Folheando o antológico livro “Sambistas e Chorões”, de Lúcio Rangel, me deparei com as “confissões” de Noel Rosa.

Neste ano de 2010 – quando se comemora o Centenário do nosso querido poeta da Vila -, não resisti a tentação de revelá-las, tal como encontram-se no referido livro, agrupadas por temas: INFÂNCIA; A ESTREIA; O VIOLÃO E AS SERESTAS; O CRIADOR; SABOR DO ÊXITO; NO RÁDIO; EXCURSÃO E NOVAS COMPOSIÇÕES; O MAIOR SUCESSO; OUTRAS MELODIAS; MEU SAMBA FAVORITO; DO SAMBA RASGADO; UM IRMÃO.

Para o post não ficar ‘pesado’ vou dividi-lo em quatro partes, publicados em dias seguidos. A previsão de publicação será nos dias: 5, 6, 7 e 8 de maio/2010.


“São de um velho recorte de jornal, que encontro no meu arquivo, as ‘Confissões’ de Noel Rosa que passo a transcrever: Talvez tenham sido escritas pelo próprio punho do sambista, - talvez fossem ditadas a algum jornalista. De qualquer modo, trazem cunho de autenticidade, estão bem de acordo com o que dizia a amigos nos velhos tempos dos cafés Nice e Chave de Ouro”.


INFÂNCIA

“Mesmo em guri, a minha grande fascinação era a música. Qualquer espécie de música. Fosse qual fosse. E amava os instrumentos musicais, sentido-me sonhar ante a melodia. Canções de simples amas-secas, ninando crianças; coisas sem nexo, brotadas da inspiração musical improvisada; ou o canto dos pássaros, de pardais, de cigarras; ou até mesmo a rude música urbana, com os rumores desconcertantes dos bondes, carroças, pregões, - tudo isso me encantava”.


A ESTREIA


“Eu não pensava em ser general, nem presidente da República. Que valia o próprio fastídio dos reis, dos soberanos absolutos, diante do encanto comunicativo dos criadores do ritmo? Eu também não sonhava com ópera. Queria mesmo a música popular, ou seja, a música do povo inteiro, música generosa, música acessível a todos, que a todos embriaga, que vai de alma em alma comunicando uma mesma e religiosa emoção. Mas eu queria tocar um instrumento qualquer. E foi o bandolim a primeira coisa que toquei. E que toquei com alma, com unção, no desejo ingênuo de sublimar os sons todos que se desprendiam do instrumento. Sim, estreei com o bandolim.



Eu tocava bandolim horas esquecidas, em um encantamento progressivo. Nada me parecia mais belo; nada parecia exprimir uma doçura mais penetrante. Era um instrumento encantado, de que eu arrancava, com meus dedos inexpertos, efeitos maravilhosos. Eu me embevecia como se nas cordas do bandolim cantasse, de fato, o meu sonho de menino.

Foi graças ao bandolim que eu experimentei, pela primeira vez, a sensação de importância. Tocava e logo se reunia, ao redor de mim, maravilhados com minha habilidade, os guris de minhas relações. A menina ao lado cravava em mim uns olhos rasgados de assombro. Então eu me sentia completamente importante. Ao bandolim confiava, sem reservas, os meus desencantos e sonhos de garoto que começava a espiar a vida”.

CONTINUA...



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Fonte: Sambistas e Chorões: aspectos e figuras da música popular brasileira, de Lúcio Rangel. São Paulo: Francisco Alves, 1962. (Contrastes e Confrontos, 6).

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Comentário de moacir oliveira em 6 maio 2010 às 11:22
Se Noel fosse um jardim,seu versos seriam Rosas.

Moacir
Comentário de Laura Macedo em 6 maio 2010 às 20:55
Que frase linda, Moacir!
Beijos.
Comentário de Cafu em 6 maio 2010 às 21:00
Sempre bom lembrar de Noel, conhecer um pouquinho mais de Noel, ouvir muito Noel...


Conversa de Botequim (Noel Rosa – Vadico) # Raphael Rabello e Dino 7 Cordas



Com que Roupa (Noel Rosa) # Gilberto Gil



Cem mil réis (Noel Rosa – Vadico) # Chico Buarque e Luíza Buarque

Gracias e beijos.
Comentário de Laura Macedo em 7 maio 2010 às 15:33
Cafu,
Assino embaixo do seu comentário.
Infinitas gracias por trazer pra cá as composições de Noel.
Eu não sabia que o Chico Buarque tinha gravado "Cem mil réis", com a filha. Maravilha!
Super beijo.
Comentário de Cafu em 7 maio 2010 às 22:21


É desse CD, Laurinha. Obra prima concebida e produzida por Almir Chediak. Tinha 3 volumes de songbooks do Noel também. Já passei para minha audioteca. Amanhã coloco mais um pouco nos outros posts.
Beijos.
Comentário de Laura Macedo em 8 maio 2010 às 1:43
Cafu,
A "cabeça-de-vento" da sua amiga aprontou mais uma, kkkkkkk
Vendo a capa do songbook do Noel lembrei que temos aqui em casa, comprado por Gregório há décadas (como ele mesmo está me dizendo agora). kkkkkkk
Valeu, minha amiga.
Beijos.
Comentário de Cafu em 8 maio 2010 às 19:25
É muita coisa pra lembrar, pra guardar, pra ouvir, pra fazer. Haja cachola. Hahaha.
Fico feliz por vocês resgatarem essa lindeza.
Beijos.
Comentário de Gregório Macedo em 9 maio 2010 às 3:20
Deixei pra ler só agora, que o conjunto está completo. Primeira incursão de Noel ao céu, nas asas de um bandolim. Vou já para a parte 2!
Beijos.
Comentário de Laura Macedo em 8 dezembro 2010 às 20:45
Eita maratona, Gregório.
Beijos.

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