Por: Eliana Rezende


Em geral, o que move a escrita são inquietações e o caso específico das eleições de outubro de 2014 deixaram-me várias delas aqui dentro. 

Reflexões ainda que sob o calor da hora são inevitáveis.

Meu ponto de observação é o de uma paulistana, nascida, vivida e malcriada nesta terra e, que assiste entre perplexa e estarrecida, os resultados de urna do seu Estado a partir de seu exílio voluntário.

São Paulo é para mim uma grande incógnita e pergunto-me: o que foi que aconteceu?

Não sou nenhuma militante política, mas é impossível não pensar no grau de despolitização em que a sociedade paulistana se encontra.

Diretamente de seus sofás e diante de noticiários pasteurizados repetem o mantra que ouvem de uma imprensa que prática sem pudor a desinformação como tática.

Frases prontas, jargões, transferências de responsabilidade a outras instâncias de poder e nada mais. Seria o caso de falarmos em amnésia coletiva, opacidade intelectiva ou apenas e tão somente obtusão e burrice?

E da parte da imprensa? Blindagem partidária? Má fé?

Pergunto-me como é possível o Estado onde houve as maiores manifestações por Saúde, Educação, Transporte, Segurança, ir às urnas e (re)eleger Geraldo Alckmin como Governador, mais do mesmo há décadas!

Não era o "novo" que se pedia?!

Será mesmo que se esquecem que há mais de 20 anos no poder é responsável pela ingerência e decadência que São Paulo assiste em todos estes âmbitos de descontentamento?

Será que se esquecem que é neste Estado que foi instituída a aprovação automática levando analfabetos funcionais a acharem que estão alfabetizados?

Esquecem-se que no ensino médio, em português, apenas 26,8% dos alunos têm desempenho adequado; em matemática, o número cai para 4,8%, segundo dados do Saeb (Sistema Nacional de Avaliação de Ensino Básico) de 2012? 

E será que se esquecem dos salários pagos à classe dos professores e que por décadas faz do ensino de São Paulo um dos piores do Brasil? E que se São Paulo fosse um país, estaria na 58ª posição, abaixo de Brasil, Uruguai e Chile e acima somente de oito países, incluindo Jordânia, Argentina, Colômbia e Peru?

Será que se esquecem da truculência, a violência e a criminalidade que assolam  o estado, e que em boa parte vem dos próprios quadros da polícia estadual?

Será que se esquecem dos motins, rebeliões e ataques realizados de dentro dos presídios paulistas para espalhar terror e morte pelas periferias e áreas centrais da cidade? Presídios estes usados como filial do crime e da contravenção, com o consentimento e imobilismo do Estado?

Onde nem celulares deixam de ser utilizados?

       PCC e o crime organizado dos presídios paulistanos

Será que se esquecem que existem risíveis 74 Km de linhas de metro construídas em mais de 20 anos de governo em uma cidade que os índices de congestionamento no final do dia batem 340-380 km em alguns dias da semana?! Com uma colher de sopa, tuneis são cavados com velocidade maior em presídios!

Que os mesmos indecentes trilhos oferecidos de metro escondem atrás de si dinheiro puro de propinas e corrupção cujos cofres na Suíça estão abarrotados e cujos termos disso nem são tocados ainda que de leve pela mídia paulistana e por tabela nacional? E que boa parte do financiamento de campanhas vem exatamente destas fontes? 

E ainda se esquecem das constantes panes e problemas nas redes de trens, prejudicando a vida e a economia do milhões de pessoas nos seu direito de ir e vir, produzir?

Será que não enxergam a quantidade absurda de tráfego de caminhões nesta metrópole, onde apenas 80 mil dos 2,5 milhões de contêineres que chegam no Porto de Santos são transportados por trens?

 

                         Metrô de São Paulo

Será que se esquecem do desmantelamento da TV Cultura e da perda de grandes repórteres e grade de programas educativos bem sucedidos em nome de nada?

Será que se esquecem que a maior Universidade do país (USP), graças a imposição de um reitor pelo governo estadual conseguiu levar à cabo recursos milionários?

Será que se esquecem que o destino de implantação da USP Leste foi num terreno de lixão tóxico? 

Será que se esquecem de que o Museu Paulista USP teve de ser fechado às pressas devido a sérios problemas de deterioração causados por descuido e falta de verbas sofrido por décadas de descaso?


Esquecem-se dos desvios de verbas de dinheiro público e o consequente fechamento da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo?


E será que se esquecem das obras de saneamento e desassoreamento do Rio Tietê que nunca ocorrem, ou, como ocorreu no Governo Serra, simplesmente foi descontinuado gerando inúmeras enchentes nas épocas de chuva? O rio passa por um processo de despoluição há 22 anos. Já foram consumidos US$ 3,6 bilhões. E há alguma diferença?

Nada!


E será que se esquecem da irresponsabilidade e ingerência nos usos e recursos da água em São Paulo?

Será que se esquecem ou não sabem que somente 50% do esgoto é coletado e tratado pela Sabesp.

O restante corre livremente para os rios e mananciais, deixando-os malcheirosos e poluídos?

 

Reservatório da Cantareira - exemplo de ingerência Estatal

Mas, se não bastassem todos estes esquecimentos cristalizados em repetições cotidianas como uma normalidade e modus vivendi paulistano, temos a sagração de tudo em nomes como Celso Russomano, Tiririca, Feliciano, José Serra e Maluf para ficar como os mais votados!

Heim?

Ai, faltando-me palavras, faço minhas as de outro paulistano, José Simão, direto de sua coluna diária:

"E vendo a cara de todos que ganharam, eu pergunto: pra que teve manifestação mesmo?" 

Será que a "locomotiva paulistana"decidiu ir desgovernada a todo vapor para o passado reacionário?

Será?!

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Publicado originalmente no Blog Pensados a Tinta

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