MINHA EXPERIÊNCIA EM CUBA

Yo  soy un hombre sincero

De donde crece la palma

Antes de morir me quiero

Hechar mis versus del alma.

Aguacate, em Cuba, é o nosso abacate.

Em uma pequena festa de confraternização, foram postos à mesa: doces, salgados e salada de aguacate temperada com vinagre, azeite, pimenta do reino etc.

Sentindo aquela saudade, característica do brasileiro, senti o desejo de fazer a tradicional vitamina de abacate com leite, pois, notei que ambos estavam na geladeira.

Sugeri a novidade aos cubanos presentes. Para minha surpresa, a ideia foi repugnante,uma total reprovação!

Esperei um certo tempo, fui à cozinha, às escondidas, fiz a vitamina que tanto desejava e saí tomando.

Como crianças curiosas, perguntavam o que era aquilo. Claro, não podia dizer que era aquela coisa! Disse, então, que era uma iguaria brasileira. Como gostam muito do Brasil, quiseram experimentar.

Afirmei, que como era uma raridade só poderia colocar dois dedinhos no copo. Foi um tal de pedir mais um pouquinho que prometi tentar ver se conseguia mais tarde. Dei tempo para nada desconfiarem e fiz mais. Agora, meio copo. Para aqueles que ficaram deslumbrados, copo cheio.

Dei mais tempo, para evitar vômitos, e esclareci tudo. Ficaram surpresos!
Quem está curioso, hoje, sou eu. Será que a vitamina de abacate se espalhou em Havana?

Minha experiência:

Dizem que a paixão é cega. Essa é uma frase gerada pela experiência humana. A paixão extremada pela política pode levar à cegueira dos honestos. Nesse caldo, infiltram-se os psicopatas, que se passam por igualmente apaixonados, para tirar proveito próprio. Depois que o caldo entorna, esses manipuladores saem ilesos, com seus dividendos.

Lembro-me de muitas coisas que vi nessa vida, desde os meus primeiros passos no convívio político, sem pertencer a qualquer partido.

Não sei explicar, mas, já na minha juventude; frequentador da Igreja Batista, sem nenhuma base intelectual de formação política, sendo, apenas, um jovem que sentia e via as coisas incorretas, injustas; passei, cautelosamente, como continuo comportando-me, a atuar naquele ambiente efervescente de 1963/64.

Bem, desde então, notei que conseguia observar comportamentos que me pareciam estranhos:

Alguns, todos jovens, demonstrando um comportamento precipitado, desejando alcançar mudanças, imediatamente, que, por intuição, eu sentia impossível. Lembro-me, ainda, que tive de contê-los, algumas vezes. Eram jovens honestos, com ideais nobres, porém apaixonados. Muitos, sem esse senso de observação, morreram vítimas dessa paixão cega. Outros demonstravam idêntica paixão, porém não me conseguiam transmitir confiança, pressentia algo diferente.

Alguns deles, quando cheguei à embaixada do México, levado pelo pastor, já estavam lá. Na embaixada encontrei muitas pessoas, com os mais variados perfis: Dirigentes sindicais, militares, padre, deputados, estudantes, arquiteto, engenheiros, homens e mulheres, jovens e idosos, políticos de diferentes tendências. Eram mais de 100 pessoas dormindo no chão, lado a lado.

Do recinto da embaixada primeiro vi sair um daqueles apaixonados honestos. Depois, saiu, também, um com o outro perfil.

O primeiro está na lista das vítimas, talvez por traição. O segundo fez um grande estrago e está vivo, no Brasil. A mídia escreve e comenta sobre este.

O México foi muito solidário, tanto na embaixada como lá. Porém deu para notar, logo, que era uma sociedade com muita pobreza, com muita injustiça, sofrendo os mesmos problemas que tínhamos no Brasil. Não era a sociedade imaginada por Emiliano Zapata que foi morto por traição. Meados de 1964, governo do PRI que surgiu depois da morte do Zapata e mesmo nada tendo em comum tem o R de revolução, titulando-se, às vezes, de socialista.

Em fins de 64, quase todos tomaram o destino para Cuba. Que mundo diferente! Logo, comecei a estudar o espanhol. Cheguei a frequentar a Igreja Batista, ficando surpreso com a quantidade de fiéis, homens e mulheres fardados, na hora do culto, pois, ou acabavam de chegar do treinamento das milícias ou para lá iriam, depois do sermão do pastor. Era uma época de muita expectativa! O perigo de uma invasão da ilha era constante. Quase toda população participava das milícias, voluntariamente.

Deixei de frequentar a igreja, certo tempo depois, por livre e espontânea vontade, quando notei que o pastor demonstrava sua insatisfação por não estar usufruindo de melhores sapatos e roupas que costumava trazê-los dos EUA, além da falta dos dólares que recebia antes, como ajuda da rica igreja americana. Falar em falta de liberdade não era possível, pois muitos, na igreja, eram milicianos.

Para ingressar à universidade, tive que frequentar um curso preparatório, à noite, ao lado de jovens que trabalhavam e faziam aquele curso com o objetivo de ter acesso a um curso superior. Depois de um ano e obter o resultado necessário para a matrícula, comecei o primeiro ano de engenharia elétrica.

Nas férias, voluntariamente, passei um mês cortando cana, junto com vários colegas. Trabalho duro, debaixo daquele sol escaldante da ilha. Foi uma ótima experiência, pois tive oportunidade de ouvir os elogios dos camponeses locais, quanto às grandes melhorias depois da revolução.

Porém, foi um momento para refletir em relação ao futuro de Cuba, pois notei o comportamento dúbio de alguns colegas universitários. O trabalho era voluntário, não era obrigatório, mas participavam só para marcar presença. Assim, cortavam apenas 30% do volume que eu e muitos outros conseguíamos. Demonstravam gostar da revolução, o que, também, não era obrigado, mas na prática negavam tudo.

Outro fenômeno que observei diz respeito a certos jovens que passavam pela área com mensagens de super-revolucionários, solicitando que o horário de corte fosse estendido, quando era impossível, devido ao sol muito quente. Nós que produzíamos bem fomos contra, pois, realmente, não era factível.

A revolução era plenamente aceita, mas, talvez já estivesse necessitando de uma maior participação da população e não só daquele núcleo que tomou o poder. Já começava a se formar o núcleo dos imprescindíveis.

Com certeza, quanto maior o número de atores, quanto maior a horizontalidade, mais difícil se torna tais comportamentos como os mencionados, pois mais próxima estará a fiscalização, a observação e, consequentemente, torna-se difícil o desleixe de muitos e a manipulação por poucos. Sem participação não se tem democracia!

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