Crônica
Outra carta da Dorinha

Recebo outra carta da ravissante Dora Avante. Dorinha, como se sabe, lídera um grupo, as Socialaites Socialistas - Tatiana (“Tati”) Bitati, Suzana (“Su”) Perficial, Jussara (“Ju”) Juba, Cristina (“Ki”) Bobagem e outras - , que luta pela implantação no Brasil do socialismo soviético na sua fase mais avançada, que é a restauração do tzarismo. Inclusive descobriram um garçom na Penha descendente dos Romanov que concordou em ser tzar desde que conte tempo para o INPS e estão preparando para o cargo com aulas de etiqueta, danças de salão e despotismo. Mas hoje, segundo Dorinha, a palavra que melhor descreve o grupo é “tremebundas”. Mesmo as que fizeram lipo. Mas deixemos que ela mesmo nos conte a razão do nervosismo. Sua carta veio, como sempre, escrita com tinta violeta em papel turquesa encabeçado pelo seu nome em relevo com um espaço em branco para o sobrenome do marido do momento, se houver. Mas desta vez com a letra trêmula.

“Caríssimo! Beijos sombrios. Estamos preocupadíssimas. Como você sabe, deve-se tomar algumas precauções para viver no Brasil com um mínimo de tranqüilidade para a nossa prataria. Quase todas moramos em andares altos, de onde se pode sinalizar diretamente para a Quarta Frota americana, se for o caso. Mas o que nos ameaça agora não é a massa arrombando a porta, chutando nossos cachorros com grife e levando nossas roupas com pedigree - é a polícia! Um dos meus maridos, cujo nome me escapa no momento, dizia que não há maior ameaça à paz social do que uma polícia íntegra e, pior, exibida. E a polícia está prendendo gente como a gente, numa escandalosa inversão de critérios! Nunca se viu isso no Brasil. Onde ficam os velhos valores? Onde fica o respeito? Mais importante: que roupa pode ficar bem com algemas na TV? Uma das nossas companheiras, Constância (“Cocó”) Ricó, sugere que se olhe o lado bom da coisa. (Foi Cocó quem nos convenceu a descer do avião que nos levaria para Miami depois da eleição do Lula com a notícia de que o Meireles iria para o Banco Central e não havia nada a temer). Ela diz que, já que estaremos todas fatalmente em alguma lista do Dantas, poderemos ficar juntas numa cela e começar a reforma do sistema carcerário brasileiro por dentro, nem que seja só com alguns retoques na decoração. E mesmo se não conseguirmos, é certo que haverá uma grande melhora nas prisões do pais, para receber a nova e exigente clientela. E que ela quer ver falarem mal da elite brasileira depois. Sei não. Só quero saber se vão deixar eu levar a bolsa de água quente (Vuitton) que comprei para substituir meu último marido. Beijo, talvez o último em liberdade, da sua Dorinha.”

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Comentário de Dulce Leão em 13 julho 2008 às 20:21
:) Tereza

Adorei este texto do Luís Fernando Veríssimo. Êle tem uma ironia fina, maravilhosa. É bárbaro :)) E o pior é que já encontramos com algumas "Dorinhas", e elas "se acham"...

:)) Ah, gostei muito da "sua foto". Acho que já a conheço de algum lugar. Talvez tenhamos sido amigas em alguma época, ou quem sabe colegas de trabalho. hahahahahaha

Beijo

Dulce.

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