark, foi inventada por Millôr Fernandes, numa noite no Antônio’s. Gostei como quando brincava com palavras de crianças. Quanto ao Chico, apenas sorriu um sorriso duplo: um por achar engraçado, outro mecânico e tristonho de quem foi aniquilado pela fama. Se Xico Buark não combina com a figura pura e um pouco melancólica de Chico, combina com a qualidade que ele tem de deixar os outros o chamarem e lê vir, com a capacidade que tem de sorrir conservando muitas vezes os olhos verdes abertos e sem riso.
Ele não é de modo algum um garoto, mas se existisse no reino animal um bicho pensativo e belo e sempre jovem que se chamasse Garoto, Francisco Buarque de Holanda seria da raça montanhesa dos garotos.

Marcamos encontro às quatro horas porque às cinco Chico tinha uma lição de música com Vilma Graça. Há um ano está estudando teoria musical e agora começará com o piano. Estávamos os dois na minha casa e a conversa transcorreu sem desentendimentos, com uma paz de quem enfim volta da rua.



- Você viveu ainda tão pouco que talvez seja prematuro perguntar-lhe se você teve algum momento decisivo na vida e qual foi?



- Eu sou ruim para responder. Na verdade tive muitos momentos decisivos, mas creio que ainda sou moço demais para saber se eram de fato decisivos esses momentos. No final de contas não sei se eles contaram ou não.



- Tenho a impressão que você nasceu com a estrela na testa: tudo lhe correu fácil e natural como um riacho de roça. Estou certa se para você não é muito laborioso criar?


- E não é. Porque às vezes estou procurando criar alguma coisa e durmo pensando nisso, acordo pensando nisso – e nada. Em geral eu canso e desisto. No outro dia a coisa estoura e qualquer pessoa pensaria que era gratuita, nascida naquele momento. Mas essa explosão vem do trabalho anterior inconsciente e aparentemente negativo. E como é seu trabalho?



- Vem às vezes em nebulosa sem que eu possa caracterizá-lo de algum modo. Também como você, passo dias ou até anos, meu Deus, esperando. E, quando chega, já vem em forma de inspiração. Eu só trabalho em forma de inspiração.



- Até aí eu entendo, Clarice. Mas a mim, quando a música ou a letra vêm, parece muito mais fácil de concretizar porque é uma coisa pequena. Tenho impressão de que se me desse idéia de construir uma sinfonia ou um romance, a coisa ia se despedaçar antes de estar completa.



- Mas Chico, aí é que entra o sofrimento do artista: despedaça-se tudo e a gente pensa que a inspiração que passou nunca mais há de vir.




- Se você tem uma idéia para um romance, você sempre pode reduzi-lo a um conto?



- Não é bem assim, mas, se eu falar mais, a entrevistada fica sendo eu. Você, apesar de rapaz que veio de uma grande cidade e de uma família erudita, dá a impressão que se deslumbrou, deslumbrando os outros com sua fala particular. O que quero dizer é que você, ao ter crescido e adquirido maior maturidade, deslumbrou-se com as próprias capacidades, entrou numa roda-viva e ainda não pôs os pés no chão. Que é que você acha: já se habituou ao sucesso.


- Tenho cara de bobo porque minhas reações são muito lentas, mas sou um vivo. Só que pôr os pés no chão no sentido prático me atrapalha um pouco. Tenho, por exemplo, uma pessoa que me explica um contrato e não consigo prestar atenção em certas coisas. O sucesso faz parte dessas coisas exteriores que não contribuem nada para mim. A gente tem a vaidade da gente, a gente se alegra, mas isso não é importante. Importante é aquele sofrimento com que a gente procura buscar e achar. Hoje, por exemplo, acordei com um sentimento de vazio danado porque ontem terminei um trabalho.




- Eu também me sinto perdida depois que acabo um trabalho mais sério.




- Tenho uma inveja: meu trabalho de música está exposto a um consumo rápido e eu praticamente não tenho o direito de ficar pensando numa idéia muito tempo.





- Talvez você ainda mude. Como é que Villa-Lobos criava? Seria interessante para você saber.



- Sei alguma coisa. Por exemplo, uma frase dele que Tom Jobim me contou: diz que Villa-Lobos estava um dia trabalhando na casa dele e havia uma balbúrdia danada em volta. Então o tom perguntou: como é, maestro, isso não atrapalha? Ele respondeu: o ouvido de fora não tem nada a ver com o ouvido de dentro. É isso que invejo nele. Gostaria muito de não ter prazo para entrega das músicas, e não fazer sucesso: você gostaria, por exemplo, de sair para a rua e começar a dar autógrafo no meio da rua mesmo?



- Detestaria, Chico. Eu não tenho, nem de longe, o sucesso que você tem, mas mesmo o pequeno que eu tenho às vezes me perturba o ouvido interno.




- Então estamos quites



- Todas as mães com filhas em idade de casar consentiriam que casassem com você. De onde vem esse ar de bom rapaz? Acho, pessoalmente, que vem da bondade misturada com bom-humor, melancolia e honestidade. Você também tem o ar de quem é facilmente enganado: é verdade que você é crédulo, ou está de olhos abertos para os charlatões?



- Não é que eu seja crédulo, sou é muito preguiçoso.





- O que é que você sentiu quando o maestro Karabtchevsky dirigiu “A Banda” no Teatro Municipal?



- Claro que gostei, mas o que me interessa mesmo é criar. A intenção de Karabtchevsky foi das melhores, inclusive corajosa. Eu quero ver ainda a coisa se repetir com outros compositores populares.




- Você foi precoce em outras manifestações da vida? Fale sem modéstia.




- Não, tudo que fiz como garoto é de algum modo ligado com o que eu faço hoje, isto é, versinhos.




- Você quer fazer um versinho agora mesmo? Para você não se sentir vigiado, esperarei na copa até você me chamar.

Chico riu, eu saí, esperei uns minutos até ele me chamar e ambos lemos sorrindo:

Como Clarice pedisse
Um versinho que eu não disse
Me dei mal
Ficou lá dentro esperando
Mas deixou seu olho olhando
Com cara de Juízo Final.

- A banda lembra música de nossos avós cantarem: tem um ar saudoso e gostoso de se abrir um livro grosso e encontrar dentro uma flor seca guardada exatamente para durar. De onde você tirou essa modinha tão brasileira? Qual a fonte de inspiração?



- Não sei não, é uma coisa difícil de conscientizar. Lembro da banda mesmo não tendo vivido no interior, mas atrás da minha casa tinha um terreno baldio onde às vezes havia circo, parque de diversões, essas coisas.



- Vi você na primeira passeata pela liberdade dos estudantes. Que é que você pensa dos estudantes do mundo e do Brasil em particular?


- No mundo é para mim difícil falar, mas aqui no Brasil eu sinto em todos os setores um apodrecimento e a impossibilidade de substituição senão por mentalidade completamente jovens e ainda inatingidas por essa podridão. Aqui no Brasil só vejo esta liderança. Um rapaz do “New York Times” entrevistou-me e perguntou: está bem, vocês não querem censura nem repressão nem os métodos arcaicos de educação: mas se vocês ganharem, quem vai substituir as autoridades? Por incrível que pareça, o mundo político está envolvido por essa decadência e acomodação. E você? Eu também te vi na passeata.


- Fui pelos mesmos motivos que você. Mudando de assunto, Chico, você já experimentou sentir-se em solidão? Ou sua vida tem sido sempre esse brilho tão justificado? Chico, um conselho para você: fique de vez em quando sozinho, senão você será submergido. Até o amor excessivo dos outros pode submergir uma pessoa.




- Também acho e sempre que posso faço a minha retirada.




- Na música chamada clássica, apesar dela englobar compositores aos quais o classicismo não poderia ser aplicado, nessa música o que você prefere?




- Aí não é questão de preferência, é costume para mim. Tenho sempre à mão um Beethoven.




- Sua família preferia que você seguisse a vocação de outros talentos seus que em aparência, pelo menos, são mais asseguradores de um futuro estável?



- No começo sim. Logo que entrei para a arquitetura, quando comecei a trocar a régua “T” pelo violão, a coisa parecia vagabundagem. Agora (sorri) acho que já se conformaram.





- Você está compondo agora alguma coisa e com letra sua mesma? Sua letra é linda.




- Estou na fase de procura. Ontem acabei um trabalho que era só de música, que exigia prazo. Para uma canção nova, eu estou sempre disponível.





- No domínio da música popular, quem seria por sua vez o seu ídolo?




- Muitos, e é por isso que é difícil citar.





- Seu pai é um grande pai. Quem mais na sua família eu chamaria de grande, se conhecesse?




- Minha mãe, apesar de ter um metro e cinqüenta e poucos de altura.Eu li muito e papai sempre me estimulava nesse sentido.






- Qual é a coisa mais importante do mundo?





- Trabalho e amor.





- Qual é a coisa mais importante para você, como indivíduo?




- A liberdade para trabalhar e amar.





- O que é o amor?




- Não sei definir, e você?





- Nem eu.



**********









MINHA HOMENAGEM A CLARICE LISPECTOR e a...







... vocês, Sônia Nascimento, Laura Diniz, Helô, Gregório, Elizabeth Abud (sem foto) e Cafu pelas excelentes intervenções, via comentários. E a todos que, mesmo sem deixar o registro da sua opinião, leram essa série: Clarice Lispector - Entrevistas Musicais. Grata a todos. Valeu, mesmo!!








Medalha de ouro para minha amiga CAFU que marcou presença em todas as Edições da Série :))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))


**********

Entrevistas Anteriores ( I ), ( II ), ( III ), ( IV ), ( V )

**********

Exibições: 627

Comentário de Helô em 26 abril 2009 às 23:47
Clap, clap clap!
Fechou com chave de ouro, Laurinha. Que colírio! Nem precisava ser tão inteligente, hahahaha. Brincadeira. A inteligência e a sensibilidade do Chico o tornam mais sedutor e interessante.
Quanto à medalha de ouro, sabe o que eu acho?
ELA MERECE! ELA MERECE!
Beijos a todas.
Comentário de luzete em 27 abril 2009 às 0:47
Laura, cheguei no final e me apaixonei.
vou tomar a lição desde a primeira aula, tenha a certeza.
bom ter gente como vcs.
Comentário de Elianne Diz- Laura Diz em 27 abril 2009 às 12:10
Menina, eu estou chorando de emoção.
Que coisa mais bonita estes dois juntos. A troca, o olhar para o outro.
Nem sei o que dizer.
Obrigada por nos trazer estas entrevistas e esta fechou com chave de ouro.
E amo os dois.
bj Elianne- Laura
Qdo estou emocionada não consigo fingir ser a Laura, preciso ser eu mesma-Elianne
Vou colocar link pra cá no meu blog:
www.lauravive.blogspot.com
Comentário de Cafu em 27 abril 2009 às 13:17


Quem merece medalha de ouro pelas ótimas perguntas e entrevistas é a Clarice !!! O desenho é de minha querida amiga Gabriela Brioschi.


Quanto ao Chico, sou macaca de auditório. Qualquer depoimento seria suspeito. Ai ai. Hahaha.

...e quem merece o prêmio hors concours é você, Laurinha, por compartilhar generosamente conosco essas entrevistas maravilhosas. Sei que você deve ter tido um trabalhão em digitar tudo, escolher as imagens, montar os retratinhos de perguntas e respostas. Parabéns pelo capricho! Ficamos mais ricos e felizes graças a você e a seu trabalho. Como diz o "nosso" Chico: amor, trabalho e liberdade, as coisas mais importantes do mundo!
Gracias e besos.
Comentário de Elianne Diz- Laura Diz em 27 abril 2009 às 13:46
Cafu, lindo retrato de Clarice.
Vcs acreditam que alguém foi no me ublog, do blogspot e disse: "Pare de citar Clarice..." se quiserem ver o que a figura disse está aqui.
http://lauravive.blogspot.com/2009/04/um-desabafo.html
Fiquei p da vida, cito quem eu quiser, ora bolas! o espaço é meu... :)
e, Clarice, até que cito pouco, não ouso, gosto demais porque me identifico com a tristeza dela, infelizmente, sou melancólica como ela, tenho uma solidão em mim...Estou lendo pela primeira vez "Perto do coração..." e fico impressionada porque ela tinha 17 anos qdo escreveu! ou 19? impressionante!
Enfim, já falei demais.
Boa semana p vcs.
Bjs p Laurinha e Cafu,
Elianne-Laura
Comentário de Laura Macedo em 28 abril 2009 às 1:16
Helô, Luzete, Elianne e Cafu.

Assim como vocês, também, sou fanzona da Clarice e como disse e ilustrou super bem (quase morro de tanto gargalhar :)))))))))))))) ) nossa amiga Cafu, somos macacas de auditório do Chico.
Já sair de Teresina à Fortaleza, exclusivamente para assitir seu show, e fui sozinha já que Gregório estava impossibilitado.

Cafu, adoramos seu presente. Belo desenho, sua amiga está de parabéns!

Luzete, que bom que você chegou e se apaixonou!

Laura/Elianne, acho super legal você não esconder suas emoções!

Helô, o nosso Chico vai ser sempre um colírio, em todos os sentidos. UAU!!

Beijos.
Comentário de Gregório Macedo em 28 abril 2009 às 4:35
Que série! Ouro do começo ao fim.
Beijos.
Comentário de Vera Moreira em 21 junho 2013 às 14:28

Muito bom!!!!

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2019   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço