Do nosso Sócrates

 Existe uma categoria especial de brasileiros que, quando nos deixam, sentimos-nos especialmente mais pobres e abandonados. Dentro de nossa condição humana, dentro de nossa própria humanidade...

 Assim foi com Paulo Francis, com sua rabugice homérica, mas tanto mais necessária neste mundo de mesmice, de opiniões unânimes. Das quais - já disse o gênio, quedam-se imersas na mais terrível burrice.

 Assim foi com aquele trágico anunciar da perda do grande e definitivo Maestro Tom Jobim, naquele procedimento médico dentro dos Estados Unidos onde, supunha-se, haveria maior proteção à sua vida.

 Quando morrem Cabral de Mello Neto ou Drummond, a humanidade empobrece. Mas existem heróis de nosso quotidiano que quando nos deixam, acontece de a nossa própria humanidade nos deixar. Pouca em alguns ou muita em muitos, que seja...

 Este era o caso de Sócrates Brasileiro. Aliás um grande e definitivo – inegável – brasileiro...

 A dimensão da cidadania de Sócrates era ímpar: nunca abrir mão de pensar, nunca abrir mão de se posicionar. Um pouco do olhar sobre o passado transforma em verdade o que pode ser agora, e por agora, apenas uma idéia.

 A origem de sua fama, a carreira futebolística, pode sim ser hoje origem de grandes posturas éticas: dentro e fora do campo. Hoje muito mais, na terra dos direitos de imagem e do marketing esportivo. Ah, que saudades da verve do Francis: seria o primeiro a apontar a ironia das aparências e do que elas realmente significam...

 Ou a origem de grandes e honradas biografias, ou de reais e verdadeiras posturas de atleta. Isto quando em épocas passadas, não se tinha o maior ou menor valor econômico... Diga-nos, disto, a excepcional postura de um Arthur Coimbra, sempre.

 Pode até ser a origem de biografias onde, encerrada a carreira futebolística, foi-se militar na seara política, na exposição de cronista televisivo e nestas de fato, feio não se fez...

     

      Mas raríssimo se fez carreira, a partir daí, como sede de massa pensante. Crítica e perceptiva da realidade que nos cerca...

        Nisto o nosso Sócrates, brasileiro, foi um inovador... Desde a idéia da democracia corintiana, a subversiva desde a idéia de negar – desde o conceito da concentração de atletas como uma concentração de cavalos de corrida – à idéia de percepção de luta de classe, pelos jogadores, na derrocada dos contratos leoninos, fartos fazedores da miséria da velhice de inúmeros jogadores...

      Aí vem a idéia subliminar do que significava e significou a idéia de cidadania para este Brasileiro. Antes de mais nada, bem antes mesmo de qualquer fator ou desenho transformador desta cidadania, a idéia de se perceber, de se pensar, de se inserir , de se valorizar. Enquanto indivíduo, classe, massa, ou tribo. Ou antes de substrato econômico disposto à mais reles manipulação alheia, a de mercado...

       Não é doutra razão que desta hora em diante, a da chamada democracia corintiana, se galgou para outro patamar no trato com a consciência e com a importância do atleta de futebol... Passou este de manipulado, dócil e prejudicado na velhice, de massa de manobra no show dos espetáculos, à condição de protagonista, de detentor de contratos em situação melhor, participando, ao início dos nascituros direitos de imagem...

      Talvez este texto seja acusado de exagero histórico, e talvez seja culpado. Porém não é sem completa e irônica explicação a união do brasileiro Magrão com uma personalidade de fidalguia, coerência e capacidade profissional – aliás ex-atleta – Telê Santana, e este junto à sua mão férrea em dominar as condições de disciplina...

  Talvez desta união, do enfant terrible disciplinado, porém um crítico extremado das figuras da dominação (se exagero em conceito, a si mesmo concede quem desta escreva ) e do ícone da disciplina em campos brasileiros. Talvez com uma pitada, esta sempre catalisadora, da finesse de um Arthur Coimbra, nasceu a melhor seleção que este país já viu. Insuperável porque trágica. Porque nesta vida e o que conhecemos dela, o que é perfeito tem que se exaurir no trágico...Geralmente.

   A união do disciplinador com o filósofo da vida, que por acaso estava no futebol de passagem, se deu pelo viés da mais tranqüila e suave das uniões: a união pelo profissionalismo. Tanto de uma parte, com método, quanto de outra como razão de ser. Já que se queria, se percebia e se inseria como profissional melhor, sempre melhor...

     À mais justa das homenagens, ante a derrota de ontem do Palmeiras (embora fosse empate) e ante aos que viram ou puderam ver o genial Ademir da Guia jogar, não falaremos do fantástico passe doutoral de calcanhar. Desafiador de todas as premissas lógicas, como faria qualquer grande filósofo, em qualquer tablado, arena ou campo...

     Mas a melhor, o melhor da dimensão de sua cidadania viria de fato a seguir. Como um traço de escolha pessoal, de personalidade. Até mesmo antes de ser um traço intelectual. A chamada democracia corintiana, após os anos de chumbo ou no vácuo destes, representava facetas subversivas (ainda que cool) no imaginário comum. A faceta econômica, os jogadores como reais protagonistas do econômico dentro do futebol, uma vez que são eles que geram, inegavelmente, o espetáculo. A faceta moral e cultural, a do atleta com dono do próprio nariz, e não da idéia dos músculos eqüinos de corrida (quanto valeria o cérebro de um jogador de futebol, neste anterior contexto?). E a idéia ou faceta na insubordinação política, num claro ensaio do que as classes de baixo poderiam fazer e oxigenar, em anos vindouros...

      Aí reside a maior e mais decifradora capacidade deste Brasileiro em entender e contextualizar o que seria , de fato, o seu próprio país. Com a abertura, com a democracia nascente, com a brisa do potencial da liberdade política, o nosso Doutor não parou por aí. Não foi parar de se posicionar, em se perfilar politicamente com os mais progressistas, em ser até colunista em revista e periódico semanal. E abominável esta. No pensar recente, pela maior parcela dentro do tradicionalismo crescente, dentro da burguesia economicamente estável. E ao mínimo que esta revista, que este periódico pontue, posicionando-se politicamente...( bem menos cacófano e bem mais pesadelo, para esta dita classe...)

    Se o primeiro viés era o de se perceber, como saída de sua própria condição e sendo este um legado para sua classe antes de tudo, o segundo viés foi o da persistência, em fazer e continuar fazendo a leitura de que o Brasil não havia, apesar dos ventos de liberdade, lutado e mudado tudo o quanto poderia e deveria realizar... – tivesse antes escolhido lutar ou mudar mais.

    De seus textos, lê-se esta fina percepção. Seja no mundo do futebol, no mundo real, nos saltos em que fazia da memória ou no delicioso contar dos “causos”. De lá para cá e daqui para lá, em sua leitura e nos devidos ajustes contemporâneos. Como qualquer grande filósofo que o seu próprio nome lhe impunha, o nosso Sócrates nunca desistiu de explicar o que via à sua volta. Especialmente o seu próprio país.

     O País perde um expoente de cidadania, das possibilida-des desta consciência de cidadania. E do que ela poderia de fato realizar. Nós, os que percebemos, perdemos mais da mais fina, de uma aguda e profunda sensibilidade, do que nos torna humanos... Pela dimensão desta perda.

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