Da miséria da cultura a miséria da classe média

Caros geonautas,

A analise é muito boa (artigo abaixo), digna de um intelectual da classe média dos anos sessenta, mas por outro lado, nos anos 50 e 60, por volta de 3/4 da população brasileira viviam no campo, meio século depois, eles estão em grande parte, amontoados nos grandes centros, favelas, favelas, favelas, e bota favelas nisso, e boa parte, pelos cálculos divulgados por instituição oficial, são considerados hoje como parte da classe média brasileira, que compra eletrodomésticos e até carro, mas continua morando na favela. Para lembrar estudo de André Singer, até o início da década passada eramos (o país) uma das maiores desigualdade do planeta, e como num passe de mágica, hoje a classe média é a maioria da população, diria o Conselheiro Acácio, me engana que eu gosto.
Pergunta: Será que a classe média (visão 60) tem ideia do que esta acontecendo com a cultura da maioria da população da periferia dos grandes centros urbanos?
Essa analise, no fundo sonha com a reprodução de um Brasil "classe média" nos moldes dos anos 50 e 60.

E por falar em Brasil, qual o nosso projeto de país mesmo?
O encilhamento do século XIX com o nascimento da República, o encilhamento de FHC e agora parece que temos o encilhamento da "Era Lula":
Como a 'Era Lula' criou o 'Rockefeller' brasileiro?
http://blogln.ning.com/profiles/blogs/como-a-era-lula-creio-o-rockf...

Sds,

Vladimir Safatle

Vladimir Safatle, EstagnaçãoA miséria da cultura

CartaCapital, 27.05.2012 09:51

Aqueles interessados na produção cultural brasileira devem ter percebido uma equação inusitada. Enquanto a última década foi marcada por um crescimento econômico real e pelo advento de uma dita nova classe média, a cultura brasileira parece em ritmo de estagnação.
Interessante notar que os momentos de crescimento econômico brasileiro foram acompanhados pela consolidação da produção cultural.

Desde Cidade de Deus, o cinema nacional parece ter se acomodado à exposição da vida social, a partir das lentes da violência espetacular

O melhor exemplo foi o boom de crescimento do fim dos anos 1950 e começo dos anos 1960. Ele foi acompanhado da maturidade de nossa melhor produção literária (Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto), pelo melhor de nossas artes visuais (Hélio Oiticica, Lygia Clark e o grupo Neoconcreto), pela bossa nova, pelas experiências teatrais de vanguarda e pelo aparecimento do cinema novo. Nada sequer parecido foi identificado nesta última década.

Não é possível colocar a conta da improdutividade em alguma espécie de espírito geral de época. Vemos vários exemplos de países que conseguiram nesses últimos anos apresentar produção cultural significativa. A Argentina e seu cinema de alta qualidade, que vem desde as produções de Lucrecia Martel, é um exemplo paradigmático. Poderíamos lembrar ainda do Chile e de sua literatura (Roberto Bolaño foi sem dúvida um dos grandes escritores do começo do século). Mesmo a China com seu crescimento tem apresentado bons artistas plásticos, além de uma impressionante quantidade de intérpretes relevantes de música erudita.

Várias são as razões que podemos levantar para esta miséria da cultura brasileira, com suas honrosas exceções. Podemos começar pensando sobre o cinema nacional. Desde Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002), o cinema nacional parece ter se acomodado à exposição da vida social, a partir das lentes da violência espetacular e da visualidade de alto impacto herdeira da estilização publicitária. Uma via coroada com Tropa de Elite e que parece expor como o desejo de constituir uma indústria do entretenimento transformou-se na essência da produção cultural nacional.

Não é sem interesse comparar essa via com aquela traçada pelo cinema argentino. A diferença entre as duas experiências não deve ser posta apenas na conta da ausência de dinheiro do cinema argentino ou do fato de seus principais diretores não terem vindo, como no Brasil, do mercado publicitário. Na verdade, está em jogo aqui a maneira com que sociedades decidem como integrar seus conflitos, os impasses de seu passado. A maneira com que a sociedade pensa a si mesma, narra para si mesma seus próprios impasses.

De fato, a avaliação da produção brasileira em setores como artes plásticas e música apenas reitera como a verdadeira preocupação nacional é a inserção do Brasil como player no mercado internacional de entretenimento e de glamour de alta comercialização. Dificilmente poderíamos descrever de outra forma produções de artistas como Beatriz Milhazes ou Vik Muniz.

No interior desse processo, o Brasil perdeu, inclusive, a capacidade de transformar sua música popular e seus músicos em debatedores preferenciais da vida sociocultural nacional. Por mais que se possa discordar das intervenções de músicos como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé ou Chico Buarque, é fato que não se espera mais de músico popular algum uma capacidade de reflexão sobre os meandros da vida nacional.

Nesse sentido, o modelo de financiamento público da cultura apenas aprofunda essa tendência. Ao transformar indiretamente os departamentos de marketing das empresas em atores que decidem sobre qual produção será financiada, instrumentos como a Lei Rouanet acabam por reforçar a tendência de vazio cultural no campo da cultura. Corre-se assim o risco de a cultura brasileira do século XXI ser lembrada pela sua bem-sucedida inserção mercantil e pela incapacidade de ser o que toda arte deve ser: a imagem daquilo que a sociedade ainda não é capaz de pensar.

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