COMO CONHECI A FOME

Nasci em São Paulo, Capital. Passei minha infância em bairro nobre, Jardim Paulista. Meu pai publicitário tinha condições de dar o suficiente sem grandes gastos, o que era comum em uma cidade de imigrantes e descendentes dos mesmos. Comecei a trabalhar com catorze anos, como a grande parte de meus amigos, alguns ainda tenho contato. Trabalhava em Multinacional, estudava a noite, uma vida programada e sem incidentes. 
Na região onde vivia não havia fome, começava o fluxo DE Imigrantes na Capital, apareceu o absurdo pau-de-arara, mas, este não atingia a parte nobre. Quando muito os trabalhadores de outros estados alocados nas construções que começavam a aparecer. Mesmo amontoados nos depósitos de material de construção dos edifícios que se erguiam; onde dormiam, faziam sua comida e ali viviam, despertavam minha atenção, porém os olhava sem entender nada.
Foi assim até que entrei em Medicina em Marília. Uma cidade bonita, é até hoje, com uma lavoura pujante, uma cidade muito agradável.
Logo no primeiro ano da faculdade, o Departamento de Medicina Preventiva resolveu fazer um mapeamento da periferia e, aproveitando o ensejo nos colocou a campo para conhecer a futura clientela. Saímos em grupos de seis alunos para aplicar os questionários.
Duas residências marcaram estas visitas. Na primeira, uma casa muito humilde de madeira com dispensa praticamente vazia, uma lata de azeite Galo se destacava, mostrava uma degeneração social e uma tentativa triste de uma posição já perdida. 
Na outra o choque foi pior. Uma senhora passiva, malvestida nos informou que o seu filho tinha falecido há dois dias. Não havia nenhum sinal de luto, apenas a falta quase absoluta de viveres e uma porção de crianças e adultos vegetando numa casa de madeira em péssimo estado de conservação. Indagada sobre o luto, a mesma falou sem mostrar sentimentos, nem de dor, nem de revolta, que agora era bom e havia um anjinho para olhar por eles lá do céu.
No quarto ano, já nos primeiros contatos com doentes, na disciplina de propedêutica saltava aos olhos a fome e a desnutrição dos pacientes oriundos da zona rural, muito pobres fora das grandes fazendas. Algumas crianças lembravam as crianças desnutridas de zonas de conflito, apenas pele e osso com os olhos estalados e sem reação a manipulação.
Em 1975 comecei a trabalhar no Departamento de Medicina Preventiva, coincidindo com a grande geada que assolou a região e a maioria dos pequenos proprietários perdeu tudo, inclusive a terra, tomada pelo financiamento da lavoura.
Na época estava vigorando o fornecimento de leite, desde o nascimento até os dois anos de idade. A criança era pesada, o leite fornecido e orientava a mãe como preparar corretamente; no mês seguinte no retorno onde se aferia o ganho de peso, existe um padrão mais ou menos uniforme na infância e era fornecido mais alimento. Foi uma decepção, as crianças voltavam sem ganho de peso, muitas vezes desnutrida ou com infecções intestinais ou pneumonia. 
De início, frustrado, culpei as mães, até conseguir entender que haviam crianças de mais de dois anos e a mãe não ia alimentar um e deixar o outro definhando. Este leite era ou diluído, ou quando a mãe conseguia comprar farináceos, muito mais baratos, “engrossava” o liquido e alimentava duas ou três crianças, logico, inadequadamente.
Na mesma época, fui convidado para o Corpo Clinico da Santa Casa, como incentivo assumi a responsabilidade pelos doentes do Funrural. O salário era ridículo, perto de duzentos dólares e a responsabilidade de na ausência de especialista atender todos os doentes não assistidos. Nesta época não havia equipes de especialidades, as poucas que existiam era incipiente, e cada medico cuidava de seus doentes, não havendo médicos de Plantão. Atendia todas ocorrências de pediatria a geriatria. 
Foi aí que conheci a miséria, os boias-frias, muitos antigos sitiantes que perderam suas terras e uma população que trabalhava nômade nas colheitas. Esta população corria de Minas Gerais até o Paraná, trabalhando aonde tinha serviço, toda família se deslocava. Muitas vezes dormiam ao relento no meio das carreiras de café onde estendiam lonas. Eram contratados pelos “gatos” locadores de mão de obra que fornecia barracos para moradia ou, ao relento como já falei.
Os que se alojavam eram transportados na carroceria de caminhões, sem cobertura ou qualquer proteção e com acidentes frequentes.
A miséria era visível e palpável, o descaso a dignidade humana era patente. Os problemas sociais eram diários no ambulatório, a fome, desnutrição e doenças infecciosas se destacavam. Para piorar cada acidente levava ao ambulatório muitos doentes acidentados, graves e não tínhamos retaguarda suficiente para tantas pessoas necessitadas de uma só vez.
Com a melhora do ambulatório, e com o parco ganho da especialidade, Clínica Médica, resolvi voltar a São Paulo. A crise estava instalada no País e o desemprego era gigantesco. Estávamos no Governo FHC. Fui atender no período da tarde na Cohab Artur Alvim os doentes de tuberculose. 
Uma nova realidade, além da população desempregada, morando várias famílias em um apartamento popular, com só um empregado ou o pai e a mãe aposentado. Um novo problema se destacou, os imigrantes bolivianos. 
Estas pessoas, trabalhavam em tecelagem, moravam em aposentos coletivos com toda família, homens, mulheres e crianças, tinham apenas um turno para “usar” as camas que rodiziavam e tinham medo de serem deportados. O ambiente não humano favorecia a tuberculose e, o tratamento para poder ser efetuado, anotávamos apenas o nome e idade do paciente, sem endereço e sem saber os que usavam os aposentos comuns. Se insistíssemos em saber mais detalhes eles desapareciam dado o medo de serem identificados. As condições de moradia só foram conseguidas com muito tato e confiança. 
Precariamente, sem o mapeamento dos comunicantes da enfermidade, fornecíamos a medicação sabendo que o problema não estava sendo resolvido. Findo o contrato, não houve renovação e me retirei.
No Governo Lula, atendendo em Bertioga já havia uma organização melhor, a fome não mais se destacava, os doentes estavam com dentes tratados, roupas arrumadas, mais confiantes e com uma melhoria real de suas condições. O País saíra do Mapa da Fome.
Hoje com o desastre da administração pública que é contrária a qualquer programa social a fome voltou. Como já sou septuagenário não verei a repetição da degradação, mas temo que ela venha acontecer.

09/07/17
Tony-poeta

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