Um tanto do estilo capotiano na obra-prima que marcou a literatura estadunidense e revolucionou o jornalismo literário mundial, À Sangue Frio, precursor do gênero romance sem-ficção. Para os que já leram o detalhar do detalhamento de Truman Capote; para os que não leram a dica e um tanto do literar incrível da obra.


DO ESPELHO CAPOTIANO

Se acaso se ousasse ilustrar a obra de Capote, picturizar-se em frames da sétima arte ou das caixas de tubos mágicos projetores, ainda assim não se conseguiria contar da narrativa minimalista que nos eleva a imaginação. No assassinato tão À Sangue Frio de uma família inteira (os Clutter) na pequena aldeia de Holcomb, distrito de Garden City no Estado do Kansas no alvoroçar do “American way of Life”, supera os cândidos investigativos e técnicos. A obra se eleva no literato primo ao fazer-nos sentir na face o ar seco típico dos desertos, o lamaçal das primaveras e a calmaria dos outonos no vilarejo de um “lá pra diante”; muito além: ao dedilhar das descrições de Nancy, bonita rapariga, magra e ágil como um rapaz – a mais adorável de Holcomb! –, dos detalhamentos cronometrados de Mr. Clutter, que, aliás, “sabia sempre o que queria”, bom homem, “companheirão”, “chefe nato”; um verdadeiro orgulho aos habitantes do vilarejo. E é nesse sentido que a obra se faz prima: aproxima-nos dos personagens de tal forma, feito como se conhecessemo-los intimamente.
E das analogias tão ao mistério subliminar de Capote, existe mundos inteiros, livros intermináveis a serem contados dentro da própria obra. Dos Clutter, a “podre Bonnie” e seus inexplicáveis acessos de loucura – ou lucides – nos parece prever os fatos e, muito mais, senti-los no cerne. Em seu último dia de vida, sua mesinha-de-cabeceira, vazia, já não continha os tantos jornais que assinava – como toda boa mulher, mãe estadunidense –; nela apenas a bíblia onde se lia: ”Prestai atenção, vigiai e orai; porque vós não sabeis quando soará a hora.” E, por mais que parecesse se entregar os pressentimentos (entrelinhados) havia o habitual (da camisola, das meias) – e o habitual sempre traz a esperança de se continuar redundante no dia que virá. Em À Sangue Frio, tal jogo intenso de um ir e vir sem se perceber, sucumbi o relato físico dos papeis alçando vôo.
E a quem haveria a dúvida das intenções do autor, da crítica a análise (nunca imparcial)? Capote reina nas entrelinhas como um terceiro personagem. Faz-nos perceber suas críticas a vida dos Clutter; em especial ao do ceticismo de Herb. E como não sentir-se do fim da idéia da menina Pollyanna (de Heleonor H. Porter) que reina em Nancy? Nancy era a própria Pollyanna em seu eterno jogo do contente. Estava sempre disposta, se fazia necessária. Mas até quando? Até quando a sociedade estadunidense poderia viver das ilusões literárias? E é nesse sentido que se legitima – pelo menos literalmente – o assassinato, a presença imponente de Perry e D***.
Há aqui uma perceptível atenção especial do autor aos assassinos na narrativa – principalmente a Perry. A doçura da maldade é sempre bela nas páginas impressas. E nessa dupla que em nada se poderia ligar, pois tão diferente, havia a doçura humana tocante à percepção do autor. Tão diferentes, distintos, mas que se faziam próximos no âmago de suas próprias existências. Perry, dos pés minúsculos, tronco disforme à proporcionalidade das pernas deficientes, em seus 31 anos, leitor assíduo, intelecto nato, aliás, esquecido – ora! Era apenas um ex-ocupante das casas de penitencias (as penitenciárias) – e nisso se fazia ligar a D*** – mecânico competente, de face medonha que se pareciam tê-lo “cortado a cabeça ao meio e juntado novamente”, aliás, inteligentíssimo apesar da falta de gosto pela literatura. Sentia-se incompleto das retaliações que ele mesmo se fazia nas palavras – principalmente na falta delas! E não há que não se aproximar e identificar-se com Perry. E o autor não se faria imune. Identifica-se e, mais do que isso, se reflete em Perry. Ambos com traumas familiares, marginalizados, literatos. Amantes! E por tal, culpados. Mesmo na dor dos relatos, Capote decai à culpa dos amantes. Não do amor físico, da carne. Perry amava o que não tinha – e ele se admirava disso (“Parece que cais em transe todas as vezes que te vês a um espelho. É como se estivesses a observar umas boas nádegas. Caramba, isso não te cansa?” das falas de D***). Vivia de sua inexistência tal como de sua matéria. E por qual, culpado. E o autor claramente produz o entendimento da culpa diminuta de D*** quando da fala amável do amigo:
“– Não te preocupes com os teus olhos, pois tens um sorriso extraordinário. Um daqueles sorrisos a que ninguém resiste” - dizia Perry.
Um sorriso que isenta. E não se é preciso mais dizeres.
Todavia, a Perry – em que o autor se refletia – se debruçavam tormentas de culpabilidade. Feito o centro da narrativa, tinha-se que pagar pelo mérito. Perry era a nada mais que a representação do autor. E a ele talvez a punição severa pela existência e pelas tantas escolhas de uma vida capotiana a que capote não se fazia capaz de produzir a si mesmo. E tão mais fácil se faz julgar o espelho.

José de Assis

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