Divertidas histórias de Lamartine e Ary

Foi conversando com amigos aqui do Portal, relembrando alguns trocadilhos de Lamartine e divertidas histórias de Ary, que tive a idéia do post. Reuni o que foi contado no bate-papo com pesquisa no Google e consulta em livros. Divirtam-se, com Lalá e Ary!


Numa entrevista de agosto de 1936, Lamartine fazia a autocrítica, sem evitar o trocadilho: "Eu me achava um colosso. Mas um dia, olhando-me no espelho, vi que não tenho colo, só tenho osso".



Pergunta de um entrevistador da revista "Careta":
Qual a maior aspiração dos artistas do broadcasting?
- A aspiração varia de acordo com o temperamento de cada um... Uns desejam ir para o céu... já que atuam no éter... Outros "evaporam-se" nesse mesmo éter... Os pensamentos da classe são "éter... ó... gênios..." (esse trocadilho recebeu do entrevistador o título de pior do ano de 1941...)




Em um baile de carnaval, no Botafogo Futebol Clube. Um folião qualquer gritou: - Você, Lamartine, assim transparente, ao meio de tantas moças, está querendo bancar 'o último varão sobre a terra'. Lamartine respondeu com voz trêmula: 'Varão não, meu amigo. Varinha'...


Quando, certa vez, lhe perguntaram que epitáfio escolheria, respondeu: - Aqui jaz um compositor que não gostou de jazz!


Dizia frequentemente que era tão magro que seu pijama só tinha uma lista


Lalá e Braguinha, tendo perdido todo o dinheiro no cassino, embarcam no bonde, para ir da Urca à Vila Isabel. Pedem ao condutor que lhes leve de graça, que são artistas. O condutor exige uma prova. Os dois, durante a viagem, compõem os "Cantores do Rádio":

Nós somos os cantores do rádio
Levamos a vida a cantar
De noite embalamos teu sono
manhã nós vamos te acordar
Nós somos os cantores do rádio
Nossas canções cruzando o espaço azul
Vão reunindo num grande abraço
Corações de Norte a Sul (...)


Em madrugada de boemia com Noel Rosa, vindos de um baile na rua Ibituruna, sobraçavam os dois garrafas de cerveja, quando depararam com o leiteiro, por volta das 4 horas da manhã. Seguiram-no e quando um litro de leite foi depositado no portão de uma casa, os dois substituíram-no por uma cerveja, com a seguinte mensagem: - Vai-te alimentando com a nossa cerveja, enquanto nos envenenamos com teu leite.


Dedicatória em 'Lamartiníadas', livro de sua autoria (1932): "Aos meus fans nacionais e estrangeiros. Com o meu abraço fan...miliar. Lalá.


Lamartine teria aceito convites para apitar partidas de futebol com uma condição, "desde que não ventasse".



O último trocadilho: Um repórter de TV entrevistou Lamartine no Copacabana Palace, depois de um show de Carlos Machado inspirado nas músicas de Lalá. Quando a rápida troca de perguntas e respostas terminou, Lalá quis saber se a entrevista sairia no telejornal daquele dia. "Hoje não", respondeu o repórter, "já temos a entrevista de Tom Jobim, que chegou dos Estados Unidos de manhã". Ao que Lamartine, num sorriso de irônica resignação respondeu: "Ah! Quer dizer que agora eu estou um tom abaixo?"



E já que o carnaval está chegando, curtam as marchinhas de Lalá.

Carnaval Brasil (pout-pourri)


O Teu Cabelo Não Nega (pout-pourri)


*******


No auditório da Rádio Mayrink Veiga, no Rio, Ary apresentava o programa "Calouros em Desfile", que, segundo ele, procurava revelar valores para a música nacional. E ele próprio completava, descrente: "Pois, sim". Certa vez, ele recebeu um calouro que se intitulava José Maria Chiado, que chegou logo dizendo que era Fluminense, contrariando o flamenguista Ary Barroso."Eu nasci no Estado do Rio, não é seu Ary? Quem nasce no Rio não é Fluminense? Campeão e tal." Já aborrecido, Ary mudou de assunto e perguntou o que o seu Chiado ia cantar.
"Eu vou cantar um sambinha”, disse o calouro.
Barroso reclamou de novo: "? É o tal negócio, vai cantar música brasileira é sambinha. Se ele viesse aqui cantar um mambo, ele diria vou cantar um mambo, não era mambinho não, era mambo no duro. Mas vai cantar música brasileira é sambinha, na base do deboche".
E indagou: "Muito bem seu Chiado, qual é o sambinha que o senhor vai cantar?"
E a resposta: "Aquarela do Brasil".
Nova bronca do Ary que, afinal, mandou o Chiado cantar.
E ele: "Brasil, meu Brasil brasileiro..., vou cantar-te nos meus velsos"…
Foi o suficiente. Soou o gongo e Ary Barroso detonou: "Pode parar, seu Chiado. O senhor pode cantar nos seus velsos, nos meus verrrrsos o senhor não vai cantar, não. Vá aprender português, seu Chiado. Sambinha é o diabo que o carregue!"


Certa vez, novamente em seu programa "Calouros em Desfile", Ary Barroso perguntou a um candidato:
- O que o senhor vai cantar?
- "Se todos fossem iguais a você", de Vinícius de Moraes, respondeu o candidato.
- E o Tom?, perguntou Ary.
- Lá menor.
- Está desclassificado! Esquecer o nome de Tom Jobim é crime!



Um dia, depois de tanto criticar o Vasco da Gama, Ary Barroso foi proibido de entrar no estádio São Januário. E para não deixar os ouvintes na mão, o teimoso radialista simplesmente subiu no telhado de um galinheiro ao lado e de lá fez a locução do jogo.


Esta não foi a única transmissão clandestina de Ary.
De outra vez, novamente impedido de entrar no estádio num jogo de um campeonato sul-americano no Uruguai (outra emissora detinha os direitos de transmitir a partida), Ary não se deu por vencido e hospedou-se num hotel de Buenos Aires, na vizinha Argentina. De lá, sintonizado na rádio Mayrink Veiga, reproduziu a narração, como se ele próprio estivesse no campo. Mais que isso, a certa altura do jogo, passou a acompanhar a transmissão de uma rádio argentina, e foi "traduzindo" a partida. Com esse truque, conseguiu anunciar um gol antes da rádio carioca.



Ary era assim: impulsivo, orgulhoso, sempre pronto a criticar violentamente as coisas que julgava erradas. Um dia, num bar do Leme, levantou-se de repente da mesa e telefonou para casa. Eram 2 da madrugada e ele disse para Flávio Rubens, o filho sonolento que atendeu: "Dê um pulo aqui". Flávio chegou correndo, imaginando tragédias. Ary, copo de uísque na mão, ar melancólico, disse:
- Você sabe que Mariúza está namorando o Isaac Zuckermann?
- Que tem isso, papai?
- Minha filha namorando um bêbado!
- Mas o senhor também bebe, papai.
- Mas eu não vou me casar com a Mariúza!




De Paulo Mendes Campos:
Fomos juntos a Belo Horizonte, ele ia participar da inauguração da TV Itacolomi. Seu nome numa lista de passageiros aéreos era sinal certo de perturbações na rota. Nas suas próprias palavras: "Controlo tudo: a afinação dos motores, o teto, a temperatura, a altitude de segurança, o estado do tempo, tudo! Não quero conversa com ninguém. Não como. Fico vendo os minutos. Fico descobrindo os campos emergenciais de pouso."
Mal o DC-3 decolou, naquela viagem para Minas, Ari pediu para ir à cabine de comando; era um expediente para reassegurar-se com as palavras técnicas do piloto. Apareceu à porta do corredor uns vinte minutos depois e gritou para mim, que me encontrava numa das últimas poltronas: "Imagine você que o motor da direita está dando muito mais rotações que o motor da esquerda. Isto é perigosíssimo!" Não chegou a haver chilique, mas os passageiros apertaram mais o cinto e começaram, pálidos, a adejar de leve as asas do nariz.





"Quando me falam em concurso de carnaval, é como se dissessem que o Flamengo foi comprado pelo Vasco: fico irritadíssimo!"



Os brasileiros que o acompanhavam nos EUA ficaram impressionados com a sua reação a um convite formulado pessoalmente por Walt Disney para que assumisse a direção musical da Disney Produtions (...) Ari pediu 24h para dar a resposta - um incisivo não."Why?", perguntou espantado Disney. E Ari respondeu naquele seu inglês incorreto: "Because don't have Flamengo here".



(...) Anos depois, início de 1964, Ary Barroso já sofria de cirrose hepática, estava internado num hospital quando recebeu a visita de seu mais cordial inimigo, nada menos do que Antônio Maria (1921-1964), autor do lindo samba-canção 'Ninguém me ama'. Os dois conversaram um pouco e lá pelas tantas Ary Barroso fez um pedido especial a Antônio Maria:
- Maria, cante para mim 'Aquarela do Brasil'...
Antônio Maria hesitou, fez que não entendeu mas não houve jeito. Ary exigiu que Maria cantasse. E Maria começou:
- Brasil, meu Brasil brasileiro, meu mulato inzoneiro, vou cantar-te nos meus versos.... e por aí foi até o final.
Quando finalmente acabou, Ary Barroso pediu a Maria:
- Maria, agora me pede para cantar 'Ninguém me ama'...
Antônio Maria resistiu o quanto pôde. Mas finalmente cedeu:
- Ary, agora cante para mim 'Ninguém me ama'...
Sarcástico até no leito de morte do hospital, Ary saiu-se com essa:
- Não sei, Maria, não sei...

*******

Fontes

Nova História da Música Popular Brasileira
- Fascículo Ary Barroso
- Fascículo Lamartine Babo
Tra-la-lá Lamartine Babo - Suetônio Soares Valença
Murais de Vinicius e Outros Perfis - Paulo Mendes Campos
No Tempo de Ari Barroso - Sérgio Cabral

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Comentário de Sérgio Troncoso em 28 janeiro 2010 às 20:46
Lindo Helô, muito lindo mesmo! Vida longa e próspera MESTRA.

Comentário de Oscar Peixoto em 28 janeiro 2010 às 20:59
Delícia, Helô! São duas figuraças da nossa história!
Agora me ocorreu o seguinte: talvez valha a pena uma pesquisa sobre o Barão de Itararé (Aparício Torelli) que, em matéria de piadas inteligentes e situações cômicas, também foi um mestre. Que tal?
Grande beijo
Comentário de Marise em 28 janeiro 2010 às 22:42
Helô como sempre dado um baile. Esta´ótimo mesmo
Beijão
Comentário de Luis Nassif em 29 janeiro 2010 às 0:26
Maravilha de pesquisa.
Comentário de Cafu em 29 janeiro 2010 às 9:39
KKKKKKKKKKKKKKKK. Que demais! Olha aí os professores do Óscar.
(Sei não. O Óscar do Trocadilho Infame de 2010 será concorridíssimo).
Parabéns pela pesquisa e obrigada pela diversão. Alegria compartilhada é alegria multiplicada.
Beijos.
Comentário de Laura Macedo em 29 janeiro 2010 às 19:23
Helô,
Assino com o Nassif: "maravilha de pesquisa".
Super beijo.
Comentário de Anarquista Lúcida em 29 janeiro 2010 às 20:38
Helô, super engraçado. É bom a gente ver as pessoas dos músicos por trás das músicas.

Mas as faixas musicais que você pôs nao estao aparecendo, só uma faixa branca. E acho que nao é problema do meu computador, porque a que você pôs na minha página saiu.
Comentário de Helô em 2 fevereiro 2010 às 0:29
Sérgio, Oscar, Marise, Nassif, Cafu, Laurinha e AnaLú
Obrigada pelos comentários. Depois que fiz o post, descobri mais historinhas e oportunamente vou trazê-las para cá.
Beijos a todos.
Comentário de Gilberto Cruvinel em 23 fevereiro 2010 às 21:11
Oi Helô,

Cada história ótima que você garimpou hein?
E sabe que justamente agora em janeiro, fui ver, um dia antes de viajar para o Rio, a peça Lamartine Babo com o pessoal do CPT do Antunes lá no Sesc Anchieta. O Antunes foi quem escreveu a peça. E colocaram um ator que é tal e qual a imagem que temos do Lala. O cara acha, acha não, tem certeza de que é o Lamartine reencarnado. Além dele, tem um grupo musical que canta e toca diversas peças do Lala. Uma delícia de peça.

Musical Lamartine Babo
O musical fala de uma banda que ensaia canções de Lamartine Babo e recebe um misterioso visitante.

Sesc Consolação Espaço CPT - 7º andar: R. Dr. Vila Nova, 245 - Vila Buarque - Centro. Telefone: 3234-3000 - Em cartaz até maio/2010

Adorei, como sempre, seu post Helô
Beijos
Gilberto

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