DON GIOVANNI OU DRÁCULA DA RUA AUGUSTA. CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.

No dia em que comemora 102 anos o Theatro Municipal de São Paulo apresenta uma das mais famosas óperas o repertório, Don Giovanni de Mozart. Difícil enquadrar esse título em um período histórico, ópera de caráter psicológico com relações conflitantes onde personagens mostram sua complexidade amorosa e sentimentos universais. Tudo isso unido a maravilhosa melodia mozartiana. O teatro brasileiro levaria mais de 200 anos para fazer algo do tipo, Vestido de Noiva de Nelson Rodrigues apresenta personagens com ênfase no psicológico e no subconsciente.

A produção de Don Giovanni veio pronta do Chile, mais uma vez recheada de estrangeiros. Tudo básico seguindo a linha das montagens tradicionais, nada de diferente, nada que dê um soco no estômago do espectador. A direção cênica de Pier Francesco Maestrini fica no óbvio e muitas vezes acaba no ridículo. Transformar o personagem principal em Drácula e esse ser parecido ao de Francis Ford Coppola no filme Drácula de Bram Stoker não é nada inovador e não tem a menor graça. Parece mais um personagem esquisitoide que perâmbula pelas madrugadas na Rua Augusta (conhecida rua paulistana, parte dela recebe público descolado nas noites de fim de semana, onde restaurantes e baladas se misturam a inferninhos). Os camponeses virarem fidalgos é outra ideia que não cola, fica sem sentido no libreto. As cenas do baile parecem mais uma comédia pastelão. O diretor conteve os solistas, deixou-os estáticos e sem movimentação. Alguns colegas verão genialidade nessas bobagens, esses escrevem em uma revista, sempre sentam na fileira I (convidados da direção) e tem a obrigação de fazê-lo.

Os cenários de Juan Guillermo Nova seguem a tendência idealizada pelo diretor e se mostram sombrios e escuros com colunas que se movimentam para o nada. Projeções com telas é uma ideia batida que sempre funciona bem e mais uma vez foi utilizada. Os figurinos de Lucca Dall'Alpi remetem ao filme de Coppola e a Luz de Pascal Merat é quase inexistente, se perde no meio da escuridão da transilvânia.

A Orquestra Sinfônica Municipal regida por Yoram David mostrou interessante musicalidade mozartiana e volume correto. O regente teve a sensibilidade de segurar a orquestra para ajudar alguns solistas que estiveram em péssima noite, tempos lentos são devido a isso. O Coral Paulistano se mostrou eficaz em sua pequena participação.

O que falar dos solistas! Foi um festival de lambanças. Começo com uma grande decepção, Luísa Kurtz esteve fantástica na ópera The Turn of the Screw no Theatro São Pedro/SP no primeiro semestre, teci a ela diversos elogios. Esperava muito da bela gaúcha, infelizmente ela não se entendeu com a personagem Zerlina ou será que o tamanho do teatro ou a estreia a intimidou. Voz sem brilho, opaca e pequena. Timbre sem nuances, voz uniforme com agudos ásperos. Outra que pisou no tomate foi o mezzo-soprano Monica Bacelli, a moça cantou mal pacas e emprestou agressividade à Dona Elvira. Técnica fraca com agudos deficientes e médios inconsistentes na defesa das árias. Sua participação no segundo ato é para esquecer, apagar da memória para sempre. Nem imagino como e por que escalaram esse mezzo, a moça não tem condições de cantar nem no saguão do Theatro Municipal de São Paulo.

Andrea Rost fez uma boa Donna Anna, mostrou uma voz com belo timbre com agudos ricos e pujantes emitidos de forma sedutora. Bela exibição, um soprano digno do Municipal. O melhor da noite foi Enea Scala, o tenor mostrou toda a gama de agudos e um timbre rico em beleza. Voz brilhante e sedutora, convincente e marcante em todos os registros. Defendeu sua grande ária com maestria, abusou do belo fraseado e se mostrou um grande cantor.

Davide Luciano fez o primeiro ato com voz mediana e a contento, mas nada excepcional, por problemas de saúde pediu para ser substituído. Saulo Javan entrou em campo no segundo ato e mostrou todo um repertório de belos graves em uma voz que prima pela solidez. Fez um Leporello de alto nível.

O personagem principal ficou a cargo do baixo Nicola Ulivieri, o bonitão apresentou, travado pela direção, uma atuação cênica modesta. Voz com bons graves, ricos e brilhantes. Manteve consistência em toda a récita e conseguiu dar credibilidade ao personagem que adora sugar o sangue das vítimas.

O programa cedido ao respeitável público é de qualidade ímpar. Textos, tradução do libreto e biografias em um papel superior fazem dele objeto de desejo. Só não entendo por que eles sempre acabam e a maioria fica sem . É tão difícil saber a quantidade de pessoas que vai ao teatro e entregar um para cada cidadão na entrada, na hora que você mostra seu ingresso recebe um programa. É tão difícil fazer isso.

Ali Hassan Ayache

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