Custódio Mesquita e Evaldo Rui - "Saia do Caminho"

Custódio Mesquita e Evaldo Rui

 

 

 

Para o pesquisador/jornalista João Máximo, Custódio Mesquita foi o "Tom Jobim de seu tempo", endossando uma imagem consagrada na música brasileira.

 

 

“Saia do caminho” é uma de suas principais composições, feita ao lado de seu parceiro mais constante, Evaldo Rui. Em vez da linguagem mais elaborada de outros letristas que escreviam para Custódio, como Mário Lago e Sadi Cabral, Evaldo gostava da voz das ruas, de usar palavras mais cruas. É o caso dos "trapinhos" do início de “Saia do caminho”, lançada com sucesso por Aracy de Almeida. Custódio Mesquita não conheceu o sucesso deste samba, pois faleceu em 13 de março de 1945.

 

 

 

 

Saia do caminho” (Custódio Mesquita/Evaldo Rui) # Aracy de Almeida (voz) / Lauro Araújo (piano), 1946.

 

 

 

 

 

 

 

 

“Saia do caminho”

 

 

Junte tudo que é seu,

Seu amor, seus trapinhos
Junte tudo o que é seu

E saia do meu caminho
Nada tenho de meu
Mas prefiro viver sozinha
Nosso amor já morreu
E a saudade, se existe, é minha


Fiz até um projeto

No futuro, um dia
No nosso mesmo teto
Mais uma vida abrigaria
Fracassei novamente

Pois sonhei, mas sonhei em vão
E você, francamente, decididamente
Não tem coração

 

 

 

Transcrição do relato de João Máximo.

 

 

 

 

 

Custódio Mesquita nos deixou cedo, tinha 34 anos quando morreu. Segundo os mais chegados, enfraquecido por doses abusivas de medicamento contra epilepsia. Foi grande compositor; para alguns o Tom Jobim do seu tempo: pela beleza física, pelo piano, pela modernidade e pela inventiva melódica.

 

Teve muitos parceiros, nomes ilustres da canção popular, como Mário Lago, Orestes Barbosa, Luiz Peixoto, Noel Rosa e outros colegas dos tempos que atuava como ator teatral. É o caso de Sadi Cabral nas letras de “Mulher” e “Velho realejo”.

 

 

O mais constante parceiro letrista de Custódio Mesquita foi Evaldo Rui, irmão de Haroldo Barbosa. O curioso é que os respectivos estilos nem sempre combinavam. Custódio - romântico melodioso e mais requintado; Evaldo - preferindo as expressões cruas mais próximas do homem das ruas e, mas importante, expressões jamais usadas nas ocasiões que Custódio foi seu próprio letrista. Expressões como: “sei que sou desgraçado”, ou “transformei-me em vulgar vagabundo”, ou “acompanhamos o enterro de um passado que o vento levou”, ou ainda “pois blasfemei senhor”, todas elas encontradas em melodias de Custódio Mesquita.

 

 

Como volta a acontecer com “trapinhos”, da letra de Evaldo Rui para a melodia que seu parceiro deixou inédita. O samba canção intitulava-se, “Sai do caminho” e a gravação original é de Aracy de Almeida.

 

 

 

 

 

 

 

 

Pesquisando na coleção “Nova História da Música Popular Brasileira” (Custódio Mesquita/1977) encontrei outra historinha de bastidores da música “Sai do caminho”, que é a seguinte:

 

Jorge Goulart, em 1943, no início da carreira, era pago para divulgar em cabarés e dancings as novas composições de Custódio Mesquita. Segundo ele, “Saia do caminho” nasceu de um choro e deveria ter sido registrada por ele, na RCA Victor, em 1945, por vontade do próprio Custódio, na época diretor artístico da RCA. A gravação havia sido marcada para 14 de março. Mas Custódio morreu um dia antes e a data foi adiada por tempo indeterminado.

 

Depois disso, Evaldo Rui desautorizou o disco com Jorge Goulart, rotulou a música como samba canção - gênero de muito prestígio na época - e fez diversas alterações na letra. Segundo Jorge Goulart, a letra primitiva era:

 

... viver sozinho / fico eu e o meu eu /e a saudade do seu carinho / tinha até um projeto /no futuro querida / o nosso mesmo teto / abrigaria um outra vida / fracassei...

 

 

 

No excelente livro “A Canção no tempo - 85 anos de músicas brasileiras, vol.1: 1901-1957, de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, os autores, confirmam que o samba canção - “Sai do caminho” - estava destinado por Custódio ao então iniciante cantor Jorge Goulart. “A gravação estava marcada para o dia 14 de março de 1945” - lamenta Jorge - “só não se realizando porque Custódio morreu na véspera”.

 

 

 

 

 

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Fontes:

- A Canção no Tempo - 85 Anos de Músicas Brasileiras, Vol 1: 1901-1957 / Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello. - São Paulo: Ed. 34, 1997.

- Nova História da MPB - Custódio Mesquita - Editora Abril, 1977.

- Programa de João Máximo na Rádio Batuta do IMS.

- Site YouTube.

 

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