Portal Luis Nassif

DEIXOU-NOS O PROFESSOR ANTONIO BARROS DE CASTRO

Flavio Lyra. Brasília, 22 de Agosto de 2011.

O mínimo que se pode dizer de Antonio de Barros Castro, que vítima de um trágico acidente faleceu ontem, é que foi uma vida dedicada ao pensamento econômico e a formação de profissionais na área econômica.

Várias centenas de alunos passaram pelas aulas de economia que ministrou na URFJ e nos cursos da CEPAL a partir dos anos 60, em muitos recantos do país e da América Latina. O texto “Introdução à Economia”, que produziu, juntamente com Carlos Lessa, é uma obra notável pela difusão que teve e pela inovação que realizou no ensino,  no Brasil e na América Latina, ao possibilitar ao alunos uma visão sistêmica da economia.

 A partir de então, foi permitido aos alunos formarem uma visão de conjunto da realidade econômica. Anteriormente, os cursos de economia eram um amontoado de matérias, que somente com muito esforço era possível dar um sentido de conjunto. Muitos, que iniciavam os cursos de economia, desistiam no meio do caminho por não conseguirem se situar no contexto mais geral da disciplina. Era a época em que não se sabia muito bem o que realmente fazia um economista, muitas vezes confundido com um Contabilista.

Homem de excelente caráter, sempre afável e atencioso para com os amigos, professor de uma didática excelente. Destacou-se por sua visão crítica aguda da realidade econômica, que não se comprazia em aceitar facilmente as idéias de sentido comum. Estava sempre descobrindo novos ângulos e enfoques para os temas do dia-a-dia da vida econômica.

Nunca esqueço de sua imagem, até certo ponto excêntrica, nas manhãs geladas do inverno de Santiago do Chile, com um livro de economia  aberto nas mãos, ruminando idéias, ao caminhar de um lado para o outro no jardim fronteiriço de sua casa, quase que ignorando o desconforto do frio.

No Instituto Latinoamericano de Planificação, em Santiago do Chile, quantas e quantas vezes, nos sentámos no restaurante para tomar um cafezinho e trocar idéias sobre os temas de economia, com que vivia verdadeiramente obsecado. Ali, também, nos bares da Avenida Providência, nas belas tardes da primavera chilena, no início dos anos 70, ficávamos tomando uma cerveja Escudo e assistindo o desfile das belas “cocotas” chilenas.

Nos idos dos primeiros anos da década de 1960, quando Celso Furtado à frente da SUDENE despertava o Nordeste de seu profundo sono do atraso econômico, Castro sempre estava presente como professor dos cursos CEPAL/BNDES, que depois mudaram para CEPAL/SUDENE. Certa vez, ouvi da boca de Celso Furtado que Castro, como o chamávamos, era um dos talentos mais promissores na nova geração de economistas do país.

Não poderia deixar de mencionar a notável parceria, na vida matrimonial e no ensino de economia, que construiu com sua mulher Ana Célia, a quem conheceu muito jovem, como aluna de um de seus cursos.

Deixou vários textos sobre economia, especialmente artigos, que estavam sempre na vanguarda dos assuntos relevantes para a política econômica do país. Chamado pelo Presidente Itamar Franco para dirigir o BNDES, no início dos anos 90, realizou uma gestão digna dos maiores elogios.  

Caro amigo Castro, você deixa muitas saudades e uma grande lição de vida, como pai, marido, mestre e, especialmente, exemplo de dedicação diuturna às questões do desenvolvimento econômico. Reconheço-lhe o mérito de atravessar todo o período recente de abastardamento do pensamento econômico pelo neoliberalismo, sem fazer-lhe qualquer concessão.

Bom descanso, grande Castro!

Exibições: 79

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2017   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço