Ele



Claro, é o sol vazando a cortina de filó. Vejo Lola tirando a roupa e seu corpo enxuto parece feito para o flamengo. Linda.
Suas pulseiras dançam do punho ao antebraço a cada movimento das mãos,
executando a trilha sonora para a encenação que ela faz diante do espelho, o
vestido vermelho seguro pela cintura e apertado contra o peito. A cama está
cheia de vestidos rejeitados. Sei que
ela quer impressionar seu novo amor, o tal pintor que estréia a exposição para a qual estamos
indo.



Nosso antigo quarto não tem mais nada meu. Sobre a bancada da janela muitas fotos,
nenhuma minha. Todas as minhas roupas estão no quarto do nosso filho,
agora que ele mora sozinho.



Um cansaço enorme invade meu corpo e penso que poderia me estender naquele pequeno espaço que sobrou sobre a cama e dormir para sempre. Meu paletó amarrotado vai
fazê-la ficar furiosa. Não posso mais encará-la. O copo de uísque já está vazio
pela terceira vez e o gelo é apenas um casca fina que desaparece rápido
enquanto encho o copo.



Lola se volta para mim , rodando o vestido, e as pulseiras tornam a tilintar. Seus olhos estão brincando de gato e rato, como costuma fazer quando quer me
provocar. Eu só penso que não agüento mais o som dessas pulseiras. O álcool
aumenta o sono e bocejo sem tentar disfarçar, mas não tenho coragem de
dizer-lhe que não quero ir. Que não quero mais participar dessa comédia que é a
nossa vida. Que não vou mais tolerar aquele pintorzinho medíocre nem aquela
gente falando besteiras sobre arte.



Saio do quarto e desço devagar as escadas, enquanto ela se troca. A porta está tão perto que não resisto, e o ar frio da tarde que cai me dá o fio de ânimo que
estava precisando. Atravesso a calçada, a rua, a segunda quadra e de repente
meu passo é apressado, estou correndo, estou livre dela para sempre.




Ela




Contemplo os retratos sobre a bancada da janela, na penumbra do quarto. A cortina de filó não impede o sol, que entra no
quarto mas não ilumina, agora que o dia já vai terminando. Num dos retratos sou
a noiva de branco, um sorriso de anúncio de dentifrício e flores de laranjeira
na grinalda. Noutro uma adolescente de cabelos duros de laquê e maquiagem
carregada, o mesmo sorriso de muitos dentes, com a clássica pose das dançarinas
de flamengo, um braço estendido, o outro para trás, o rosto erguido. Noutra
bebês gorduchos no colo, rosto sério, sem sorriso. Crianças. Adolescentes.



Em cima da cama, todos os vestidos. Procuro conter a alegria que me dá experimentá-los em frente ao espelho, rodando e ensaiando os passos da minha
dança. Ele me olha através do copo e vejo que não quer sair comigo. Já está
bêbado e ainda não são seis horas. Ele sabe que Rodrigo e seu charme, seus
quadros, sua paixão, me esperam no salão azul do River Place. Quero um vestido
que permita o xale espanhol de minha mãe, tecido em seda fina, como uma teia de
aranha. Meus braceletes o irritam, Rodrigo o irrita, os vestidos sobre a cama o
irritam. Esta é a minha hora. Olho-o com um sorriso que certamente o irritará.
Como uma lagarta na crisálida me deixei ficar todos esses anos, me alimentando
dos sonhos aprisionados num álbum de fotografias. Parecia impossível que as
asas se desdobrassem e ganhassem o espaço. Nem ele nem eu acreditamos e no
entanto alço vôo. Um vôo seguro. Ontem
voltei a dançar. As batidas do saltos no palco, as castanholas e toda a paixão
explodiram em aplausos. Depois o camarim repleto de flores, luzes, gente,
Rodrigo.



Posso ver nos seus olhos que está cansado e meu sorriso é a prova de que não ligo mais. Encerro com esse sorriso os anos de reverência aos seus discos de jazz, ao seu humor fino, aos
seus flertes descarados. Estou linda, segurando o vestido vermelho em frente ao
espelho e as estrelas nos meus olhos iluminam o quarto, que começa a escurecer
com o fim da tarde.

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