Carta de Carlos Moura a Demétrio Magnoli



Seu artigo na no GloboUm mito de papel - chega a ser assustador. Uma desconstrução teórica, recheada de cópias dos clichês disparados pela grande imprensa. Vestido com o fraque do
academicismo e com uma profusão de desconsiderações contra Lula, o PT e a esquerda. Mas, principalmente , contra a maior parte da população brasileira. A que não lê manchetes, muito menos graduados articulistas bissextos.

Quando digo assustador é porque, a cada dia que passa – e especialmente durante esta eleição – uma avalanche de textos na mídia me exibe pessoas
que parecem habitar um país diferente do meu.

A começar pelo título. Você é outro que decidiu se apropriar da História. Sem contar a total falta de acuidade e de isenção para analisar a figura do presidente.

É muito difícil para alguns próceres da imprensa e da “alta inteligência” brasileira entender Luís Inácio. Ele não nasceu para prestar conta ao jogo de xadrez mental dos doutores. Lula é o caboclo que fala fundo, falando o raso. É um
personagem sagaz, esperto, desculturado e permanentemente humano em
acertos e erros. Um sujeito assim, assim, roseano
do sertão de Pernambuco, cabra da peste pendurado num poste que não era
para ser seu. Querer transformá-lo em mito nunca foi o mote de sua
platéia. Lula é um emblema.

Seu texto, carregado pela erudição emparedada por citações e significados, tem a arrogância típica dos escritórios. Mas, quando precisa, desce fácil à
linguagem dos bordéis, rebaixando os personagens que não lhe agradam: Dilma Rousseff, candidata a presidente, virou duas vezes a
“mulher do Lula”. O carimbo que você lhe põe é típico de sua classe,
Demétrio. Não repito arrogância para não ficar redundante. Dilma Rouseff
tem nome.

O Brasil que frequento não sai nas páginas do Globo. O Brasil tingido, escrachado, cujos coadjuvantes deveriam ser os protagonistas, só tinha lugar no tanque e na pia da cozinha. Agora entrou na sala. Este é o Brasil que admira Lula. É o da mesma raça dele: brincalhão, gaiato, zombeteiro,
carinhoso e às vezes brigão. E muito ruim de palavreado. Quando leva
uma televisão pra consertar não fala que está estragada, fala que está
“sem feição e sem proseado”. Ou seja, sem imagem e sem som. Pra entender
isso é preciso ter comido calango rosado de Minas ou pastel de posto de
gasolina em Juazeiro.

Um Brasil às vezes vaidoso que, em sua pobreza simbólica, pede um presente de aniversário. Como Lula fez.

Não exagere, Demétrio. Tem coisa pior no mundo.

Seria mais fácil, quando você simplifica a esquerda brasileira, dar logo nome às reses. Aos meus ouvidos parece que você quis dizer Niemeyer, Aldir
Blanc, Ziraldo, Eric Nepomuceno, Leonardo Boff etc. Transcrevo: “pela
vertente dos intelectuais de esquerda que renunciaram às suas convicções
básicas(...) Eles retrocederam à trincheira de um anti- americanismo
primitivo e, ecoando uma melodia tão antiga quanto anacrônica, celebram
uma imagem de um líder salvacionista que fala ao povo por cima das instituições da democracia.”

Ora, Demétrio, quantos chavões! Lula sempre foi um democrata, do chapéu às meias.

Você só deve ler os jornais das quatro famílias (por falar em família, lembrei-me de Marlon Brando). Vá na internet, descubra onde está hoje a
imprensa independente do Brasil. A única pessoa que você deu nome, ao
falar da esquerda, foi a Marilena Chauí. Rebaixando-a imediatamente a
“pós-mensalão”. Saco de pancada fácil, feito o José Dirceu. Marilena vai ser, na História, com todos os seus defeitos, uma expressão brasileira. Nítida e beligerante como sempre o foi.

Não adianta seu vaticínio, ninguém mais arranca isto dela. Sugiro: desanque o Chico Buarque. Tire a toga, Demétrio.

Você fala em jornalismo honesto e eu pergunto: qual? O que você lê e o que estampa a vinte quatro quadros por segundos qualquer farsa que lhe for conveniente? O casal da Globo vibrando diante de uma foto borrada lhe
traz mais prazer do que uma bolinha de papel quicando na cabeça de um
político que se deixou ridicularizar ao longo da campanha?

Demétrio, não importa o resultado de domingo no qual, pelo que vejo, você opta pelo Serra ou pelo voto em branco.

Importa é que você , com todos seus considerandos e finalmentes, não vai ser outro a tentar rebaixar Lula à poeira da História.

E acrescento: Lula não “urra”, Lula grita. Erudições e submissão de Lula à sua crítica – e à de milhões de brasileiros- é uma pretensão pra cair no vazio.

Eu me apresento como Carlos Torres Moura, aposentado, 62 anos, segundo grau, artigo 99. Ex-bancário. Não para me fazer de humilde ou inferior.
Só como referência. Lamento que O Globo – e a imprensa que carrega o ranço do baronato – crave no final de cada artigo uma identificação de antemão qualificatória: Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia Humana.

Já passou da hora de os brasileiros desqualificados deixarem de abaixar a cabeça por serem pedreiros, bancários, comerciários, açougueiros,
camelôs, empregadas domésticas, comerciários, pipoqueiros, entregadores
de pizza, porteiros de edifício, diaristas, comerciantes, padeiros,
frentistas, operadores de telemarketing, faxineiros, lavradores,
palhaços de circo, professores, carteiros, catadores de lixo,
biscateiros, policiais, estivadores, garçons, camareiros, bombeiros,
comerciantes, eletricistas, lanterneiros, marinheiros......

Carlos Torres Moura

Além Paraiba-MG

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