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Crônica de Drummond sobre a Banda de Chico Buarque

ANO DE 1966.
ANOS DE CHUMBO.
ANO DO II FESTIVAL DE MÚSICA POPULAR BRASILEIRA DA TV RECORD.

Disputa acirradíssima pelo prêmio de melhor música entre "Disparada", de Geraldo Vandré e Teófilo Barros Neto, defendida por Jair Rodrigues, acompanhado pelo Trio Marayá e pelo Quarteto Novo, e "A Banda", de Chico Buarque, defendida pelo próprio e também pela musa da bossa nova, Nara Leão, acompanhada por uma bandinha de verdade.

Na noite da finalíssima o Teatro Record, com capacidade para 500 espectadores, ficou pequeno para abrigar as acirradas torcidas dos "bandidos" e dos "disparados".

Resultado: Empate, para alívio da coordenação do Festival que temia a reação da torcida perdedora, pois afinal uma festa daquela magnitude, mostrada pela TV, não poderia terminar em confusão.

Foi Chico Buarque quem sugeriu o empate entre as duas canções, apesar do resultado ter sido sete a cinco favorável "A Banda". Segundo Wagner Homem, o sigilo foi mantido por quase quatro décadas, ficando os votos guardados num cofre, a sete chaves, na casa do pequisador e escritor Zuza Homem de Mello, que só revelou os números no seu livro, "A Era dos Festivais - Uma Parábola". Ainda segundo o autor citado, Chico jamais fez qualquer comentário sobre o epísodio.

"A Banda" foi um enorme sucesso. Muitos foram os elogios recebidos, com destaque para nosso poeta maior, Carlos Drummond de Andrade, que dedicou-lhe uma crônica, publicada no "Correio da Manhã", a qual transcrevo abaixo.





"O jeito no momento é ver a banda passar, cantando coisa de amor. Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.


A ordem, meus manos e desconhecidos meus, é abrir a janela, abrir não, escancará-la, é subir ao terraço como fez o velho que era fraco mais subiu assim mesmo, é correr à rua no rastro da meninada, e ver e ouvir a banda que passa. Viva a música, viva o sopro de amor que a música e a banda vêm trazendo, Chico Buarque de Holanda à frente, e que restaura em nós hipotecados palácios em ruínas, jardins pisoteados, cisternas secas, compensando-nos da confiança perdida nos homens e suas promessas, da perda dos sonhos que o desamor puiu e fixou, e que são agora como o paletó roído de traça, a pele escarificada de onde fugiu a beleza, o pó no ar, a falta de ar.




A felicidade geral com que foi recebida essa banda tão simples, tão brasileira e tão antiga na sua tradição lírica, que um rapaz de pouco mais de vinte anos botou na rua, alvoroçando novos e velhos, dá bem a ideia de como andávamos precisando de amor. Pois a banda não vem entoando marchas militares, nem a festejar com uma pirâmide de camélias e discursos as conquistas da violência. Esta banda é de amor, prefere rasgar corações, na receita do sábio maestro Anacleto de Medeiros, fazendo penetrar neles o fogo que arde sem se ver, o contentamento descontente, a dor que desatina sem doer, abrindo a ferida que dói e não se sente, como explicou um velho e imortal especialista português nessas matérias cordiais.


Meu partido está tomado. Não da Arena nem do MDB, sou desse partido congregacional e superior às classificações de emergência, que encontra na banda o remédio, a angra, o roteiro, a solução. Ele não obedece a cálculos da conveniência momentânea, não admite cassações nem acomodações para evitá-las, e principalmente não é um partido, mas o desejo, a vontade de compreender pelo amor, e de amar pela compreensão.



Se a banda sozinha faz a cidade toda se enfeitar e provoca até o aparecimento da lua cheia no céu confuso e soturno, crivado de signos ameaçadores, é porque há uma beleza generosa e solidária na banda, há uma indicação clara para todos os que têm responsabilidade de mandar e os que são mandados, os que estão contando dinheiro e os que não o têm para contar e muito menos para gastar, os espertos e os zangados, os vingativos e os ressentidos, os ambiciosos e todos, mas todos os etcéteras que eu poderia alinhar aqui se dispusesse da página inteira.

Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las, distribuí-las, começando por querer que elas floreçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área de nossa vida particular: abrangem terreno infinito, nas relações humanas, no país como entidade social carente de amor, no universo-mundo onde a voz do Papa soa como uma trompa longíngua, chamando o velho fraco, a moça feia, o homem sério, o faroleiro... todos os que viram a banda passar, e por uns minutos se sentiram melhores. E se o que era doce acabou, depois que a banda passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicar a alma da gente".


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Eu não conhecia essa fantástica crônica do nosso poeta maior, Carlos Drummond de Andrade, e faço questão de deixar registrada a minha eterna admiração pela totalidade de sua obra , em especial por essa crônica, que apesar de ter sido escrita ha 43 anos, continua atualíssima. E ao Chico Buarque que nos presenteou com "A Banda" e tantas outras pérolas do cancioneiro brasileiro, incorporadas à nossa alma de forma visceral.

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II Festival de Música Popular Brasileira / TV Record / 1966.

 

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Fonte: Histórias de Canções: Chico Buarque, de Wagner Homem. São Paulo: Leya, 2009.

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Exibições: 3083

Comentário de Anarquista Lúcida em 9 novembro 2009 às 0:35
Belo texto, bela canção e tantas saudades... (da juventude, nao daqueles tempos...)
Comentário de Laura Macedo em 9 novembro 2009 às 1:20
Lena e Ana Lu,
A dobradinha Drummond X Chico é sempre estimulante... e nos remete, no meu caso e da Ana Lu, ao augue da nossa juventude... Já no caso da Lena, a juventude é agora :))))
Beijos.
Comentário de Anarquista Lúcida em 9 novembro 2009 às 1:36
Eu lembro tanto daquele Festival. Estava no Vestibular. Metade da minha turma torcia para A Banda, a outra para a Disparada...
Comentário de Solange Teixeira da Cunha em 12 novembro 2009 às 1:44
Laura, vc anda me fazendo reviver.
Velhas emoções, com Rafael, e agora Deus, Chico e Drumomd, meus "amores" , minha alegria vivida, que revive lendo vc ... meus "amores" do meu velho coração. Pessoas assim, não é preciso conhecer pessoalmente, a alma, conhece e reconhece. Não perco um romance do Chico, nem um show... sempre no Canecão, Laura, as mocinhas, 15 anos, gritando lindo, cantando junto, gritando SEX... ele do microfone diz .. " Eu não, sou avô "...
Laura, hj vim aqui... para te apresentar um cantor novo, que anda fazendo sucesso nos
bares de Miterói... um novo presente do NOVO.
Beijos, agradecidos ...

Beijos
Comentário de Cafu em 14 novembro 2009 às 15:24
Que beleza de crônica! Também não conhecia.
No sábado passada, o Clube do Choro apresentou um show com artistas de Brasília cujo tema era a Era dos Festivais. A primeira música que eles cantaram foi A Banda. Que delícia ouvir tantas canções inesquecíveis, que fazem parte do repertório afetivo e da trilha sonora de nossas vidas, reunidas no mesmo palco e tão bem apresentadas.
Chico, Drummond e A Banda juntos é muito bom!
Beijos.
Comentário de Marcelo D Kosienski em 16 novembro 2009 às 21:38
A gente acha que dessa história da Banda versus Disparada já tinha visto e lido e ouvido tudo.. e de repente vem essa coisa maravilhosa de encher os olhos de lágrimas... Lindo mesmo, demais!
Comentário de Laura Macedo em 17 novembro 2009 às 0:00
Marcelo,
As "Artes", em geral, tocam bastante minha sensibilidade, especialmente a "Música". Aí quando junta Chico Buarque e Carlos Drummond, não há como resistir...
Grata pelo comentário.
Beijos.

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