Naquela época, eu viajava como representante de diversas empresas no ramo de papelaria e material de escritório. E viajava muito: todo o Sul de Minas e Triângulo Mineiro, Goiás, São Paulo e Paraná. E viajava tanto que já nem sei em que Estado foi que aconteceu o fato. Mas tenho certeza de que não era em Minas.

Só me lembro que cheguei em ... já de noitinha. Desci na estação da pequena cidade (ainda havia trens naquela época!) e fui para a pensão que outro caixeiro-viajante havia me indicado. Era a primeira vez que fazia aquela “praça”. Pelo adiantado da hora , já não havia muito jeito de rodar o comércio e deixei para começar a trabalhar no dia seguinte. Tomei um banho, vesti uma farpela mais no jeito, dei uma boa escovada no chapéu e nos sapatos e fui flanar na única pracinha da cidade.

Por sinal, uma cidade pequena, de gente simples e acolhedora, com uma igreja no centro da única pracinha. Como qualquer uma dessas que conhecemos por todo o interior do Brasil. Nada que chamasse a atenção. Num dos lados da praça, um pequeno cinema, já um pouco maltratado, exibia um faroeste com Randolph Scott, de uns cinco anos atrás. Sem nada para fazer, resolvi ir ao cinema. Mas, enquanto esperava a hora da única sessão, fiquei passeando no jardim da praça e olhando as mocinhas que faziam o seu “footing” (quem tiver menos de 50 anos, pergunte ao seu tio o que era o “footing”).

Andando ao léu pelas alamedas do jardim, chamou-me a atenção, bem no centro da pracinha, um monumento. Era e não era um monumento. Era apenas um pedestal. Um tronco de pirâmide interrompido a mais ou menos um metro e noventa do chão e revestido de granito não polido. Parecia que tinham costruído ali uma base para uma estátua e se esqueceram da própria.
Intrigado, circulei o monumento. Numa de suas faces havia uma placa de bronze, com os seguintes dizeres em grandes letras em relevo:

Dos cidadãos de ... àqueles que construíram nossa tão amada terra!
“Os homens que merecem estátua, não precisam dela!”
(Anônimo)
20 de julho de 1947
Cinqüentenário de ...


Fiquei encantado com aquela demonstração de civismo autêntico e sem vaidade ou demagogia. Coisa raríssima nesses brasis. Principalmente em cidades pequenas onde sempre existem duas facções políticas que querem cada qual se exibir mais com essas coisas de bustos, estátuas e fontes luminosas para eternizar o manda-chuva de plantão.

No dia seguinte, depois de visitar os clientes, parei num pequeno restaurante/bar/bilhar (o único da cidade) para tomar uma cervejinha e, tentar papear com algum nativo. Sempre digo que, se você quer dizer que conheceu uma cidade, de qualquer tamanho, em qualquer lugar no mundo, você tem que andar pela periferia, passear pelo centro e tomar uma cerveja onde bebem os locais, se possível com eles.

Pois bem, quando já estava enturmado com algumas figuras da cidade, comentei sobre o monumento no centro da praça. Agora, já conhecendo as duas grandes correntes políticas da cidade, os “rolinhas” e os “gaviões”, falei animadamente da sabedoria dos líderes dessas duas frentes. Que em vez de brigarem para colocar uma estátua del algum prócer de uma ou da outra facção, optaram por não pôr nenhuma estátua, nenhum busto, e ainda escolheram uma frase de sabedoria para avalizar a decisão.

O farmacêutco local, "Seu" Jesus, virou-se então para mim e explicou:

“- Ah! Rapaz, você não conhece isso aqui... Esse povo quase fez uma guerra civil por causa daquela estátua. O cinquentenário da emancipação da cidade estava próximo. O prefeito era 'Rolinha' mas a maioria da Câmara, inclusive o Presidente, era 'Gavião'. O prefeito mandou construir o pedestal para pôr a estátua de algum benemérito no dia do aniversário da cidade. Esta estava totalmente dividida.. Afinal, quem mereceria ter seu busto colocado no pedestal que o Prefeito tinha mandado fazer? O Cel. Amador, fundador dos “rolinhas”, que morrera há pouco? Ou o Dr. Aguiar, o “gavião” que conseguira a emancipação do Município no início da República? Enquanto se discutia de quem seria a estátua já havia 'gaviões' dispostos a quebrá-lo a marretadas e os 'rolinhas' faziam plantão de guarda na praça noite e dia. Até que chegou um viajante aqui. Assim como o senhor, veio de Minas. E, sabendo daquela querela, resolveu que aquilo não podia ficar como estava. Visitou o Prefeito é o Presidente da Cãmara. Ninguém sabe ao certo o que ele conversou com os dois. Mas ele saiu daqui com alguma missão importante, pois até seus fregueses de todas as viagens ele deixou de visitar.
Daí uma semana esse moço voltou trazendo aquela placa que o senhor viu lá. Ela ficou escondida em algum lugar até o dia em que foi instalada na base de granito. Ninguém conseguiu ver o que havia nela pois veio recoberta com um forte papel que só foi arrancado no ato da inauguração pelo Prefeito e pelo Presidente da Câmara. Os dois até pareciam amigos de longa data e não figadais inimigos. Todo satisfeito, o mineirinho foi-se embora e nunca mais apareceu por aqui. Acho que ele vive de promover a paz nas cidades do interior.”

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Comentário de Plinio Gomes Figueiredo em 13 agosto 2009 às 19:12
Texto muito bom e o conteúdo melhor ainda !
Comentário de BetemineiradeIlhéus em 15 setembro 2009 às 20:26
Uai, rolinha e gavião era em Andrelandia, não?! Com certeza o "seu" Zé Pinto está todo orgulhoso de sua história recontada por você!

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