O colunista Gilberto Dimenstein é um dos que mais se dedicam a analisar questões educacionais do país. E deve ser elogiado por isso. Há algum tempo, no entanto, vem fazendo da sua coluna um manifesto de apoio às medidas de Serra na educação. O rigor jornalístico recomendaria alguma cautela nesta empreeitada.

Não por ser o governo Serra ou qualquer outro tucano, bem entendido. Seria tolice que se usasse o mesmo espaço para dizer que governos petistas ou de qualquer outra facção partidária dominam sozinhos as melhores soluções para as graves questões do ensino brasileiro.

O que estou afirmando é que a "panfletização da educação" é um erro pouco perdoável para quem a leva a sério.

Na mesma semana, em que anunciou que Serra estaria inaugurando uma "revolução na educação", veio a notícia de que havia erros no sistema de compra dos livros didáticos pelo governo do Estado (o tal caso dos dois Paraguais); depois as notas do ENEM mostraram que pouco melhorou a educação paulista, com dois anos de governo Serra; e por fim agora este novo indício de descuido no sistema de compra, com livros adultos incluídos.

Antes, em defesa do Governo Serra, e contra professores em greve, Gilberto Dimenstein fora bastante desrespeitoso com a categoria.

Seria leviandade acreditar que estes erros na compra de livros são intencionais - ou que as notas do ENEM devem-se necessariamente à ausência de medidas "simples". A questão é muito complexa, daí a necessidade do bom debate.

Da mesma forma que foi leviandade de um jornalista da Globo anunciar que o Governo Federal distribuia (intencionalmente) livros com "doutrinação esquerdista".

O mesmo jornalista não vai perguntar absolutamente nada sobre "o que ensinam às nossas crianças", com o evidente problema nas compras de livro de São Paulo. Nem o site "escola sem partido" vai dedicar colunas a estes erros lamentáveis. Mas deste site não se espera muita coisa. Deste jornalista também não.

Mas quanto a Dimenstein, poderemos dizer: "Que pena!" O jornalista da Folha reconheceu os problemas em algumas de suas colunas, de forma sutil, mas fica evidente que se engajou de maneira descuidada na propaganda do governo paulista.

Há um bom conselho para jornalistas: quando se elogia governo, deve-se ter três pés atrás: os nossos e aquele do coelho.

Problemas na educação brasileira há e muitos e diga-se de passagem nem FHC nem Lula, embora com evidentes avanços (que não podem ser desconsiderados) conseguiram uma verdadeira mobilização nacional para sanar estas falhas.

A imprensa, no entanto, pode ajudar os próximos governos a superar os problemas. A panfletização da discussão (insisto no neologismo), no entanto, é o pior caminho.


19/05/2009 - 08h37
SP distribui a escolas livro com palavrões

da Folha Online

Hoje na Folha Livros contendo expressões como "chupa rola", "cu" e "chupava ela todinha" foram distribuídos pelo setor de educação do governo José Serra (PSDB) como material de apoio a alunos da terceira série do ensino fundamental (faixa etária de nove anos), segundo reportagem publicada na edição desta terça-feira (íntegra disponível para assinantes do UOL e do jornal) assinada pelo jornalista Fábio Takahashi.

O texto informa que o governo estadual reconheceu o erro na distribuição dos 1.216 exemplares e determinou o recolhimento das obras.

O livro contém 11 histórias em quadrinhos produzidas por Caco Galhardo --também quadrinista da Folha. Uma das histórias mais criticadas por especialistas traz uma caricatura de um programa de mesa-redonda de futebol na TV.

Enquanto o comentarista faz perguntas sobre sexo, jogadores e treinadores respondem com clichês de programas esportivos, como "o atleta tem de se adaptar a qualquer posição".

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Comentário de Ana Paula F. Farago em 1 novembro 2009 às 14:42
"Antes, em defesa do Governo Serra, e contra professores em greve, Gilberto Dimenstein fora bastante desrespeitoso com a categoria."
Realmente não consigo ver o desrespeito com os professores lendo o texto original.
E o desrespeito ao aluno - razão da existência do professor e escolha primeira deste - com a alta rotatividade?
"A culpa da péssima qualidade de ensino não é, claro, só do professor. O sindicato faz muito bem em lutar por melhores salários e melhores instalações físicas. Faz bem em criticar a interrupção dos planos, num vai-e-vem deletério de políticas públicas. O professor é, em muitos aspectos, uma vítima --a começar da violência que sofre nas escolas e das salas superlotadas."
Gostaria que esclarecesse mais seu ponto de vista.

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