Postado originalmente: http://dagmarvulpi.blogspot.com/2012/11/divulgando-aloysio-biondi-p...

Pretendo fazer uma série de curtos textos divulgando parte do trabalho do Aloysio Biondi*

 

Adianto que, caso haja entre os distintos leitores deste texto algum investidor, que não se empolgue, pois, essa mamata foi anos atrás, e os espertos daquela época não perderam a oportunidade e hoje estão trilionários.

 

“Compre você também uma empresa pública, um banco, uma ferrovia, uma rodovia, um porto. O governo vende baratíssimo. Ou pode doar. Aproveitem a política de privatizações do governo brasileiro. “negócios da China” para os “compradores”, mas péssimos para o Brasil.” Escreveu Aloysio Biondi no seu livro - O Brasil privatizado Um balanço do desmonte do Estado.

 

Se o amigo leitor tiver um tempinho sugiro que pegue uma calculadora e faça as contas dos números que aparecerão na seqüência, não que você vá ganhar algo com isso, o máximo que poderá ganhar é uma sensação de ter sido roubado, mas vale o exercício para calcular quanto foi perdido.

 

Não que esse tenha sido o melhor negócio para aqueles que investiram na compra de empresas publicas, mas vamos começar pela telefonia.

 

Muito bem, antes de vender as empresas telefônicas, o governo investiu 21 bilhões de reais em dois anos e meio naquele setor.  O nosso representante máximo da época juntamente com seu ministro e sabe lá mais quem, concluíram que já estava na hora de sairmos daquela situação, onde, para os menos favorecidos a única forma de se comunicar via telefone era precariamente e através de orelhões públicos, pois comprar uma linha telefônica naquela época era privilégio para uma diminuta e afortunada parcela da população.

 

Depois do astronômico investimento de 21 bi, sabe-se lá por quais cargas d’água nosso senhorio resolveu vender tudo por uma “entrada” de 8,8 bilhões de reais ou menos – porque financiou metade da “entrada” para grupos brasileiros.

 

As empresas telefônicas realmente deixavam muito a desejar, eu tive o privilégio de estagiar numa delas, mais precisamente da Telest (Telecomunicações ES), e pude comprovar que a tecnologia era arcaica, se é que podemos chamar aquilo de tecnologia. Lembro da sala onde trabalhavam as telefonistas, com fones nos ouvidos e dezenas de cabos conectores nas mãos, ficava um amontoado de mulheres completando as ligações, não havia uma ligação feita naquela época que obrigatoriamente não passasse pelas mãos daquelas pobres mulheres.

 

E aí chegou a tecnologia, graças a aquele bendito investimento do governo federal. Eu que estava prestes a ser efetivado, completei o contrato de estágio e fui cantar em outra freguesia, aquelas mulheres da tal sala, muitas com mais de 20 anos de serviços prestados, foram colocadas em disponibilidade, mas essa não foi a parte ruim do investimento. Logo após as privatizações as coisas pioraram, irritada, tentando há 15 minutos utilizar um orelhão, Maria coloca o telefone no gancho e desabafa:

 

– Esse demônio só liga em número errado... É o terceiro orelhão com defeito em que estou tentando, e preciso falar urgente com meu filho, que vai sair para a escola...

 

– É, tá um inferno mesmo – retruca o Zé, no orelhão ao lado. – E olhe que já estou sendo forçado a vir fazer ligações no orelhão porque o telefone lá de casa está mudo há duas semanas...

E disseram que tudo ia melhorar com a tal privatização...

“Telefone instalado, já, já, até em São José da Tapera”.

Lembra do anúncio na televisão? Este país...

Diálogos igualmente indignados repetiram-se aos milhares, nas principais cidades brasileiras, nos últimos meses. Não apenas por causa das “telefônicas”, tristemente famosas, mas também em razão dos desastrosos “apagões” da Light, da Eletropaulo, do “raio de Bauru”... 

 

Ou dos postos de pedágios que brotaram como cogumelos nas rodovias de São Paulo, Paraná etc., antes mesmo de as empreiteiras “compradoras” terem executado um único centímetro de pista nova... Ou dos bancos, que fecham agências em cidades onde eram os únicos a atender à população... Ou das ferrovias, que não cumprem metas, mas aumentam os fretes... Ou dos fertilizantes, defensivos, remédios para o gado, antes produzidos no país e agora importados e, por isso mesmo, pagos em dólar pelos agricultores...

 

Todos esses desastres já criaram a convicção de que o famoso processo de privatização no Brasil está cheio de aberrações. Não foi feito para “beneficiar o consumidor”, a população, e sim levando em conta os interesses – e a busca de grandes lucros – dos grupos que “compraram” as estatais, sejam eles brasileiros ou multinacionais. Mas há mentiras ainda maiores a serem descobertas pelos brasileiros, destruindo os argumentos que o governo e os meios de comunicação utilizaram para privatizar as estatais a toque de caixa, a preços incrivelmente baixos.

 

A venda das estatais, segundo o governo, serviria para atrair dólares, reduzindo a dívida do Brasil com o resto do mundo – e “salvando” o real. E o dinheiro arrecadado com a venda serviria ainda, segundo o governo, para reduzir também a dívida interna, isto é, aqui dentro do país, do governo federal e dos estados. Aconteceu o contrário: as vendas foram um “negócio da China” e o governo “engoliu” dívidas de todos os tipos das estatais vendidas; isto é, a privatização acabou por aumentar a dívida interna. Ao mesmo tempo, as empresas multinacionais ou brasileiras que “compraram” as estatais não usaram capital próprio, dinheiro delas mesmas, mas, em vez disso, tomaram empréstimos lá fora para fechar os negócios. Assim, aumentaram a dívida externa do Brasil. É o que se pode demonstrar, na ponta do lápis, neste “balanço” das privatizações brasileiras, aceleradas a partir do governo Fernando Henrique Cardoso.

- Jornalista econômico colaborou durante 44 anos com reportagens e análises para jornais e revistas. Começou na Folha de S. Paulo em 1956, ocupando o cargo de editor-executivo do caderno de Economia, que o jornal (já) mantinha na época. Ocupou os cargos de secretário de redação da Folha de S. Paulo e da Gazeta Mercantil. Foi diretor de redação do Jornal do Comércio (RJ) e do Diário Comércio & Indústria (SP). Também foi editor de economia das revistas Veja e Visão e editor de mercado de capitais (“pioneiro”, em 1969) de Veja e do jornal Correio da Manhã. Foi diretor editorial do grupo DCI/Shopping News. Ganhou dois Prêmio Esso de Jornalismo Econômico: 1967, revista Visão, e 1970, revista Veja. Faleceu em julho de 2000, na cidade de São Paulo.  

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Comentário de Clailton Kitter Ferreira em 30 novembro 2012 às 21:59

Olá! Boa Noite! Sr. Dagmar

   Realmente as privatizações se constituíram uma verdadeira aberração. Por exemplo, FHC - no governo - arrecadaram 2 bilhões para - afirmação de Ciro Gomes - amortecimento da dívida interna ou externa. Simplesmente. Um centavos se investira em política social ou econômica.

   Quando a presidente Dilma estava preste para privatizar os aeroportos, FHC se aprontou para relativar suas ações anti-patrióticas. O problema que no séc. XX o neoliberalismo parecia a panaceia para a solução final para os problemas da população ou mundo.

   A crise de 29 dos EUA mostra cabalmente que o Estado, por vezes, é salutar intervir e ponto. Mas o desejo patológico de tornar o Estado nanico não é um caminho.

   E mais: o que se privatizou - como telefonias - é onde se contém mais reclamações.

   Sim - para ver como odeiam o país -; investiram bilhões antes de privatizar, deixando redondinho as empresas ou infraestruturas e logísticas e, em seguida, abriram caminho para saquear a Nação.

   Um dia quando FHC encontrara Clinton nos EUA parecia um vassalo grato por prestar um ótimo serviço para o chefe do mundo - patético!!

   Final do mês comprarei um livro de FHC, pois antes detinha um pensamento de vanguarda. Mas atualmente não é tão representativo.

   Para os amantes de FHC: quando começara seu governo a dívida pública era de R$ 65 bi. Terminou o madato estava mais de R$ 1,2 trilhões.

Comentário de Dagmar Vulpi em 30 novembro 2012 às 23:12

        

Olá, boa noite Sr. Claiton!

O amigo foi bastante preciso em suas considerações.

Passados mais de uma dúzia de anos das mal fadadas privatizações, o nosso Estado continua incapaz de gerir a máquina pública a contento. Incluir nesse gerenciamento empresas da magnitude das mineradoras, telefônicas e energéticas que foram “privatizadas” certamente aumentariam em muito o caos já instalado.

Sou favorável a uma máquina enxuta, com o governo gerenciando somente as empresas que prestam serviços essenciais a população, porém, o inadmissível foi a forma descarada do desmonte do Estado procedido no governo do senhor FHC. Ficou bem claro já nessa primeira parte de minha postagem, e mais ainda no final do seu comentário, e que faço questão de reproduzir aqui: “Sim - para ver como odeiam o país -; investiram bilhões antes de privatizar, deixando redondinho as empresas ou infraestruturas e logísticas e, em seguida, abriram caminho para saquear a Nação.

Isso é banditismo, não há outro adjetivo a se usar.

Fraterno Abraço 

Comentário de Francisco José Corrêa em 1 dezembro 2012 às 0:26

Sr. Dagmar, apenas um reparo ao final de seu comentário.

O senhor diz que isso é banditismo. Não. É ROUBO descarado mesmo. Banditismo é o nome que se dá aos cumplices que estão no congresso para acobertar essas falcatruas, fabricando escandalos e discursando diariamente contra o governo. Sejamos claros: principalmente deputados e senadores do psdb, dem, psol, alguns do PDT. Abraços.

Comentário de Clailton Kitter Ferreira em 1 dezembro 2012 às 0:43

Olá! Boa Noite! Sr. Francisco

   Uns dados que divulgam para mobilização: estamos em 66° em corrupção mundial. E - dados da Zero Hora - 86 bilhões consumidos na mais voraz avidez no  Brasil. Querem dinheiro para Educação, Saúde, Segurança Pública...veja o capital disponível...

Comentário de Dagmar Vulpi em 1 dezembro 2012 às 1:09

 Boa noite Sr.  Francisco José Corrêa,

De fato, mas como essa é uma das minhas primeiras participações neste fórum de debate preferi começar pegando leve, mas já que o senhor fez a devida correção, fico mais a vontade, e vou logo plagiando, É ROUBO mesmo. 

Comentário de Tadeu Silva em 12 janeiro 2014 às 14:17

Ola Sr. Vulpi, do Soteco, 

Algumas considerações   antes de analisar o "prontuário". No final dos anos 60, começo dos 70, conheci Vila Velha, de nome, pois uma família da cidade de Juiz de Fora, bairro  Grajaú, mudo de mala e cuia para lá. Mais tarde, em 90, apesar de já conhecer Iriri desde 83, é que visitei VV pela primeira vez, o Convento da Penha, Garoto. A partir daí, mudando para o Mato Grosso, passei a visitar regularmente a cidade, porque uma cunhada mudou-se para a 1ª etapa, no Coqueiral. em 2008, por problemas de saúde de minha mulher, mudamos para VV e lá ficamos por 3 anos.

Desculpe o alongamento, mas gosto muito da cidade, a começar do nome. Morava na Praça, Parque, Praia ou Ponto das Gaivotas, entre Santa Mônica e Itaparica, atrás da Rodoviária já antiga. Portanto, conheci as redondezas todas e inclusive o Soteco, por onde andei várias vezes, tentando encontrar algum rosto conhecido dos meus amigos que se foram para lá, como disse. 

Voltando aos anos 70, lembrei-me agora, um amigo de pelada, o Luiz Carlos, vascaíno não como eu, flamenguista, formou-se engenheiro elétrico (UFJF) e foi trabalhar em Vitória, e me lembro que, nos tempos das telefonistas da Telemusa - Telefônica Municipal SA, só tinha 1 aparelho em todo o bairro, na casa da D. Ruth, preto, pesado, enorme, pendurado na parede, e quando telefonei pela primeira vez, ela me ajudou a discar e eu falei tremendo com meu pai, como se dentro de mim estivesse ligado o modo vibração.

Estou terminando, não sem falar que em 1988, retardatário, li o livro Canaã, Graça Aranha, e recuperei as imagens das montanhas inesquecíveis que vira em 83, só que ao Sul (Frade e a Freira, Pedra Azul ou do Lagarto, p. ex.). Foi quando resolvi fazer antropologia, mas... acabei na história, e nessa história me vi morando na cidade, como disse, por isso foi com alegria que li seus posts e pude imaginar o morro sobre o Soteco ainda sem o casario, uma visão da praia sem a barreira dos prédios, e a Bela Vista, lugar ideal para um Parque Municipal, sinônimo de cidadania, mas isso no Brasil é ainda um tabu. 

Tão tabu como os livros O Brasil Privatizado (Biondi, que minha mulher entrevistou em Cuiabá, em 1999, que, comentário dela, enquanto falava fumou quase 1 maço de cigarro de tão angustiado e ansioso que pareceu-lhe, morrendo em 2000 com sessenta e poucos anos, morte que credito aos desmandos que, pregando no deserto brasileiro, era o ÚNICO, UMA ESPÉCIE DE QUIXOTE SOLITÁRIO), A Privataria Tucana (Amaury Ribeiro Jr.) e, agora, Operação Banqueiro (Rubens Valente, um escravo do jornalismo investigativo, inclusive homenageado pelo Amaury no livro anterior).

Um abraço preocupado com VV que "submergiu" aos caprichos da natureza e aos capachos da  incúria preventiva das administrações Brasil afora. Mesmo assim, viva a muqueca capixaba!

Comentário de Dagmar Vulpi em 13 janeiro 2014 às 8:47

Olá Tadeu Silva, Bom dia!

Bom saber que o amigo leu alguns de meus posts, e principalmente por, apesar de agora distante, já ter morado por estas bandas da maravilhosa cidade dos Canelas Verde.

De fato a visão que tínhamos do alto do morro Soteco nos idos dos anos 70 era fantástica. O morro era coberto por uma densa vegetação onde se destacavam arvores frutíferas nativas, como cajueiros e pitangueiras. De fato, de lá do alto tínhamos uma visão privilegiada, tanto das praias de Itapoã e Itaparica que ficavam expostas por ainda não existirem a barreira de prédios que hoje impede visão igual, quanto as grandes fazendas que ainda ocupavam  um bom espaço do município.

 

Conheço bem coqueiral, bairro onde mora sua cunhada, e Santa Mônica, bairro onde você morou. Estes são bons exemplos de bairros que naqueles anos ainda eram grandes fazendas, sendo que em coqueiral onde foi construído o conjunto habitacional que é dividido em etapas, havia como atrativo maior uma grande lagoa de águas límpidas onde a moleca da época tomava banho para arrefecer o calor, ou usava para pratica de pesca amadora, com improvisados caniços de bambu que haviam por ali por perto, a lagoa era abundante de lambaris.

Eu tenho como certo que a obra do Biondi serviu de inspiração e fonte de pesquisa para o livro A Privataria Tucana (Amaury Ribeiro Jr.). As obras se completam, ou no mínimo, servem de sustentação uma para a outra.

 

A cidade que ficou “semi-submersa” assim como o restante do estado foi uma calamidade provocada não somente por fatores naturais, mas em grande parte por deficiência de planejamento na urbanização dos bairros, agravado pelo descaso dos que estiveram à frente do executivo desta cidade nos últimos 40 anos. Vila Velha é uma cidade que se nivela ao mar, tendo ainda alguns pontos que ficam abaixo daquele, o grande número de lagoas antes existentes justificam esse fato.

 

Apesar de tudo nossa cidade continua linda, e moqueca de verdade somente é encontrada por estas bandas, fora daqui o que servem é peixada.

 

Abração e um 2014 repleto de realizações

 

Comentário de Tadeu Silva em 13 janeiro 2014 às 14:47

Oi, Sr. Vulpi,

Concordo plenamente com a relação entre o Biondi, o Amaury e o Rubens, não necessariamente nessa ordem, porque os dois últimos atuaram concomitantemente, a meu ver. Um abraço!

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