CRÔNICAS OPERÍSTICAS: SEMPRE A MESMA COISA!

É sempre a mesma coisa: todo começo de ano chegam as programações dos grandes teatros ou sociedades de cultura. Vemos uma infinidade de artistas de renome internacional, no auge da carreira, com a voz tinindo de boa. Fico animado, não posso viajar ao estrangeiro, é a oportunidade de assistir ao vivo uma voz única, excepcional. Tenho DVDs desses caras, sei o que eles podem fazer, mas a decepção é sempre a mesma.
Artistas de bobos não têm nada. Para faturar uma bolada por aqui sem muito esforço ficam nos concertos ou recitais. Cobram caro, exigem passagens e hotéis de primeira, pianista prórpio. Na hora de soltar o vozeirão se refugiam em poucas árias, geralmente trechos fáceis de óperas ou músicas populares. Mesmo assim eles não precisam se desgastar muito para agradar ao público tupiniquim. Entre uma música e outra colocam outro solista (geralmente cantores medíocres lá fora, mortadela com pão francês que eles vendem como salmão defumado) para dar uma força, ou enxertam solos de piano ou orquestra na apresentação.
Tivemos José Carreras a preços exorbitantes, teremos Jennifer Larmore e Anna Caterina Antonacci. Algum deles vai cantar uma ópera completa? Tire o cavalo da chuva amigo, claro que não! Isso exige muito ensaio e ainda tem que ficar no palco horas se esgoelando. Farão recitais ou concertos, acompanhados de algum solista desconhecido. Escolherão músicas fáceis, muitas delas assoviáveis. Sua sogra vai adorar, você será o melhor genro do mundo. Verifique o programa abaixo da Jennifer Larmore, quatro árias e uma participação em uma sinfonia de Bernstein. Que moleza.
Os solistas que desembarcam por estas bandas têm uma certeza: serão aplaudidos. Sabem que o brasileiro os recebe de braços abertos. Tiram muitas fotos, dão entrevistas elogiando a alegria do povo, falam bem da comida e da receptividade das pessoas. Cantar sequer aparece como prioridade. Podem cantar mal, cair do palco, desafinar, quebrar notas ou estar numa péssima noite. O público sempre se levanta, aplaude de pé, ovaciona. Bravo! Bravo! O cachê está garantido.
Sonhei com a Jennifer Larmore cantando Carmen de Bizet no Theatro Municipal de São Paulo, com a Antonacci interpretando Medea de Cherubini no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Acordei lembrando que moro em São Paulo, não em Milão. Lá o nível é mais alto, cantor nem se atreve a fazer isso e se cantar mal toma vaia. Sem dó e nem piedade. Até o Pavarotti teve seus apupos, quebrou uma nota e já era.
Contentamo-nos com pouco, aplaudimos tudo e somos complacentes. Em tempos de Copa do Mundo, camisa não ganha jogo; na lírica brasileira, nome consagrado é goleada certa.

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