Nessa direção, reproduzo aqui, pela terceira e última vez, um trecho do livro que, me parece, se não é a sua síntese, chega muito perto disso. O trecho está na página 112, quando o autor vai tecendo suas
considerações teleológicas acerca do Banquete. Diz ele que “o
falar de amor já é sintomático de um traçado centrífugo cujo sujeito que
o emite só se dá, paradoxalmente, no esquivar-se ou no eclipsar-se
mesmo de sua enunciação. Em outros termos, fala-se de amor somente a
partir de uma falta ou de uma hiância fundamental que, justamente, se
inscreve, se traça, se sofre e se goza no movimento mesmo
de uma colmatagem que nunca cessa de se completar, porque nunca cessa de
recomeçar.” Este trecho sintetiza, de maneira praticamente
metalinguística, o movimento do livro no seu desejo de tentar encontrar
um caminho em que se encontrem o amor e a morte, sem necessariamente
terem de se separar.

Concluo afirmando que o exercício intelectual de Rogério Miranda de Almeida, no campo da Filosofia, acaba por tocar nas margens de algo muito mais inusitado do que a questão a que se
dedica, ao longo das páginas de seu livro. Em outras palavras, o que
acaba por acontecer é uma aventura de “leitura” – palavra mágica que
perpassa cada linha de seu livro. Assim não fosse, ele não teria
passeado pela História da Filosofia, com a desenvoltura, a
independência, a autoridade, a competência e o prazer com que o faz,
galhardamente. O estudo em questão, “lê” no sentido pleno d apalavra –
eu diria no sentido da jouissance que palavra carrega, para
apontar para o sentido que Lacan dá ao termo. Assim, ao invés de apenas
demonstrar uma tese, o texto do livro de Rogério Miranda de Almeida é
uma lição de “leitura”. E digo mais, partindo da Filosofia, o exercício
exegético a que se debruça o autor não deixa dúvidas sobre sua
articulação com a Literatura.

Esta é a forma de expressão da dicotomia morte e vida, sintetizada pela metáfora mítica operacionalizada no livro de Rogério. A Literatura, como mais uma forma
de “leitura”, comparece de maneira quase imperceptível. Não há citações,
não há referências diretas. No entanto, a arquitetura do estudo me fez
lembrar os esboços que se fazem da estruturação de uma obra matriz da
literatura ocidental: a Divina comédia. Repetindo o que
disse logo acima, os círculos do inferno, do purgatório e do paraíso,
recebem aqui outras denominações e renovadas configurações. Os
pré-socráticos, a longa duração que se estende até o século dezenove e a
finalização com Freud, a meu ver, podem, sem risco de equívoco, fazer
lembrar na memória afetiva da leitura, a arquitetura poética do autor
italiano. É claro que apenas este argumento não sustenta a tese que
lanço aqui, ainda que implicitamente. Trata-se muito mais de uma
provocação para o leitor do livro de Rogério. Uma provocação, claro, que
depende da leitura que cada um vai fazer desse livro, quando o fizer. É
este movimento contínuo, que tão bem demonstra o autor, de que falo
aqui. Por isso a importância da ilação com a Literatura. Rogério Miranda
de Almeida sabe do que está falando. Apenas por isso eu convido a quem
chegou até aqui, a ir mais longe, acompanhando o brilhante raciocínio do
autor do livro que pretendi resenhar.

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