Climério Ferreira - Dia Nacional da Poesia (2011)

 

Poeta, compositor, professor - Climério Ferreira -, piauiense de Angical (1943), migrou para Brasília dezenove anos depois juntamente com os irmãos Clodo e Clésio (esse último falecido recentemente).

 
Climério (E), Clésio (C) e Clodo (D)

Publicou vários livros, entre os quais, Memórias do Bar do Pedro e Outras Canções, Canto do Retiro, A Gente e a Pantasma da Gente, Essa Gente, Artesanato Existencial e Pretéritas Canções – um Livro só de Letras.

Compôs com grandes nomes da MPB como Ednardo, Dominguinhos, Naeno, Antonio Adolfo, Júlio Medeiros... Tem músicas gravadas por Tim Maia, Dominguinhos, Elba Ramalho, Amelinha, Nara Leão, Fagner e tantos outros.

Gravou vários LPs com os irmãos e o CD-solo Canção do Amor Tranqüilo.

 

Aos 68 anos suas veias artísticas pulsam com a mesma intensidade e emoção em tudo que realiza. E é a sua veia poética que vamos destacar em homenagem ao Dia Nacional da Poesia (14 de março).

 

Confiram a poética de Climério Ferreira.



Nada como um livro
Nada como um bom livro
Seja de prosa ou poesia
Um livro aberto é um dia
Um sol ardente de um dia
Que se derrama da página
E a claridade irradia...


 

A arte de criar dia e noite


Construir a noite é fácil demais
Basta juntar sonhos e pesadelos
E deixar-se embriagar por luares
Desembaraça estrelas por luares
Tecendo distantes constelações
Nos nada azuis do firmamento imóvel
Até que as distâncias unifiquem os tons
Parindo do escuro a negritude móvel

Mais complicado é inventar o dia
Tem-se que ser operário da luz
Colher claridade do claro que se irradia
E bordar da luz do sol pontos cruz



Pra Que Cinema 



Pra que cinema
Se tenho belo horizonte
E a casa dela defronte
Pra se eu quiser namorar

Pra que cinema
Se ela é minha amante
Tem um riso cativante
E aquela luz no olhar

Pra que cinema
Se vez em quando ela chora
Faz drama, não vai embora
Aqui não é Casablanca

Pra que cinema
Se a emoção me devora
Quando a malvada demora
Ou vai embora ou se tranca

Pra que cinema
Se seus cabelos ao vento
Tomam todo enquadramento
Que me permite a visão

Pra que cinema
Se o cenário é segredo
Se ela é todo enredo
É toda luz, toda ação

Pra que cinema
Se a projeção já vem dela
E é mais forte que a tela
Que brilha na escuridão

Pra que cinema
Se ela é tão colorida
Tão alegre e divertida
Sem o defeito do grão

 

 

 

NA FENDA DO TEMPO

Quem me acena de um trem que não há?
Ou manda beijos em cartas não escritas?
Quem pensará se existi quando nascer?
Eu serei para sempre essa lacuna temporal



Tudo que mora em mim

 

Muito de mim foi ficando
Nos sonhos de cada idade
Fui outro tanto deixando
Pelas ruas da cidade
Muito morri por amor
Até sofri de verdade
E o que de mim foi sobrando
Dei de gastar em saudade

Tudo que em mim habita
Fui transformando em poesia
Uma pessoa bonita
A eternidade de um dia
Ou uma cidade antiga
Uma roça se chovia
Às vezes palavra amiga
Ou um gesto de alegria

De uma manhã de agonia
Ou então da tarde calma
Ou de uma noite vadia
Fui construindo minh’alma
Do que me sobrou da vida
Eu fui compondo a canção
Que simples e comovida
Embala meu coração

Sendo assim sou e serei
O que de mim sobrou
Não sou capacho nem rei
Nem palhaço sonhador
Sou o que a vida oferece
E o que invento e componho
O meu destino tece
Na tessitura de um sonho

 

 

 DESELEGÂNCIA

 

 








BUSQUE A POESIA

 

Contemplar com prazer
Ser expectador da vida e das coisas
Eis uma das muitas definições do gosto
Dá até para saber que a vida às vezes é de morte
Faça então uma canção
Um cantochão, um canto-céu
Opere uma ópera em silêncio
Deixe que a tristeza se arraste pelas ruas das metrópoles
Recolha-se às sombras dos edifícios
Busque a poesia onde não há
Contemplar com prazer
Ser inocente da vida e das coisas
Eis a leveza de uma asa em pleno vôo
A vida – no tempo – é mais que um talho, um corte
Faça um verso então
Um verso preso, um verso livre
Grite aquele grito em silêncio
Deixe que a alegria povoe os povoados
Recolha-se ao sol desses desertos
Busque a poesia onde haverá


PARABÉNS A TODOS QUE SE DEDICAM A POESIA. COMO BEM DIZ CLIMÉRIO FERREIRA: “BUSQUE A POESIA”... E EU ACRESCENTO: “ELA” NOS TORNA MAIS HUMANOS EM TODOS OS SENTIDOS...

 

 

 

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Fonte: Climério Ferreira Weblog 

 

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Exibições: 475

Comentário de Gregório Macedo em 15 março 2011 às 0:31

Uma beleza.

Fiz uma chamada para este post no http://domacedo.blogspot.com/ . Não pela importância do blog (rs), mas pelo fato de que piauiense é pra lá de bairrista. (Por sinal, brilhante a sua ideia de a cada ano louvar um poeta piauiense).

Beijos.

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