No tempo das diligências máquinas de escrever, eu recebia muitas correspondências do Dr. Carta Pácio. Em geral, eram cartas bastante longas e minuciosas. Nesta, porém, Dr. Carta Pácio abandonou o habitual estilo gongórico e foi direto ao cerne de uma questão.

"Prezado senhor:

O que vou lhe comunicar é baseado em pesquisas que tenho feito sobre a vida e a obra de um notário chamado Leclair. Foi ele que, no ano de 1843, descobriu que, se as palavras fossem cortadas ao meio, horizontalmente, e deixadas apenas com a metade superior, essas palavras seriam lidas e reconhecidas.
Com os pontos, as vírgulas e as reticências sendo sacrificados, dificuldades surgiriam para se pausar os textos. Entretanto, as aspas, os apóstrofos e os acentos seriam preservados. Meno male!
Pense o senhor na economia que o mundo faria em tintas de impressão. Atrevo-me a profetizar que, no futuro, os cartuchos de tinta estarão entre as coisas mais caras e inacessíveis. Poderá inclusive a humanidade sucumbir numa guerra dos pigmentos.
Avalie também como ficaria melhor a vida das pessoas que leem nas entrelinhas, já que elas (as entrelinhas) ficariam mais generosas. E os analfabetos, como num passe de mágica, seriam transformados em cidadãos meio-analfabetos, o que reduziria à metade essa chaga nacional.
Siga os ensinamentos de Leclair, meu senhor, e não tema que os outros o chamem de um homem de meias palavras.

Cordialmente seu,
Dr. Carta Pácio"

Não é que o Dr. tem razão! Assim é que, o mais cedo possível, levarei minha máquina de escrever a um técnico a fim de que ele suprima a metade inferior das letras. Enquanto isso, eu não vou sublinhar mais nada.


Marcadores: carta, palavras


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