Crime no mar - Paulo Moreira Leite.

Eles podem distorcer os fatos quanto quiserem. Nós somos civis e eles são militares. Isso foi assassinato.”

Ouvido pelo repórter Marcelo Ninio, da Folha de S. Paulo, o depoimento acima define com clareza possível o que ocorreu na madrugada de ontem, quando militares israelenses atacaram e dominaram uma frota de embarcações que pretendia levar ajuda humanitária a população de Gaza, mantida sob um regime de bloqueio há seis anos.

O Exército de Israel diz que seus homens foram vítimas de militantes armados mas até agora a melhor descrição do arsenal inimigo informa que ele é composto de dois revolveres, algumas facas, pedras e pedaços de pau. O saldo em vidas humanas é eloquente. Entre as 700 civis presentes no maior dos navios que se dirigia ao território palestino, ocorreram 9 mortes e algumas dezenas de feridos. Entre os israelenses, ficou um ferido grave. É uma proporção semelhante aos ataques de Gaza, há pouco mais de dois anos, quando 2 000 palestinos foram mortos — e o número de vítimas israelenses não passou de uma dezena.

O discurso do governo israelense para tentar justificar a ação não é novo. Diz que o país tem o direito de defender-se — embora a frota sob ataque estivesse em águas internacionais. Foi um ataque sem proporção diante da capacidade de resistência daqueles cidadãos que Israel definiu como ameaça a sua segurança.

A ação humanitária visava levar 10 000 toneladas de bens de primeira necessidade para uma população mantida sob um regime de cativeiro economico a que a diplomacia dá o nome de bloqueio. Nada entra nem sái do território de Gaza sem aprovação de Israel.

A explicação é que se tenta impedir o contrabando de armas e auxílio ao terrorismo. Gaza é governada pelo Hamas, grupo armado que prega a destruição do Estado de Israel por todos os meios mas essa explicação não dá conta de uma situação muito mais complexa e contraditória.

A realidade é que depois dos ataques aéreos a economia local foi arruinada, a agricultura não consegue produzir por falta de equipamentos e 80% da população sobrevive de ajuda humanitária — ou esmola, para usar um termo politicamente incorreto. Não há água para uso diário. Também falta material de construção para reerguer edifícios destruídos durante os bombardeios.

Colocado no universo de hoje, o ataque à frota que pretendia levar ajuda humanitária a população de Gaza tem um efeito político conhecido. Não só deixa claro que Israel não tem a menor disposição para fazer concessões à população palestina — nem para a prestação de socorro — mas mantém uma política de desprezo pelas convenções internacionais sempre que elas podem prejudicar seus interesses.

Todo calouro dos cursos de história sabe que intervenções desse tipo estimulam e reações violentas do outro lado.

Ninguém precisa apoiar ações armadas nem métodos terroristas. São ações que matam inocentes e criam tragédias sem necessidade.

Não custa lembrar, porém, que na civilizada Europa dos anos 40, por exemplo, cidadãos franceses produziram ataques armados enquanto seu país foi ocupado pelas tropas do regime nazista que promoveu o Holocausto onde morreram 6 milhões de judeus.

É claro que o ataque da madrugada de segunda-feira, em Gaza, irá dar novo fôlego ao Hamas e elevar a tensão no Oriente Médio. Novos ataques virão. Novas mortes também.

Aliado de Israel, Barack Obama será, mais uma vez, colocado contra a parede. Sua paralisia irá aumentar até porque seu governo tem uma forte presença de aliados políticos de Israel.

Seria muita ingenuidade imaginar que essa nova configuração não tenha feito parte dos cálculos de quem preparou e ordenou o ataque à frota humanitária.

Enquanto for incapaz de reconhecer os direitos dos palestinos a ter seu Estado, como determinava a resolução da ONU que dividiu a região há mais de meio século, Israel tentará submeter a população local pela violência.

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Comentário de Stella Maris em 5 junho 2010 às 17:48
Cabocla, se Israel esá se defendendo de frotas humanitárias e ataca assim com esta FÚRIA toda, imagine amiga quando ele tiver que se DEFENDER realmente de um inimigo... será a 3° guera mundial... bjs.
Comentário de Stella Maris em 5 junho 2010 às 18:11
digo guerra( rssr) mas que haja PAZ. kikiki
Comentário de Cabocla em 5 junho 2010 às 18:14
Comentário de BLOG DAS IGUARIAS - em 6 junho 2010 às 3:51
Eles precisam de Muita , mas , muita paz.
Essa configuração , sequer constou dos planos de quem deu a ordem . De pleno acordo com você.
Bjs e Bom domingo
Comentário de Cabocla em 6 junho 2010 às 3:58
vixe, fui eu quem escrevi não - antes fosse...
edito quie edito e não sai o link...
tento aqui:

http://colunas.epoca.globo.com/paulomoreiraleite/2010/06/01/crime-n...

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