Dia Nacional do Choro é sinônimo de Jacob do Bandolim

Jacob do Bandolim (Pick Bittencourt)
* 14/02/1918 - Rio de Janeiro (RJ)
† 13/08/1969 - Rio de Janeiro (RJ)

Instrumentista, compositor e pesquisador

 

 

 

Pesquisando na área musical, há quatro anos, estou sempre atenta às datas significativas relativas à área, mas nem sempre é possível contemplar a todas. Mas se existe uma que não deixo passar batida é o Dia Nacional do Choro.

 

 

Neste ano de 2012 vou repetir o título do ano passado – Dia Nacional do Choro é sinônimo de Pixinguinha - mudando o nome do chorão homenageado para Jacob do Bandolim.

 

FORMAÇÃO / CARREIRA

 

 

O fato de Jacob do Bandolim não ser oriundo de uma família musical não impossibilitou tornou-se um dos maiores bandolinistas do país.

 

 

Jacob aprendeu a tocar praticamente sozinho. Tentava repetir ao bandolim as melodias que ouvia em casa e na rua. O primeiro choro que escutou, e do qual nunca se esqueceu, chama-se "É do que há", do chorão e clarinetista Luis Americano. Isso foi aos 13 anos.

 

 

Composição de Luís Americano, gravada por Abel Ferreira no álbum “Chorando Baixinho” (1962).

 

 

 

 

 

 

"Nunca mais esqueci a impressão que me causou", afirmaria Jacob, anos mais tarde. Eu particularmente amo este chorinho.

 

 

O fato é que não se tem notícia de qualquer estudo sistemático. Sua formação foi essencialmente autodidata, até 1948, quando decidiu que precisava se aprofundar em escrita e teoria musical, e buscou a ajuda do professor e compositor Dalton Vogeler.

 

 

 

 

A necessidade de estudar tornou-se imperiosa quando Radamés Gnattali dedicou a ele a Suite "Retratos", em 1958. "Retratos" é uma peça complexa, para bandolim, regional e orquestra, na qual cada movimento homenageia um dos quatro compositores que Radamés considerava geniais e fundamentais na formação de nossa música instrumental: Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga.

Este trecho de uma carta enviada por Jacob a Radamés ilustra o tamanho do desafio. (Jacob só veio a executar "Retratos" ao vivo em 1964).

Jacob e Radamés Gnattali

 

 

"Meu caro Radamés,

Antes de 'Retratos', eu vivia reclamando: 'É preciso ensaiar...'. E a coisa ficava por aí, ensaios e mais ensaios. E se hoje existia um Jacob feito exclusivamente à custa de seu próprio esforço, de agora em diante há outro, feito por você, pelo seu estímulo, pela sua confiança e pelo talento que você nos oferece e que poucos aproveitam".

 

“Suite Retratos”: 2º Movimento - Ernesto Nazareth (Radamés Gnattali) #  arranjo de cordas de Radamés Gnattali, acompanham Jacob do Bandolim, Hildo Malaguti (baixo), Neco (violão), Rubens Bassini (pandeiro), Vidal (baixo), Waltel Branco (violão) e Zé Menezes (cavaquinho), 1967.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Muitos músicos foram importantes na vida de Jacob, a exemplo de Benedito Lacerda, Orestes Barbosa, Pixinguinha e Ernesto Nazareth. Sua admiração pelos dois últimos é traduzida nas perfeitas interpretações das composições de ambos.

Pixinguinha deu rítmica ao choro, deu graça ao choro, esta leveza do choro, esta malícia, malícia que só Pixinguinha sabe dar" (Jacob do Bandolim).


Cochichando” (Pixinguinha / Alberto Ribeiro / João de Barro) # Jacob (bandolim), Canhoto (cavaquinho), Dino 7 Cordas (violão 7 Cordas), Gilson de Freitas (pandeiro), Meira (violão) e Orlando Silveira (acordeon).

 

 

 

 

De Ernesto Nazareth, que Jacob trouxe para o universo do choro, comentou: "... para mim Nazareth constituiu, em cada compasso, uma aula de música.".

 

Em 1952, Jacob gravou quatro discos com oito músicas de Ernesto Nazareth. Segundo Henrique Cazes, “mais do que ótimos registros fonográficos, essas gravações foram responsáveis por trazer definitivamente Nazareth para a roda de choro”. Confiram nas gravações abaixo.

 

Confidências” (Ernesto Nazareth) # Jacob e seu Regional, 1952.

 

 

Faceira” (Ernesto Nazareth) # Jacob e seu Regional, 1952.

 

 

Profissionalmente, Jacob iniciou a carreira num concurso de rádio, em 1934. Depois formou um conjunto denominado Jacob e sua Gente, com o qual acompanhava cantores.

Sua primeira gravação aconteceu em 1941, a convite de Ataulfo Alves, com quem registrou pela primeira vez "Leva Meu Samba" (Ataulfo Alves) e "Ai Que Saudades da Amélia" (Ataulfo e Mário Lago).

Estreou como solista em 1947, na gravadora Continental, quando gravou um 78 rpm contendo o choro "Treme-treme", de sua autoria e a valsa "Glória", de Bonfiglio de Oliveira.

Treme-Treme” (Jacob do Bandolim) # Cesar e seu Conjunto e Regional do Canhoto / Solista: Jacob do Bandolim. Disco Continental (15.823-A) / Matriz (1693). Gravação (09/07/1947) / Lançamento (agosto/1947).

 

 

Glória” (Bonfiglio de Oliveira) # Cesar e seu Conjunto/Solista: Jacob do Bandolim. Disco Continental (15.825-B) / Matriz (1686). Gravação (09/07/1947) / Lançamento (agosto/1947).  

 

Flamengo” (Bonfiglio de Oliveira) # Cesar e seu Conjunto / Solista: Jacob do Bandolim. Disco Continental (15.872-B) / Matriz (1694). Gravação (09/07/1947) / Lançamento (março/1948).

Ainda na Continental, gravaria em 1948 e 1949 mais cinco fonogramas. Ouçam as cinco deliciosas gravações do Jacob.

 

 “Flor amorosa” (Joaquim Antônio da Silva Calado) # Jacob e seu Regional / Solista: Jacob do Bandolim. Disco Continental (16.011-B) / Matriz (1945). Lançamento (abril/1949).

 

 

Remeleixo” (Jacob do Bandolim) # Jacob e seu Regional / Solista: Jacob do Bandolim. Disco Continental (15.957-A) / Matriz (1943). Gravação (18/09/1948).

 

 

Cabuloso” (Jacob do Bandolim) # Jacob e seu Regional / Solista: Jacob do Bandolim. Disco Continental (16.011-A) / Matriz (1942), 1949.

 

 

Salões imperiais” (Jacob do Bandolim) # Cesar e seu Conjunto / Solista: Jacob, 1947.

 

 

Feia” (Jacob do Bandolim) # Jacob e seu Regional / Solista: Jacob do Bandolim.

Disco Continental (15.957-B) / Matriz (1944). Gravação (18.09.1948) / Lançamento (dezembro/1948).

 

 

 

No início da década de 1960, Jacob criou seu conjunto definitivo, o famoso Época de Ouro, inicialmente chamado “Jacob e seu Regional”, depois “Jacob e seus Chorões”.

 

 

 

Em pé, da esquerda para direita: César Faria (violão) e Carlinhos Leite (violão). Sentados, da esquerda para a direita: Dino 7 Cordas (violão de 7 cordas), Jonas (cavaquinho) e Jacob do Bandolim (bandolim). [ausente da foto: Gilberto D’Ávila (pandeiro)].

 

 

 

Com a formação acima, Jacob gravou dois LPs, “Chorinhos e Chorões” (1961) e “Primas e bordões” (1962), com os nomes de Jacob e seu Regional e Jacob e seus Chorões, respectivamente.

 

 

 

 

 

 

 

 

Com o definitivo Época de Ouro gravou os LPs “Vibrações” (1967), e o lendário show com Elizeth Cardoso e o Zimbo Trio, no Teatro João Caetano (1968).

 

 

O LP "Vibrações" foi o último gravado por Jacob e o Época de Ouro, em 1967. Nesse disco ele mesclou composições próprias com obras de dois de seu ídolos, Pixinguinha e Ernesto Nazareth.

 

Estudiosos da obra de Jacob afirmam que o LP "Vibrações" espelha seu enorme talento como instrumentista e arranjador. Muitos desses arranjos foram "incorporados" às composições originais, como é o caso de "Brejeiro" (Ernesto Nazareth) e "Ingênuo" (Pixinguinha/Benedito Lacerda).

 

"Brejeiro" (Ernesto Nazareth)

 

"Ingênuo" (Pixinguinha / Benedito Lacerda)

Segundo Cesar Faria, violonista do Conjunto Época de Ouro, os arranjos para as gravações eram idealizados pelo próprio Jacob: "Os ensaios que a gente fazia, os arranjos que ele dava ideia... a gente fazia, por isso que levava tempo a gente ensaiando. Isso era tudo arranjo dele".

Joel Nascimento: "Jacob era o rei de mudar os fraseados finais, ele não gostava que tocassem a música dele errada, mas ele mudava a música de todo mundo, ele tocava a gosto dele e por incrível que pareça, a maioria das vezes ficava melhor".

Ouçam o LP Vibrações na íntegra.

 

 

LP Elizeth Cardoso, Zimbo Trio e Jacob do Bandolim ao vivo (1968).  Último registro público de Jacob, que viria a falecer pouco depois. 

 

 Jacob do Bandolim fala sobre a descoberta de Elizeth Cardoso em 1936.

 

 

Elizeth Cardoso, contando inconfidências sobre Jacob do Bandolim e cantando, “a capela” a música “Inocência”.

 

 

Até amanhã” (Noel Rosa)

 

 

Carinhoso” (Pixinguinha / Braguinha)

 

 

Está chegando a hora” (Henrique Campos / Henricão)

 

 

COMPOSITOR

 

Jacob escreveu e gravou mais de cem composições. A listagem completa encontra-se no site do Instituto Jacob do Bandolim.


São choros, sambas, modinhas, frevos, valsas que se caracterizam pela leveza, pela beleza melódica, pela ginga sincopada. Escritas, quase todas elas, para solo de bandolim, algumas acabaram recebendo letras posteriormente – e até postumamente.

 

A grande maioria faz parte, hoje, do repertório clássico do choro, executadas regularmente nas rodas, pelos mais diversos instrumentos. Destacamos algumas: "Noites cariocas", "Vibrações", "Vôo da mosca” e “Santa Morena”.

 

 

 

Noites cariocas” (Jacob do Bandolim) # Época de Ouro / Solista: Jacob, 1960.

 

 

 

 

 

 

Vibrações” (Jacob do Bandolim) # Época de Ouro / Solista: Jacob do Bandolim. Álbum 'Vibrações'. 1967.

 

 

 

 

 

 

Vôo da mosca” Jacob do Bandolim # Época de Ouro / Solista: Jacob, 1962.

 

 

 

 

 

 

Santa morena” (Jacob do Bandolim) # Época de Ouro / Solista: Jacob, 1954.

 

 

 

 

 

 

 

PESQUISADOR

 

 

 

 

 

 

Além de ter sido um dos grandes instrumentistas brasileiros, Jacob era também um pesquisador incansável, responsável pelo resgate e preservação da obra de vários mestres como Ernesto Nazareth, Candinho Trombone e João Pernambuco, além de composições dos primórdios do choro que, sem seu trabalho, estariam perdidas.

 

Seu enorme acervo de partituras está hoje distribuído entre o Museu da Imagem e do Som, e no Instituto Jacob do Bandolim, ambos no Rio de Janeiro.

 

 

Dia 18 próximo passado foi lançado - fruto de parceria com o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, vinculado à Secretaria de Estado da Cultura, e a Editora Irmãos Vitale, mais o próprio Instituto Jacob do Bandolim (IJB) - o "Caderno de Composições – Obra completa do Jacob do Bandolim”. Nele estão todas as partituras do artista, contando ainda com 15 inéditas, e também mostra o músico estreando em sua carreira tocando cavaquinho com afinação de bandolim na gravação original de "Amélia" (1942), com Ataulfo e suas pastoras.

 



 

 

Em visita que fiz ao MIS (RJ), em 2010, diante do instrumento que Jacob do Bandolim incorporou ao nome, suas músicas fluíram da minha memória e foi inevitável a emoção...

 

 

 

 

SARAUS

 

 

 

Um dos animados Saraus na casa de Jacob, no grupo: Antônio Carlos Brandão, Nicanor Teixeira, Inês Damaceno, Jodacil Damaceno, Darci Villa-Verde, Oscar Cáceres, Irma Ametrano, Turíbio Santos e Jacob.

 

 

 

Adoro frequentar saraus regados a poesia e música. Ao pesquisar sobre os Saraus do Jacob fiquei com uma inveja danada dos que usufruíram da convivência com ele e seus convidados. Vou citar alguns para justificar a inveja: Dorival Caymmi, Elizeth Cardoso, Radamés Gnattali, Ataulfo Alves, Canhoto da Paraíba, Darci Villa-Verde, Nicanor Teixeira, Jodacil Damaceno, Maria Luiza Anido, Pixinguinha, Oscar Cáceres (violonista uruguaio), Serguei Dorenski (pianista russo), Maestro Gaya, Turíbio Santos e Hemínio Bello de Carvalho (foto abaixo).

 

 

 

 

 

 

 

Sua casa em Jacarepaguá era uma permanente oficina musical, onde reunia a nata dos chorões cariocas, proporcionando a eles o convívio com músicos de outros Estados e até intrenacionais, de quem fazia questão de registrar as obras para posterior divulgação. Canhoto da Paraíba, Rossini Ferreira, Zé do Carmo, Dona Ceça são apenas um exemplo dos que foram recepcionados e hospedados em sua casa, num gesto de ampla generosidade”. (Hermínio Bello de Carvalho).

 

 

 

 

Canhoto da Paraíba, dona Ceça, Othon Saleiro e Zé do Carmo, na casa de Jacob do Bandolim no Rios de Janeiro, em outubro de 1959.

 

Vale a pena conhecer um pouco desta história, aqui.

 

 

 

 

 

 

Nesta belíssima foto tirada em sua casa, em 1968, observamos um Pixinguinha à vontade, de pijama, embalando-se em sua cadeira, acalentando seu sax, como se acalenta um filho querido, sob o aroma de uma única e poética rosa.

 

O que estaria pensando o velho Pixinga? Com certeza não era na morte do amigo Jacob e na sua própria, ocorridas em 1969 e 1973, respectivamente.

 

 

 

 

PARTIDA DE JACOB DO BANDOLIM

 

 

 

Jornal O Globo (14/08/1969). À esquerda: Almirante, Perrota, Cristovão Alencar / À direita: Ricardo Cravo Albin, Russo e ao fundo Pixinguinha.

 

 

 

No dia 13 de agosto de 1969, uma quarta-feira, Jacob teimou com esposa Adylia que estava bem e foi visitar o amigo e ídolo Pixinguinha, que enfrentava problemas financeiros. Combinaram a gravação de um disco só com músicas do velho Pixinga, com a renda revertida pra ele. Isto seria a realização de um sonho para Jacob.

 

Passaram a tarde juntos e no retorno, na porta de casa, ainda dentro do carro sofreu mais um enfarto, vindo a falecer, na varanda de sua casa.

 

 

 

 

 

 

 

 

Jacob do Bandolim deixou um imensurável legado à música instrumental, dando personalidade própria ao bandolim brasileiro.

 Considerado por muitos o maior “chorão” do Brasil, depois de Pixinguinha, foi e sempre será uma referência do choro.

 

Dedico este post a todos os amantes do Choro, mas principalmente ao aniversariante do dia 23 de abril - Pixinguinha -, que completaria 115 anos.

 

A roda de choro deve estar rolando solta, no andar de cima, comandada por ele e Jacob do Bandolim acompanhados de todos os “chorões” que se foram. Não podemos participar dessa roda, mas eles com certeza estão vibrando com as comemorações do Dia Nacional do Choro em todo o território nacional.

 

 

VIVA O DIA NACIONAL DO CHORO 2012!!!

 

 

 

Homenagens anteriores:

 

- Pequena cronologia do Choro (2009)

- Dia Nacional do Choro (2009)

- Dia Nacional do Choro – Homenagem aos Chorões dos Primeiros Tempos ...

- Dia Nacional do Choro é sinônimo de Pixinguinha (2011)

 

************

Fontes:

 

- A Canção no Tempo - 85 Anos de Músicas Brasileiras, Vol 1: 1901-1957 / Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello. - São Paulo: Ed. 34, 1997.

- Choro: do quintal ao Municipal, de Henrique Cazes. – São Paulo: Ed. 34, 1998.

- Coleção Folha Raízes da MPB – Jacob do Bandolim, Vol. 19, 2010.

- Os sorrisos do Choro, de Judie Koidin. - São Paulo: Global Choro Music, 2011.

- Uma história da música popular brasileira – Das origens à modernidade, de Jairo Severiano. – São Paulo: Ed. 34, 2008.

- Sites: Jacob do Bandolim / Músicos do Brasil / #Radinha.

 

************

 

 

Exibições: 1834

Comentário de lucianohortencio em 14 agosto 2012 às 0:42

Voltei aqui para curtir novamente o fabuloso POST e para agradecer os votos de parabéns pela edição de meu milésimo vídeo. Abraço fraterno e agradecido do luciano.

Comentário de Laura Macedo em 14 agosto 2012 às 0:50

Luciano, volte sempre. Eu o Jacob, agradecemos :))

Continue firme fazendo o que você sabe e gosta: editar vídeos maravilhosos. Todos nós agradecemos :))

Abraços.

Comentário de Gregório Macedo em 14 agosto 2012 às 2:08

De volta a este post maravilhoso, repito: aqui, temos o creme de la creme do Choro. Resumo perfeito da arte de Jacob. Que pesquisa, que trabalho bonito!

Beijos. 

 

Comentário de Laura Macedo em 14 agosto 2012 às 3:08

Valeu, fofinho.

Beijos.

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2019   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço