6/abril/ 1985
Casado três vezes, fala da aptidão para a vida a dois.
"Bode velho que sou, de vez em quando ainda proponho casamento a quem passa pela minha janela."
O escrito acima é o trecho de uma carta enviada por J D Salinger ao amigo Michael Mitchel, pintor e autor da primeira capa de “Catcher in the Rye”(O Apanhador no Campo de Centeio) e que eu “extrai” da matéria que a Agencia Estado publica hoje sobre a correspondência de J D enviada entre 1951 e 1993 ao vizinho em Cornish, cidadezinha onde Salinger passou a vida recluso..
Li Salinger pela primeira vez aos 15 anos de idade. O livro me foi emprestado por uma prima, dois anos mais moça e a quem respeito como cabeça feita até hoje. Fiquei fascinado pelo texto, que me falava de coisas próximas numa linguagem completamente crua e também jovem, revelando a mim que eu não era o único a estar em conflito com a autoridade constituída na pessoa coletiva de meus pais, na minha visão mais repressores que o necessário.
Passava por uma crise ao descobrir e rejeitar o assédio sexual de homens, representados nas pessoas de um professor e de um padre no colégio em que eu estudava. Sofria pelo bloqueio de contar aos pais os fatos e só trocava informações com outros colegas- vítimas, junto com os quais formávamos um conjunto de defesas contra as histórias, assédios e propostas completamente abjetas. E Salinger tratava desses e de outros assuntos os quais eu ia vendo que eram “normais” entre pessoas a quem eu julgava contemporâneas e da mesma idade. E ele apresentava respostas, as vezes não muito ortodoxas, para a problemática que se anunciava.
Hoje, Salinger figura na minha estante imaginária com seus títulos, pois como sempre acontece, “alguém” me fez o favor de roubar “ o Apanhador” e mais alguma coisa que eu tinha dele. Ele está no mesmo pé que David ª Axelrod(“Missa em Fá Menor para grupo de Rock”) e William Russo(“Concerto para BluesBand e Orquestra”) na minha formação intelectual. Os dois últimos foram aqueles que me mostraram que a música erudita não precisava ser tão careta como a ópera que meu tio, casado com a irmã de minha mãe, nos obrigava a ouvir todo domingo. Ele adorava e nós detestávamos. Esses dois eu tenho até hoje, em vinil e meio gastos pelo atrito. Nunca emprestei para que não tivessem o mesmo destino dos livros de J D Salinger.

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Comentário de Stella Maris em 7 abril 2010 às 12:39
Bonito relato.

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