Em Cartaz, a Memória do Cinema Mudo em Sampa

Teatro São Pedro. Inauguração em 1916: local virou casa de ópera e hoje não existe resquício do passado cinematográfico


por Edison Veiga


"Se havia uma máquina exibindo um filme, está em nossa pesquisa." A frase pode parecer pretensiosa, mas é o resumo da árdua tarefa que, nos últimos anos, consome o tempo do historiador José Inacio de Melo Souza: mapear, um a um, todos os espaços exibidores de cinema em São Paulo entre 1895 - quando a novidade chegou por aqui - e 1929, quando a sétima arte perdeu a mudez.


Viabilizado por uma parceria entre o Arquivo Histórico Municipal e a Cinemateca Brasileira, o inédito levantamento, em fase de conclusão, já tem em sua base de dados mais de 400 verbetes - incluindo empresários do ramo, exibidores, equipamentos e 150 salas que funcionaram no período na cidade de São Paulo. Previsto para junho, o trabalho deve ser disponibilizado para consulta na internet.


Cada item da pesquisa traz curiosidades que ajudam a contar um pouco sobre esse passado não tão distante, quando a sala escura e as imagens em movimento transmitiam ao paulistano, mais que entretenimento, a ideia de que o propalado futuro havia chegado. "Observamos uma evolução desses espaços de lazer, oscilando entre interesses de exibidores e a necessidade de controle da Prefeitura", avalia o historiador. "O cinema sempre foi uma atividade comercial, tendo à frente um empresário querendo lucrar com a novidade."


Podemos dividir cinemas antigos de São Paulo em cinco grupos: os ambulantes, os salões adaptados, os barracões de zinco, os do período de adaptação e as construções novas. Óbvio que as datas que delimitam os grupos não são estanques, mas vale destacar os períodos em que cada um se destacou.


"No início, os donos de equipamentos cinematográficos arrendavam espaços teatrais já existentes na cidade para expor pequenos filmes", explica Souza. Exemplo desta fase, que ocorreu principalmente entre 1895 e 1904, é o Teatro Santana, que ficava no número 20 da Rua Boa Vista, no centro. Ali, 14 companhias diferentes se alternaram nas exibições e o público chegava a 1.186 pessoas.


Salões e barracões. Entre 1904 e 1907, São Paulo viu uma nova serventia nos imensos sobrados, outrora residenciais. "Como havia lugar vasto para a acomodação das cadeiras e dos projetores, passaram a ser aproveitados pelo incipiente mercado cinematográfico." Exemplo é o Paulicéa Phantastica, que ficava no número 5 da Rua do Rosário, também no centro.


O próximo passo foi o surgimento de espaços já construídos especialmente. Bem rudimentares, é verdade. "Predominavam os barracões de zinco e o cinema chegava à periferia da época, como a Lapa", conta Souza.


Legislação. Foi quando o poder público voltou seus esforços para disciplinar o setor. Em pauta, os riscos à população - as películas, altamente inflamáveis, eram causa de frequentes incêndios e os projetos dos barracões não atendiam a requisitos mínimos de segurança. "A Prefeitura começou a exigir que os prédios fossem feitos de alvenaria, por exemplo", diz o pesquisador. "Em 1916, ano seguinte a um incêndio no Politheama, um projeto de lei tramitou na Câmara procurando normatizar o setor."


"Até então, os cinemas em geral nem sequer tinham banheiros", exemplifica. "A lei vem para acertar o que eram pequenos arranjos dos exibidores." As regras - rigorosas para a época - assustaram bastante o mercado cinematográfico paulistano. Tanto que são raríssimas as casas construídas logo após a aprovação da lei.


Uma exceção é o Teatro São Pedro, inaugurado na Rua Barra Funda justamente em 1916. Existe até hoje - embora tenha se transformado em uma casa de óperas, deixando na história sua vocação exibidora de filmes. De acordo com a administração do espaço, não há ali qualquer resquício de seu passado cinematográfico.


Dos 150 endereços levantados por Souza, aliás, o único outro que guarda semelhança com o cinema da época é o Paramount, fundado em 1929, hoje Teatro Abril, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio - também não mais um cinema, e sim um teatro. A década de 20, derradeira do cinema-mudo, é quando a cidade vê nascer os verdadeiros palácios cinematográficos, como o República, com capacidades que chegavam a 3 mil lugares.

Em meio a tantos rolos de história, ao observar que nenhum espaço do período analisado persiste com a função, Souza só não gosta de saudosismo. "Detesto o discurso que defende que o cinema deveria ser endeusado, permanecendo intacto", afirma. "A cidade está em ebulição. Os imóveis não são estáticos."

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Todo trabalho de resgate histórico da nossa cultura é válido, independente se concordamos ou não com as teses do pesquisador. Outro aspecto importante de toda pesquisa é a sua socialização, via os mais diversos meios de comunicação.



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Fonte:
- Jornal o Estado de São Paulo (edição de 02/05/2010).
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Exibições: 112

Comentário de Gilberto Cruvinel em 5 maio 2010 às 2:08
Oi Laura,

No Teatro São Pedro, eu assisti na década de 80 a montagem de Macunaíma de Antunes Filho

Beijo
Gilberto
Comentário de Laura Macedo em 5 maio 2010 às 22:46
Gilberto,

As vezes imagino que estou dentro de um desses Teatros assistindo um filme mudo ao som do piano do Ernesto Nazareth. Com certeza, eu adoraria.

Radamés Gnattali tocando Carioca, de Ernesto Nazareth (1ª parte), na década de 80, acompanhando um filme mudo (Brasa Dormida, de H. Mauro), como se fazia nas sessões de cinema no início do século, época de Nazareth.


Beijos.

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