“O homem é, evidentemente, constituído não de uma simples, mas de uma múltipla, não de uma certa, mas de uma ambígua natureza. Por conseguinte, ele deve ser colocado como um meio entre as coisas mortais e
as imortais.” Este é o período de abertura do livro de Rogério. E as
últimas são: “Termino, pois – se é que realmente termino –, repetindo a
mesma pergunta de Agostinho que evoquei logo no início do primeiro
capítulo, a saber: Trata-se de uma vida mortal ou de uma morte vital? Ou
de ambas ao mesmo tempo?...” Evidente está que não obedeci às “normas
técnicas de citação”. Isso se dá, pelo simples fato de que não estou
citando o autor. Trago aqui as suas palavras, pois entre o começo e o
fim, entre as duas pontas da vida – lembrando de Machado de Assis –, o
texto de Rogério se espraia sobre um mistério: esse enigma ao qual se
convencionou dar o nome de existência. Sua investigação esmiúça meandros
do pensamento ocidental, na busca de pistas para o equacionamento de
questões primordiais do próprio sujeito humano. Não me cabe dizer se ele
é bem sucedido ou não. Isto aqui é uma resenha, estou tentando mostrar o
que o livro traz de bom, não apresentar ao autor uma crítica a seu
pensamento, apontando-lhe os erros, os lapsos, as escorregadelas. O
próprio autor conclui com a dúvida. Não serei eu a dirimi-la.

O que pode haver de comum entre Platão, Hesíodo, Santo Agostinho, Empédocles, Nietzsche, Heráclito, Schopenhauer, Freud, Parmênides,
Hegel, Aristóteles, Tomás de Aquino e Lacan? Os filósofos diriam que
muito, mas apenas alguns deles. Outros insistiriam que nada. Eu não
escolho nem um lado nem outro da resposta. Penso apenas que, nas páginas
deste livro, desenha-se um arco que vai dos pré-socráticos até Lacan.
Com passagem por Hegel e coda que chega às fímbrias de Freud.
Para que tanto? Alguém poderia fazer essa pergunta. Eu não saberia
responder. O livro de Rogério apresenta uma possibilidade de
equacionamento para uma possível resposta. Desculpem a redundância nos
cognatos, mas ela dá bem a medida do movimento do livro em epígrafe. O
texto desliza entre considerações de cunho epistemológico sobre a
Filosofia e a Psicanálise, para, a partir da Mitologia, recolocar, com
novo frescor nas/das tintas, a imagem da dúvida eterna da existência
humana em seus princípios: vida e morte, prazer e desprazer, luto e
gozo, riso e lágrima. A lista das dicotomias, ou das dualidades, se
quiserem, é infinita.

Na mitologia grega, duas figuras se opõem: Eros, o deus grego do amor, e Tânatos, a personificação da morte. Esses dois personagens foram resgatados por diversos filósofos para explicar a
dualidade entre a morte e o desejo. No lançamento das Edições Loyola, Eros e Tânatos: a vida, a morte e o desejo,
o autor Rogério Miranda de Almeida faz uma análise profunda da obra dos
filósofos que tentaram interpretar esse “eterno conflito da construção e
da destruição, da vida e da morte, do ódio e do amor, da satisfação e
da insatisfação”. Ao resgatar o pensamento dos filósofos pré-socráticos
até Nietzsche e Freud, o autor explicita esse debate de oposição
inspirado na mitologia grega. Apelando para os physis, os
primeiros “cosmologistas” jônicos que buscam ligar a geração e a
corrupção, o amor e o ódio pela arte do diálogo. Platão tenta descolar a
angústia para o reino das ideias, pelos conceitos de vontade, de desejo
e retorno. Schopenhauer, Nietzsche e Freud procuram conectar,
articular, interpretar um universo de pulsões e forças que não cessam de
se entrelaçar e de se separar. Até Lacan é vislumbrado quando joga com a
jouissance, de “essência” estética – sentido foucaultiano do
termo – o que me leva a, página após página, nas entrelinhas do texto,
desejar a imagem da ideia de literatura, um instrumento ímpar na
representação de todo esse trajeto do pensamento.

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