Dito brando em dito duro tanto bate até fazer furo

Crise financeira internacional é importada. A questão é que, ao importar, não há uma política de redução de juros para financiar a produção, mas deixa-se a crise atingir o coração da economia real e o ônus é do trabalhador e das centrais sindicais que têm que se mobilizar nas ruas, em greves, nos sindicatos e nos tribunais para manter o emprego e a produção. São tomadas medidas para reduzir o impacto da crise que ainda não são suficientes para reverter o processo de contaminação de nossa economia. São medidas reativas e não anticíclicas. Os trabalhadores são os primeiros a serem atingidos e têm que pagar o preço por causa de um "equívoco" do Sr. Greenspan, que já pediu desculpas publicamente. O Sr. Greenspan provocou uma recessão econômica em seu país, a Sra. Condoleeza Rice provocou a morte de milhares com as guerras de segurança do "seu" Estado. Mas são os nossos trabalhadores que têm que pagar a conta.
Crise na educação pública também é importada. Pela aferição do ensino, feita por provas, constata-se que o ensino público não vem alcançando as metas propostas internacionalmente. Nossas metas têm como parâmetro metas internacionais que são chamadas de Metas do Milênio. Elas se baseiam na redução e eliminação do analfabetismo funcional. Este é, por sinal, um conceito liberal. A expressão "analfabetismo" já sinaliza que há uma falha, um déficit, que deve ser reduzido. E há toda uma contabilidade, uma conta de chegar, a que nunca se chega, porque essa desigualdade, ao ser medida, revela uma impossibilidade, a impossibilidade de um paradigma concebido pelos países dominantes. Torna-se, portanto, substantiva. Alfabetizar é a nossa meta e não reduzir o analfabetismo. Quem nos julga analfabetos são os países que se consideram alfabetizados para preservar os ciclos do capital. O Ministério da Educação e as Secretarias de Educação também tomam medidas reativas e não medidas anticíclicas. Continuamos sendo culturalmente colonizados pelas metas e as estatísticas internacionais que produzem fossos intransponíveis. Corre-se atrás do prejuízo, criando vagas nas universidades, adotando critérios de ingresso de corte social em função da classe e da cor: a maioria do nosso povo fora das escolas e universidades é afro-descendente. Corre-se atrás do prejuízo e depara-se com o "prejudice" que significa tanto prejuízo quanto preconceito.
Mészáros em A Educação Para Além do Capital escreveu para a conferência de abertura do Fórum Mundial de Educação de 2004 que "a dominação ideológica do capital no âmbito internacional foi fortemente sustentada pela cultura da desigualdade substantiva. (...) O papel da educação é crucial também nesse sentido" para desmistificar o caráter fatalista que nos determinou o lugar de "irremediavelmente" deficitários. A igualdade substantiva na ordem internacional é o nosso grande desafio no tempo histórico, segundo Istvan.
Somos um país que tem muitas crianças e terra. Somos um país que tem um potencial imenso para transformar o velho em novo, transformar o passado em futuro. A criminalização do ensino nos assentamentos do Rio Grande do Sul é um sintoma que representa a estagnação e o impasse diante de uma perspectiva de mudança e crescimento. O ensino nos assentamentos deveria ser, bem pelo contrário, motivo de orgulho para o país, porque não depende do Estado. É desenvolvido por entidades que têm compromisso com a solidariedade e o trabalho. A tarefa do Estado deveria ser de criar melhores condições para que o ensino fosse bem sucedido, deslocando, inclusive, professores e estimulando o reconhecimento das escolas rurais que são iniciativas também de trabalhadores, nesse caso, de trabalhadores rurais.

Exibições: 55

Comentário de Charles Leonel Bakalarczyk em 2 março 2009 às 13:52
Prezada Ivanisa:

A intervenção do Ministério Público nas escolas itinerantes (nos assentamentos) merece especial antenção.

O MP ao identificar "ineficiência pedagógica" e denunciar que o ensino das itinerantes tem conteúdo "socialista" deve trazer publicamente à sociedade gaúcha suas razões, que para mim são reacionárias, preconceituosas e fortemente ideológicas (embora a pretensão de neutralidade). Ao dizer que as itinerantes refogem ao que o ógão qualifica como ensino valtado ao "produtivo", esqueceu de explicitar o que efetivamente implica, sob o aspecto ideológico, esse termo.

Aliás, para mim, que milito na advocacia, a atuação reacinário de setores do MP gaúho (e nacional) não é nenhuma novidade. Tenho dito isso a muito tempo, muito emmbora sem audiência alguma. Mas o MP, que pensa que é um Poder da República, tem posado para os mais incáutos como um arauto do moralismo...

Todo moralista, para mim, é um inimigo da emanciapação humana e da democracia, porque suas razões são sacras, místicas. Há um juízo consolidado, que não admite contraditório. Uma verdade que se revela...

A Igreja já cumpriu seu papela de moralista. Ogora, o Estado, pelo MP. retoma essa função (retoma por aqui, porque em muitos paises Estado e Religião ainda não estão separados).

Um abraço, Charles
Comentário de Charles Leonel Bakalarczyk em 2 março 2009 às 14:03
Prezada Ivanisa:

Até penso que os assentados (e acampnados) devem ter acesso ao ensino regular (oficial, ficalizado pelos comunidade escolar, conselhos, etc.). Mesmo as itinerantes são financiadas pelo Governo federal, o que demonstra a presença (necessária) do Estado.

A grande virtude das itinerantes é que o filho do assentado vai construir seu conhecimento com base na sua realidade social.

O MP deveria estar preocupado é com o ensino regular de péssima qualidade que algumas escolas públicas estaduais então ofertando aos alunos (agora chamandos de "clientela").

(E os gaúchos deveria cobrar de sua governadora sua posição de não aceitar pagar o piso nacional do magistério).

A ação do MP no que se refere às itinerantes foi POLÍTICA e PARCIAL. Deve, por isso, ser denunciada pela sociedade!

Um abraço, Charles
Comentário de Ivanisa Teitelroit Martins em 2 março 2009 às 23:30
Charles,
A questão central é a de que o ensino e a transmissão do conhecimento nas escolas itinerantes se volta para a realidade social em que vivem essas crianças. A realidade da produção solidária da qual participam seus pais e sua comunidade. O Governo Federal, através do Ministério do Desenvolvimento Agrário, repassa recursos legalmente, que são acompanhados e controlados pelo Tribunal de Contas. Na ausência de argumentos o Ministério Público alega que o conteúdo do ensino tem caráter socialista. Você nos traz o contraditório, que não vem sendo levado em conta, de que o ensino é emancipador e democrático. Acrescento: o ensino, nas escolas itinerantes, permite que as famílias vivam, produzam e se integrem socialmente ao lugar onde moram, com isso evita-se, inclusive a migração para as cidades maiores e as capitais. É isso que denunciam como uma prática socialista? Qual o risco que essa prática representa para a sociedade? Trabalhar, produzir, estudar são riscos?
Abraços, Ivanisa
Comentário de Charles Leonel Bakalarczyk em 3 março 2009 às 12:20
Há setores previligiados que se incomodam muito quando algum movimento social tem por bandeira alterar o status quo. E usam a bandeira da legalidade para sufocar o movimento...

Charles

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2019   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço