FONTE: http://jbonline.terra.com.br/pextra/2010/07/20/e200717886.asp

Yala Sena, Portal Terra


TERESINA - Na entrada da escola sete relógios marcam a hora exata em Washington, Londres, Cairo, Tóquio e Teresina. Logo abaixo, uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. Quem entra pela primeira vez no Instituto Dom Barreto em Teresina (PI), percebe que é um colégio que ultrapassa os limites da sala de aula e preserva as raízes religiosas. Primeiro lugar geral em 2006, a escola caiu para 15º em 2008. Em 2009, o colégio ficou em 2º lugar no ranking do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), com média 741,54, desbancando escolas de São Paulo e Rio. O primeiro lugar foi a escola Vertice (SP) com média de 749,70.

Idealizada em um Estado em que 24% da população é considerada analfabeta, a escola foi criada há mais de 60 anos pelas Irmãs Missionárias Jesus Crucificado. De lá pra cá, a instituição vem apostando na qualificação do professor - 80% têm mestrado e doutorado - e no aprendizado do alunado que atende desde criança de 1 ano e 8 meses - maternal -, fundamental e ensino médio.

No Dom Barreto, o aluno tem oito horas diárias de aula, quando a média é de 5 horas em escolas públicas. Assistem aulas de segunda a sábado. A diretora geral da escola, Stela Rangel, lembra que o Instituto foi o primeiro a adotar o xadrez como disciplina e agora está dando ênfase as matérias de Filosofia, Sociologia e Artes.

"Temos aulas que ajudam o raciocínio lógico e até o latim para a compreensão da língua", disse Stela. O colégio é voltado para alunos da classe média alta com mensalidades que variam de R$ 543,00 a R$ 647,85. No laboratório de Física, que foi todo importado, os estudantes aprendem robótica e publicam em livros suas experiências científicas realizadas no laboratório.

Professores também publicam livros. A escola tem bolsa que paga o docente para se especializar fora do Estado e em troca traz conhecimento para a sala de aula. No Dom Barreto somente um autor de gramática é adotado. Os exercícios e as tarefas são todos elaborados por professores da casa através dos projetos "Algodoeiro" e "Carnaúba".

"Tudo na escola valoriza o Piauí, desde as artes, música e literatura", disse Stela. O professor em início de carreira recebe entre R$ 706,00 e R$ 5mil dependendo da carga horária. São 268 professores no instituto. Um dos locais que chama atenção na instituição é a "Sala do Futuro" onde aluno não usa lápis e nem caderno, apenas o computador.

Leitura Uma das marcas da escola é a valorização da leitura. Em uma das salas de estudo um painel gigante avisa: "a leitura dissipa a ignorância e afasta o tédio". Percorrendo as bibliotecas espalhadas por todo um andar do colégio, Stela Rangel, se orgulha de revelar um dado. "Aqui o aluno chega a ler uma média de 15 livros no mês através do projeto Ciranda em que ele lê e troca com o colega. Não é uma leitura obrigatória, mas espontânea", avisa Stela.

Na biblioteca existe cerca de 100 mil livros e é considerada uma das maiores do Estado. Na hemeroteca, o aluno pode encontrar peças raras como a primeira edição da revista Veja, publicada em 11 de Setembro de 1968 com a manchete "O grande duelo no mundo comunista". Além das revistas que circulam no País, lá o estudante encontra também os maiores jornais nacionais e até edição do The New York Time.

Testes surpresas Para ficar no ranking das melhores do País a escola se aperfeiçoou. Fez testes surpresas com alunos, aplicou simulado sábado à tarde e chegou a visitar escolas em São Paulo, Pernambuco e Ceará para ver como eles estavam preparando os estudantes para o exame.

O resultado foi surpreendente. Dos 136 alunos que prestaram o vestibular 90% foram aprovados em universidades públicas. "Preparamos o aluno para a vida, para ser cidadão e não apenas para prestar um vestibular", avisa Stela. No Dom Barreto são cerca de 2.800 alunos, a maioria, entra na escola no ensino infantil e só sai ao passar no vestibular, percorrendo cerca de 16 anos de convivência na mesma escola.

"Aqui, os professores e coordenação chamam os alunos pelo nome, devido a tanta convivência. Sabemos os problemas da família e o comportamento de cada aluno".

Aula no recreio Essa integração foi o que impressionou o aluno Ricardo Furquim, 17 anos, quando entrou no Dom Barreto quando veio de Goiânia para estudar em Teresina há três anos. "A aproximação é muito forte entre professor e aluno. Certa vez, estava com problemas em disciplina e recebi aula na hora do recreio. O professor deixava de lanchar para tirar minhas dúvidas. Onde se acha um colégio assim", questiona o estudante que foi aprovado no curso de Medicina este ano.

Seu irmão Lucas Henrique Carvalho Furquim, 13 anos, disse que o que chamou sua atenção é a estrutura que a escola proporciona para o aluno. Ele também destacou o trabalho dos monitores que ajudam os alunos a tirarem as dúvidas. "Aqui eles não enrolam aula e o aluno não pode levar na brincadeira", disse Lucas.

Professora há mais de 10 anos, Marilene Machado, que trabalha com o público infantil disse que grande parte dos meninos e meninas matriculados no Instituto são "filhos de alunos da escola". "às vezes entram alunos que nem falam ainda, filhos de formandos da escola. Além do ler e escrever, primamos por trabalhar sua independência e a socialização", disse a professora.

Além da instituição, o Dom Barreto mantém uma casa com 150 alunos carentes no bairro Mocambinho, zona Norte da cidade.

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O texto acima foi reproduzido no Portal Luis Nassif. A seguir, dois dos muitos comentários suscitados, convindo notar que, relativamente ao primeiro, eu mesmo cuidei de lembrar ao comentarista a particularidade de que o 'reforço no recreio' diz respeito a situação excepcional, conforme exposto na própria matéria:
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Alexandre Tambelli

"Um tanto exagerado este método de ensino. Será que esta quantidade excessiva de atividades é o fundamental para se formar um cidadão e um cidadão preparado para a Vida?

Tem muitas ações bonitas lá, mas reforço no "recreio", testes surpresa no sábado, aprimoramento das técnicas de como se dar bem numa prova do Enem e vestibular não seria um pouco de exagero?

Eu questiono um pouco essa impressionante gama de atividades diárias dos alunos. A liberdade, o direito de brincar, o mundo da imaginação da criança, do adolescente, do jovem não parece um pouco menos importante por lá?

Claro que é bom ter o hábito de ler, de realizar pesquisas em ciências, de ser capacitado para os vestibulares públicos. Porém, um equilíbrio melhor entre esta busca do aluno perfeito através de muitas atividades semanais concedidas aos alunos, com suas próprias descobertas e atividades como criança, adolescente e jovem, penso ser necessário."
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Masquino

"Uma boa matéria sobre nossa escola aqui em Teresina, Nassif. Sou casado com a irmã da professora Stela e até hoje me arrependo de não ter lhe convidado para conhecer o Dom Barreto quando você esteve em Teresina. Fica para uma próxima oportunidade.

O Instituto Dom Barreto é fruto de muita dedicação à educação. Foram 32 anos sob a direção do professor Marcílio Rangel. Ele e suas irmãs sempre se dedicaram ao colégio de forma quase religiosa.

Foi da lavra de Marcílio a criação da Escola Popular Madre Maria Villac (décima oitava no Piauí) e hoje com 700 alunos. Fica no bairro do Satélite, na zona periférica de Teresina. Dele também foi a ideia de criar a Casa Dom Barreto, onde vivem quase 200 meninos e meninas até os 18 anos.Vários dessa casa conquistam vagas em universidades públicas estudando no Madre Maria Villac. No começo desse ano um deles se formou em medicina na UFPI - um caso fascinante de superação de si mesmo.

Deve se registrar, também, que você pode encontrar bons professores em todas as áreas aqui em Teresina graças à Universidade Federal do Piauí, Universidade Estadual do Piauí, IFET e na rede privada de ensino superior que vem crescendo e buscando se aprimorar.

Fica o convite, Nassif. Quando vier ao Piauí, Stela, Marcela (a filha de Marcílio) e toda a família vão te falar do Projeto Dom Barreto.

Um grande abraço!"
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(Nassif aceitou o convite).
Prof. Marcílio por João de Deus NETTO.

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Comentário de Denilson Botelho em 13 setembro 2010 às 23:12
Discordo respeitosamente do Tambelli. Logo cedo uma criança pobre aprende que a única forma de crescer e se desenvolver honestamente é trabalhando e estudando muito. Mas quando se trata de crianças de classe média ou alta, logo alguém passa a mão pela cabeça e diz "coitadinha, estudando tanto!" No IDB ninguém faz milagre não, apenas se trabalha e se estuda muito, sempre, o tempo todo. Como pede a vida. Vida é trabalho! As férias existem para o lazer. Tudo que sou hoje devo aos estudos.
Comentário de Gregório Macedo em 14 setembro 2010 às 4:13
Denilson,
Sua abordagem é interessante. Há que se levar em conta, porém, que o Tambelli destacou a possibilidade de um equilíbrio entre as realidades descritas.
Um abraço, e grato pelo comentário.

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