Para Sérgio Vieira de Mello in memoriam

Há no mínimo 28 anos, assisti umas reportagens que diziam respeito à fome na Etiópia. Uma das imagens divulgadas marcou-me profundamente: a de uma mãe que teve o filho morto enquanto tentava amamentá-lo numa de suas tetas secas. Escrevi um texto à época:

“a fome está fazendo trapos
palhaços que estão sempre fantasiados
seus órgãos internamente queimam
dos seus olhos turvos cai uma lágrima
são seres humanos
indigentes
que morrem de fome
sem saber quem ou o quê
és tu?
estado-etiópia
estado-ruanda
estado-mogadício
estado-de-miséria”.

Em 1985, sob o comando do músico irlandês Bob Geldof e do guitarrista escocês Midge Ure, mais Sir Paul McCartney, Bono Vox e The Edge (U2), Boy George, dentre outros tantos artistas no topo da música britânica, deram início a um movimento mundial conhecido por Live-Aid. Este movimento foi criado para levantar fundos em prol da população faminta que estava sendo reduzida à trapos e passando pelos extremos da miséria e da falência humana, principalmente na Etiópia.

Foram dois grandes concertos: um na Inglaterra - no estádio de Wembley, em Londres – e o outro nos Estados Unidos da América – no estádio John Kennedy, em Filadélfia. Outros artistas apresentaram-se em Moscou, Japão e Sydney (Austrália). Até hoje, é considerada uma das maiores transmissões mundiais para um evento via satélite, ao vivo, estimado em 1,5 bilhão de espectadores, espalhados em mais de 100 países.

O concerto foi concebido como a continuação de outro projeto de Geldof e Ure, o bem-sucedido compacto "Do They Know It's Christmas?", que tem a letra da música traduzida, abaixo:

É natal, Não há necessidade de ter medo.
No natal, nós deixamos a luz e banimos as máscaras,
E no nosso mundo de fartura, Nós podemos espalhar um sorriso alegre.
Abrace o mundo no natal.
Mas diga uma prece e a reze por todos.
No natal, isto é duro, mas também é divertido.
Existe um mundo do lado de fora da sua janela.
E é um mundo de pavor e de medo.
E este florescer das águas é a aflição amarga das lágrimas.
E os sinos do natal soam aqui.
E sua harmonia soando pelas ruínas.
Essa noite agradeça a Deus por serem eles ao invés de você.
E não haverá neve na Africa neste natal.
O maior presente esse ano é a vida.
Onde nada nunca cresce, Nem a chuva e os rios fluem.
Será que eles sabem o que é natal ?
Você está aqui, levante suas lentes para todos.
Eles estão aqui embaixo deste sol ardente.
Será que eles sabem o que é natal ?
Alimente o mundo, deixe que eles saibam o que é natal.
Alimente o mundo, deixe que eles saibam o que é natal.
Alimente o mundo, deixe que eles saibam o que é natal.
Alimente o mundo, deixe que eles saibam o que é natal.

Por um outro lado, segundo o pesquisador e especialista em problemas africanos Alex Waal, diretor do Social Science Research Council “a ajuda humanitária prolongou a fome, e com ela, o sofrimento humano”.

A quantia final arrecadada ultrapassou 283 milhões de dólares. As expectativas iniciais eram de 1 milhão de libras: foram conseguidos mais de 150 milhões de libras esterlinas.

Muitos críticos desse movimento, Live-Aid, argumentaram que as doações para organizações de caridade acabam também sendo usadas por governos corruptos. Uma grande parte dos fundos angariados foram para Organizações Não Governamentais na Etiópia, algumas dessas, sob a influência ou controle da junta militar do Derg (grupo de soldados organizados desde 1974; depuseram o imperador Haile Selassie). Alguns jornalistas sugeriram que o Derg foi capaz de usar o dinheiro da Live Aid e do Oxfam (fundação de caridade internacional com sede em Oxford, Reino Unido) para fundação de seus programas de resistência armada, desalojando próximos de 3 milhões e matando entre 50.000 e 100.000 pessoas.

Bono Vox em entrevista ao repórter Tim Russet disse que é a corrupção, e não doenças ou fome, o principal problema da África, dizendo-se concordante com a idéia de que organizações estrangeiras deveriam decidir o futuro das doações. Disse também que era melhor continuar investindo em prol dos necessitados do que abandoná-los com medo de um provável roubo, de que o dinheiro fosse entregue em mãos de governos corruptos.

Parece que o mundo está dividido em duas grandes partes: a dos que vão a festa e os que ficarão de fora dela. Esses, de uma certa forma ou de outra fazem parte do contexto. Mas, quase ninguém percebe é que tem uma imensa parcela de quase 1 bilhão de pessoas que, sequer, foram convidadas para assentarem-se a mesa do grande banquete: para essas, o mundo simplesmente não é, nunca foi e nem nunca será: para essas, quase 1 bilhão de pessoas nada acontece. E, não estão tão distantes de nós: só em América Latina foram 51 milhões em 2007.

Segundo a Organização Médicos Sem Fronteiras, aproximadamente, cinco milhões de crianças morrem, por ano, vítimas da fome aguda. "A realidade no campo é que MSF e a comunidade humanitária são incapazes de fazer nem sequer o suficiente para as populações que precisam de ajuda médica vital", diz o Dr. Fournier, Presidente do Conselho Internacional de MSF, no sítio da Organização no Brasil (http://www.msf.org.br/noticia/msfNoticiasMostrar.asp?id=966).

A MSF, que foi a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz de 1999, divulgou a décima primeira lista contendo as dez maiores crises humanitárias (conflitos esquecidos pela mídia mundial). Fazem parte da lista: Somália, Mianmar, Sudão, Congo, Etiópia, Zimbábue, Iraque, Paquistão; e mais os problemas: co-infecção HIV-Tuberculose e a desnutrição infantil. Comenta o Dr. Fournier, que "com a divulgação desta lista, esperamos chamar a atenção para essas pessoas que tanto precisam, depois de ficar cercada entre conflitos e guerras, afetadas pelas crises de saúde, e que têm suas necessidades de saúde essenciais e imediatas negligenciadas, essas pessoas que não têm voz. Em alguns desses lugares, MSF é uma das únicas organizações independentes que leva assistência humanitária”.

Será um espanto ou não, para todos, o retorno, neste final de ano das imagens de Madonnas famélicas ostentando em suas tetas secas, crianças com cara e aspecto de velhinhos que não sorriem? Depois de tanto tempo, ainda, por que insistem ocupar as telas dos noticiários e as capas de revistas semanais? Ou, essas mesmas figuras nunca deixaram, nem nunca deixarão de existir? Não. Não é de se espantar com a atualidade do texto: que insiste em permanecer materializado em vida real.

Fiz minha opção: Ajudar na divulgação dessa lista de crises humanitárias e solicitar que as pessoas possam ao mais, sensibilizarem-se e ajudarem da maneira que lhes possa ser adequada, é muito mais do que o caráter informativo e uma obrigação: é um algo que valha a pena fazer no ano que vem e nos vindouros. Infelizmente, tudo isso não será a certeza de que, não teremos que olhar esses olhares vazios, uma vez mais, às vésperas do Natal.

Enquanto isso, fico, ouço e concordo, há muito tempo, com a Adriana Calcanhoto em sua canção “Senhas”:

O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos modos
Não gosto
Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem...


Fábio Christiano Duarte
fabiochristianoduarte@gmail.com

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