25/5/2006 13:42:21
Pensata: escrita e violência
Por Ivanisa Teitelroit Martins


O mal-estar na cultura que Freud tão bem articulou é vivido no cotidiano das instituições e das estruturas. Pela saturação imaginária, provocada pelas diversas CPIs em curso no Congresso, em que se comete excessos no ato de acusar, em que depoentes já estão condenados por antecipação sem provas, produz-se um ruído de fundo e um rumor de mal-estar transformado em peste moral que cresce sem parar, loucamente, e ameaça, em alguns momentos, destruir tudo e causar a disrupção da razão. Há pelo menos dois tipos de destruição, que não cabe trazer a esta reflexão, mas diferente destes, há a lógica do campo de concentração, exercida com maldade burocrática a frio, construindo o estado de exceção. O extermínio só foi possível porque conduzido pela burocracia, como é, hoje em dia, pela técnica moderna. De um lado o texto impresso que é lento, de outro a velocidade da Internet que ofusca a reflexão, que produz vociferações anônimas. A técnica moderna introduz uma gramática sem discurso e um discurso que pode aniquilar todos os discursos. Instaura-se um tribunal virtual e simulado com poder de disseminação de acusações, apoiadas em supostas informações sobre vínculos de jornalistas a esta ou aquela corrente partidária, como máfia, ou a um partido como organização criminosa. Incrimina-se o próprio ato de pensar ou ter opinião. Pensar, fazer pensar, informar e ter outros que pensam da mesma maneira é mafioso, é promíscuo, é criminoso. "Ser brasileiro é ser moralmente frouxo". "Ser jornalista e ser brasileiro é ser moralmente frouxo". As provas são levantadas junto a outros que são instalados na posição de fontes em off, anônimos detentores da "verdade". Fulano disse e, se foi dito, tudo está provado. O direito de resposta é vedado, o direito à defesa é vedado. A acusação em tempos contemporâneos tem seu efeito instantâneo, enquanto a defesa legal é morosa. A resposta às acusações ou é o silêncio ou a própria defesa de se dizer neutro. Mas nem a neutralidade é imparcial. O efeito é a paralisia da ação política. O resultado é o retrocesso ao campo da ausência da lei ou à violência arbitrária de uma lei - que não é, por certo, a do Estado de Direito -, exercida por um "bando soberano" (Giorgio Agambén).

Algo semelhante ocorre com a palavra e sua relação com o homem que a pronuncia e o homem que a escuta ou a lê atenta ou desatentamente. Como disse Lacan, em um de seus seminários, a palavra pode ser - e de fato é - um câncer: proliferação e multiplicação fulminante, letal. A vitória do resíduo, do detrito pode destruir a ordem social.

*Ivanisa Teitelroit Martins é psicanalista


Fonte: REVISTA IMPRENSA / PORTAL IMPRENSA

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Comentário de Charles Leonel Bakalarczyk em 30 março 2009 às 16:09
Prezada Ivanisa:

Por tais razões sou ferrenho defensor do Estado Democrático de Direito, cujas principais colunas de sustentação são as garantias da ampla defesa e do contraditório, além da presunção de inocência. Não há efetiva liberdade de impresa sem a observância desses valores (liberdade de impresa não deve ser confundida com liberdade dos donos da imprensa...).

Em todo caso, fique tranquila. Ser acusada por Mainardi é uma espécie de atestado de bons antescedentes...

Um abraço, Charles
Comentário de Ivanisa Teitelroit Martins em 30 março 2009 às 16:41
O problema, Charles, é que a imprensa acaba adotando essa prática de um modo geral. O Mainardi é somente uma caricatura do atual estado de falta de direitos que impera no país, em que as relações de poder e da mídia com o poder estão contaminadas por poucos em detrimento de muitos.
Abraço, Ivanisa
Comentário de joao carlos pompeu em 30 março 2009 às 17:14
E por falar em palavra e sua relação com o homem (não exatamente o Mainardi) rs., eis um fragmento deste artigo: "Notas sobre a experiência e o saber de experiência", de Jorge Larrosa Bondía citado daqui.
"E isto a partir da convicção de que as palavras produzem sentido, criam realidades e, às vezes, funcionam como potentes mecanismos de subjetivação.
Eu creio no poder das palavras, na força das palavras, creio que fazemos coisas com as palavras e, também, que as palavras fazem coisas conosco. As palavras
determinam nosso pensamento porque não pensamos com pensamentos, mas com palavras, não pensamos a partir de uma suposta genialidade ou inteligência, mas a partir de nossas palavras. E pensar não é somente “raciocinar” ou “calcular” ou “argumentar”, como nos
tem sido ensinado algumas vezes, mas é sobretudo dar sentido ao que somos e ao que nos acontece. E isto, o sentido ou o sem-sentido, é algo que tem a ver com as palavras. E, portanto, também tem a ver com as palavras o modo como nos colocamos diante de nós mesmos, diante dos outros e diante do mundo em que vivemos.
E o modo como agimos em relação a tudo isso.
Todo mundo sabe que Aristóteles definiu o homem como zôon lógon échon. A tradução desta expressão, porém, é muito mais “vivente dotado de palavra” do que “animal dotado de razão” ou “animal racional”. Se há uma tradução que realmente trai, no pior sentido da palavra, é justamente essa de traduzir logos por ratio. E a transformação de zôon, vivente, em animal.
O homem é um vivente com palavra. E isto não significa que o homem tenha a palavra ou a linguagem como uma coisa, ou uma faculdade, ou uma ferramenta, mas que o homem é palavra, que o homem é enquanto palavra, que todo humano tem a ver com a palavra, se dá
em palavra, está tecido de palavras, que o modo de viver próprio desse vivente, que é o homem, se dá na palavra e como palavra. Por isso, atividades como considerar
as palavras, criticar as palavras, eleger as palavras, cuidar das palavras, inventar palavras, jogar com as palavras, impor palavras, proibir palavras, transformar palavras etc. não são atividades ocas ou vazias, não são mero palavrório. Quando fazemos coisas com as palavras, do que se trata é de como damos sentido ao que somos e ao que nos acontece, de como
correlacionamos as palavras e as coisas, de como nomeamos o que vemos ou o que sentimos e de como vemos ou sentimos o que nomeamos."
Comentário de Ivanisa Teitelroit Martins em 30 março 2009 às 18:33
João,
"atividades como considerar as palavras, criticar as palavras, eleger as palavras, cuidar das palavras, inventar palavras, jogar com as palavras, impor palavras, proibir palavras, transformar palavras etc. não são atividades ocas ou vazias, não são mero palavrório." Sempre aprendendo. Obrigada pelo texto.
Abraço,
Ivanisa
Comentário de Anarquista Lúcida em 30 março 2009 às 20:27
Importante o seu texto, Ivanisa, e maravilhoso o texto citado pelo Joao. Pensamos com palavras. Isso é verdadeiro até no nível "infra", neurológico. Já Vigotski dizia isso, aliás. É a linguagem que permite ao homem sair do mundo dos reflexos.
Comentário de Charles Leonel Bakalarczyk em 31 março 2009 às 14:33
E a palavra não é só a palavra, mas o significante e o significado. A palavra busca e traz o sentido. O homem (a psique do homem) busca um sentido para sí, para os outros e para o mundo. Por isso o drama e a genealidade no uso da palavra...

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