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Eppur si Muove

Ivanisa Teitelroit Martins

 

         "Menos que nada", último livro de Slavoj Zizek, é uma tentativa de pensar as consequências da expressão eppur si muove. A fórmula em sua forma mais elementar: “mover-se” é o esforço de alcançar o vazio, coisas se movem, há algo, ao contrário de nada, não porque a realidade é mais que o nada, mas porque a realidade é menos que nada.

         A crítica de Hegel a Kant é de que Kant situa as antinomias na limitação da nossa razão em vez de situá-las nas coisas em si, em vez de conceber a realidade em si como rachada e antinômica. Para Hegel o propósito da análise dialética é demonstrar que cada fenômeno falha a seu próprio modo, implica em uma rachadura, um antagonismo, um desequilíbrio. Hegel vê em tudo que é vivo os traços de sua futura morte.

         Para Hegel o lugar peculiar do processo é a Coisa em si. Porém há limitações nesse horizonte pela incapacidade de Hegel pensar a pura repetição e tematizar a singularidade do que Lacan chamou de objeto a, o fato de Lacan ter chegado ao fim de seu trabalho com uma abertura inconsistente.

         Alain Badiou procura pensar por intermédio de Lacan e ir além dele, mas tem clareza de que o único meio de superá-lo é através do seu pensamento.

         Quando Lacan privilegia o falo, isso não significa que a diferença sexual seja estruturada ao longo do eixo de sua presença ou ausência - o homem tem, a mulher não tem. Para Lacan o significante fálico não é a característica cuja presença ou ausência distingue o homem da mulher: nas fórmulas de sexuação (Seminário Mais, ainda) , ele está em ação em ambos os lados, masculino e feminino e funciona como operador da relação impossível (não relação) entre S e J, sujeito que fala e jouissance – o significante fálico representa a jouissance acessível a um ser que fala, integrado na ordem simbólica. Só existe um sexo mais o não-Todo que resiste a ele, só existe uma jouissance fálica mais um X que resiste a ela, embora em sentido estrito, esta fórmula não existe, uma vez que “não há outro gozo que não o fálico”. Na medida em que o sujeito do significante, sujeito barrado é a  exceção à universalidade simbólica e o objeto a é seu contraponto objetal, a fórmula lacaniana da fantasia S barrado punção de a é mais uma versão dessa mesma não relação impossível: a não relação entre o lugar vazio sem nenhum elemento que o preencha e o elemento excessivo sem lugar.

         Segundo Guy Le Gaufey em   o não-todo de Lacan  "cada sexo não é a negação do outro, mas um obstáculo ao outro: não algo cuja identidade é tolhida por dentro pelo outro. Os sexos são mais que um e menos que dois: não podem ser contados como dois, há apenas um e algo, menos que algo, porém mais que nada, que lhe escapa. Em outras palavras, 1+a antecede 1+1".

         Lacan define sua posição como a do realismo da jouissance, o que não significa elevar a jouissance a algum tipo de Em-si substancial que resiste à captura dos semblantes simbólicos. Para Lacan, a jouissance é uma substância estranha sem positividade substancial. Causa rachaduras distorções e desequilíbrios na tessitura dos semblantes simbólicos.

         Esta introdução nos remete a outras questões que não são necessariamente da ordem da sexualidade, stricto sensu, mas da teoria e do objeto do conhecimento. A partir dessas questões de fundo podemos ingressar em um debate que não só agrega diferentes tipos de conhecimento e raciocínios e até mesmo precipitam atos culturais e políticos, mas acima de tudo procuram analisar detidamente a lógica do significante e a psicanálise, sua teoria e prática.

         Em seu livro sobre a modernidade Fredric Jameson critica as modernidades alternadas do período pós-moderno. O recurso à multitude, a partir da noção de modernidade, constituiu modernidades múltiplas, cada uma delas irredutível às outras. Este recurso é falso porque a multiplicação funciona como uma denegação do antagonismo que pertence à noção de modernidade como tal. Na medida em que esse antagonismo pode ser designado como uma dimensão “castradora” e na medida em que, segundo Freud, a renegação da castração é representada como multiplicação das representações do falo (um sem-número de falos sinaliza a castração, a falta do um) – é fácil conceber tal multiplicação de modernidades como uma forma de renegação fetichista.

         A crítica de Jameson à noção de modernidades alternadas fornece um modelo para a relação propriamente dialética entre o Universal e o Particular. A diferença não está no lado do conteúdo particular mas no lado do Universal. O Universal não é o meio pacífico para o conflito de particularidades, mas é o lugar de um antagonismo ou contradição insuportável. E as multitudes são tentativas de dominar esse antagonismo. O Universal nomeia o lugar de um Impasse, uma questão premente e os particulares são tentativas fracassadas de respostas a esse problema.

         Guy Le Gaufey aplica a lógica da universalidade e sua exceção constitutiva à relação entre a teoria psicanalítica e a prática clínica. Na visão teórica padrão, casos particulares são usados para verificar um conceito geral como o da paranoia. Le Gaufey interpreta casos concretos como exceções constitutivas: cada caso “rebela-se”contra sua universalidade, nunca a ilustra simplesmente. Por causa dessa má leitura nominalista-empirista da lógica da exceção Le Gaufey não leva em conta o aspecto oposto da relação freudiana entre teoria e prática em que a teoria psicanalítica não é apenas a teoria da prática psicanalítica, mas a teoria do fracasso dessa prática, um relato teórico da razão por que as próprias condições que geram a psicanálise a tornam impossível como profissão. É esse fracasso da prática que torna sua teoria necessária: a teoria não é exterior à prática, mas também não se constitui em um campo de saber.

         Eppur si Muove.

*Artigo apresentado no dia 14 de março no Ciclo de palestras de Psicanálise e Política: Região Gauche na Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle

 

 

 

 

 

      

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