O VIOLÃO E AS SERESTAS



- “Comecei a estudar violão sentindo vagamente que ele daria a mim maior importância. Verifiquei que era um instrumento mais completo, de maior beleza comunicativa que o bandolim. O meu sonho absorvente passou a ser o de dominar o violão. Tanto me esforcei que, no fim de certo tempo, já tocava melodias várias.

Ouvir o violão era como se ouvisse a mim mesmo, como se ouvisse a voz do próprio coração, o lirismo que nasceu comigo. Com o violão, veio o período maravilhoso das serenatas. Nem todos conhecem, e poucos podem imaginar, uma noite passada em claro, pelas ruas, à luz das estrelas e à sugestão da música. É uma emoção doce, envolvente, profunda.

Eu não conhecia, ainda, a serenata. E quando realizei a primeira, a minha sensação foi poderosa. Já a noite ia alta. Mas muita gente despertava e vinha olhar-nos, através das vidraças. Eu me sentia estranhamente feliz, e acentuava a unção que feria as cordas sonoras. Com a melodia que espalhávamos – eu, Nássara, Alegria, Canuto, Clóvis e outros – a minha impressão era de que se tornava mais intensa a palpitação longínqua das estrelas”.


O CRIADOR


“Eu via os criadores de melodias. E tinha inveja deles, da precisão que plasmavam, através do samba, todas as emoções e sonhos. Por que não faria eu o mesmo? Por que não teria como eles, o poder divino de me exprimir pela música? De expandir a minha dor num canto? Até então eu não pensara nunca medir meu poder criador. Seria apto para a criação? Mas era preciso ao menos tentar. Foi o que fiz. Motivos não faltavam, e sendo que variadíssimos. Motivos líricos ou irônicos, doces e pungentes.





Uma noite, sentei-me a uma mesa para compor. Que emoção esquisita a minha! Mas a criação não era tão difícil assim. Fiz uma toada: Festa no Céu, que dediquei ao bairro onde nasci, ou seja, Vila Isabel. Concluída a composição, cantei-a para mim somente. Depois para os parentes e amigos. Todos gostaram. Havia emoção – disseram-me; havia originalidade. Fiquei alegre, sentindo um feliz alvoroço dentro de mim.

Com a realização da primeira melodia, pareceu-me que meu futuro se tornava mais claro, mais animador; e que eu não estava muito longe da popularidade, da fama e, da síntese, da glória.

O que eu objetivava, era ver a minha música difundida por toda a cidade, propagada pelas mais diferentes vozes, florecendo dos assobios anônimos, dos pianos dos bairros, das vitrolas. Imaginava o meu prestígio quando as minhas produções obtivessem essa projeção. Eu estaria nas festas, e as meninas me apontariam: ‘Aquele é o Noel!’. No bonde, alguém, do banco de trás, diria: ‘Olha o Noel!’.


“Festa no Céu” (toada), de Noel Rosa, com o próprio e seu conjunto. PARLOPHON (13.185A) – agosto/1930.





‘Festa no Céu’ foi composta em 1930. No mesmo ano, fiz a embolada: ‘Minha Viola!’ Aprendera a ter confiança em mim, no meu poder de estilização, nos meus recursos rítmicos. Já com duas composições, que os amigos mais chegados achavam ótimas, vibrantes, cheias de verdadeiros humor, eu passei a visar a gravação. A minha glória só seria definitiva depois que músicas minhas fossem perpetuadas em discos. Não tardou que eu realizasse esse meu desejo. Tanto ‘Festa no Céu’, como ‘Minha Viola!’, foram gravadas no mesmo ano”.


Minha Viola” (embolada), de Noel Rosa, com o próprio e seu conjunto. PARLOPHON (13.185B) – agosto/1930





SABOR DO ÊXITO



- “Mesmo depois do sucesso de ‘Festa no Céu’ e ‘Minha Viola!’, eu não conhecia o sucesso, quer dizer, o sucesso legítimo, absorvente, rumoroso, sensacional. Eu tinha um objetivo, ou seja, o objetivo de conquistar, de golpe, com uma única melodia, o coração das ruas a alma da cidade.

Queria que meus ritmos dominassem, que eletrizassem os músculos, que influíssem decisivamente no movimento das multidões. Mas para isso era imprescindível uma música ao sabor de todas as sensibilidades e cujo ritmo se integrasse, naturalmente, à construção física do carioca. Então eu fiz ‘Vou para Vila’, sempre em homenagem ao meu bairro, o bairro de que não me separei e que é uma pequenina pátria minha, um pedaço da terra que sempre procuro exalar.

‘Eu vou para a Vila’ tinha um estribilho assim:

Não tenho medo de bamba,

na roda do samba
eu sou bacharel,
andando pela batucada
onde eu vi gente danada
foi lá em Vila Isabel


‘Eu vou pra Vila’, (samba) de Noel, com Almirante e Bando Tangarás. PARLOPHON (13.256B) – janeiro/1931.




‘Eu vou para a Vila’ constituiu meu primeiro grande êxito. Toda a cidade cantou a melodia; toda a cidade aprendeu-lhe o ritmo. Às vezes, eu vinha para casa, alta hora da noite. Nem viva alma. Só a emoção das estrelas no alto. De repente, lá, numa esquina qualquer, desembocava um vulto. Assobiava. Era ‘Eu vou para a Vila’. Eu me sentia feliz. Tinha entrado no coração da cidade; compreendia a sensibilidade carioca; sabia comunicar-me com o povo. E esse meu destino de criador de ritmos parecia-me o destino ideal”.

CONTINUA...


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Fonte: Sambistas e Chorões; aspectos e figuras da música popular brasileira, de Lúcio Rangel. São Paulo: Francisco Alves, 1962. (Contrastes e Confrontos, 6).

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Exibições: 245

Comentário de BLOG DAS IGUARIAS - em 7 maio 2010 às 2:05
Acabei de chegar do Bairro de Vila Izabel, aqui no RJ. Esse post maravilhoso, me lembrou que Noel, sempre inesquecível. Bjs
Comentário de moacir oliveira em 7 maio 2010 às 11:49
Beleza,tenho este livro é uma raridade.
Bjão
Comentário de Laura Macedo em 7 maio 2010 às 15:27
Carmen,
O nosso poeta maior de Vila Isabel é inesquecível, mesmo!

Moacir,
O Lúcio Rangel é uma das figuras que considero super importante para a MPB. A "Revista da Música Popular" editada por ele no período de 1954 / 1956 é uma inesgotável fonte de pesquisa na área. Tenho a coleção completa em fac-símile, editada pela FUNARTE, em 2006.

Super beijo aos dois.
Comentário de Gilberto Cruvinel em 7 maio 2010 às 21:06
Olá Laura,

Estou adorando a série sobre Noel. Além do livro citado e da Revista de Musica Popular, você
tem consultado também a biografia do Noel escrita pelo João Máximo e Carlos Didier?
Comentário de Laura Macedo em 7 maio 2010 às 22:12
Gilberto,
Não possuo o livro "Noel Rosa: uma biografia (Brasília:UnB, 1990), de João Máximo e Carlos Didier. Bem que tentei adquiri no mês passado, mas o preço um tanto salgado (R$ 350,00) me assutou. E olhe que no site, "estante virtual" (onde sempre compro), só consta esse caro e único exemplar. Que falta faz uma concorrência! :))

Não sei se você está acompanhando a "Coleção Folha Raízes da Música Popular Brasileira". O primeiro número é dedicado, justamente, ao Noel Rosa com texto do João Máximo, que por sinal está muito bom.

O Jorge Caldeira no seu livro "A Construção do Samba" incluiu a biografia "Noel Rosa, de costas para o mar", que sempre consulto.

Ah! Muita música amanhã no final da série. :))
Beijos.
Comentário de Gilberto Cruvinel em 8 maio 2010 às 2:16
Sabe Laura, faz três dias, surgiu no Estante Virtual a Biografia do Noel de João Máximo por R$ 180,00. Quando vi, pensei, vou comprar, na volta do almoço, entro e compro. Quando voltei,
cadê?
E tudo isso sabe porque? Porque os herdeiros de Noel, que nem de longe tem o talento que ele
teve, estão querendo uma quantia para lá de Bagdá, para autorizar nova edição.
Eh Brasil.

Beijo Laura
Sua série está da pontinha!
Comentário de Cafu em 8 maio 2010 às 19:52
Agora vou ter que rebolar e variar. Vou de Divina que não sou boba...:)))



Último desejo (Noel Rosa) # Elizeth Cardoso



Três Apitos (Noel Rosa) # Elizeth Cardoso



Até amanhã (Noel Rosa) # Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim e Zimbo Trio
Comentário de Gregório Macedo em 9 maio 2010 às 3:40
Eta, Cafuzinha arretada! E eu, que acabei de fazer companhia ao Noel no meio da noite, digo, da madrugada, ouvindo um assobio ao longe, de Eu vou pra Vila, vou agora pra parte 3!

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